Caminhos para a cidadania digital

Apesar dos inúmeros aspectos negativos que ficarão como legado da pandemia no Brasil, alguns elementos positivos também farão parte do redesenho mais amplo da sociedade, do mercado, do consumo e do varejo. Dentre eles, a aceleração do acesso digital, em parte decorrente do auxílio emergencial que forçou o cadastramento de perto de 70 milhões de brasileiros e agora tudo que envolve a disseminação do uso da plataforma de pagamentos instantâneos Pix. Não seria o tempo certo de promover de forma ampla um programa ambicioso de cidadania digital, especialmente direcionado aos segmentos mais jovens?

É preciso reconhecer que tem sido feito esforço relevante em algumas áreas dos governos federal, estaduais e municipais do lado da oferta de serviços digitais, com destaque para a carteira de habilitação, o próprio processo de cadastramento e votação nas eleições, o INSS e, com especial destaque, tudo o que foi desenvolvido no Estado e no Município de São Paulo, precursores nessa iniciativa, com o lançamento do visionário Poupatempo.

Do lado da oferta, muito tem sido desenvolvido pelo Estado, por entidades e empresas, porém, do lado da demanda, ou seja, tudo o que envolve o próprio consumidor-cidadão, as alternativas de programas e projetos são mais limitadas. Cada um que cuide de si.

E o tema da cidadania, conceito que envolve direitos e deveres do cidadão na sua vida em sociedade, sofreu e sofre mudanças relevantes precipitadas pela pandemia. Isso envolve restrições de deslocamentos e convívio, uso de máscara, obrigação ou não de vacinação e muito mais – porém, em especial, todos os aspectos ligados à vida e ao convívio em sociedade em tempos de profundas transformações de hábitos e atitudes.

As gerações anteriores se afastaram do conceito e das preocupações sobre cidadania por diferentes razões. A primeira delas envolveu a descrença e a falta de confiança nas lideranças políticas nacionais. E havia também um jeito de ser, pensar e agir que estimulava o egocentrismo e a autossuficiência que caracterizaram o comportamento geracional desses grupos. Sempre considerando que a discussão sobre o que é a causa e o que é consequência é bem provocativa e permite muitas interpretações.

Seria o momento certo para aproveitarmos a sensibilização e a consciência solidária em parte precipitada pelas questões geradas pela pandemia para criação, desenvolvimento e implantação de um programa amplo de cidadania digital focado nas novas gerações, nativos digitais, socialmente mais abertos e muito mais interconectados. Tentando criar, mais do que resgatar, uma consciência cidadã coletiva que contribuísse para a evolução e amadurecimento da sociedade.

A transformação comportamental precipitada pela pandemia no mundo todo teve aspectos particulares no Brasil, em especial para as novas gerações, e isso foi detectado e avaliado no estudo produzido pela MosaicLab, empresa do Ecossistema Gouvêa, que analisou visões, expectativas e realidade desses segmentos, criando matéria-prima importante para reconhecer essas mudanças e como conviver com elas em aspectos ligados à sociedade, ao mercado, ao consumo e no varejo.

Mas, para além de reconhecer as mudanças e como se adaptar à nova realidade, parece ser o momento certo de buscar caminhos para criar noção e prática da cidadania aproveitando a sensibilização gerada pelas introspecção coletiva precipitada pela pandemia.

Um relevante e ambicioso projeto de cidadania apoiado no digital direcionado às novas gerações para contribuir para um País mais maduro em seu comportamento em sociedade.

O desenho de um programa dessa natureza deveria trabalhar a partir da visão dos conceitos básicos de cidadania percebidos por essas novas gerações, dos millennials aos pós-millennials, para, a partir de uma visão do que seria desejável e possível, criar pontes entre o que temos e o que queremos ter em termos de cidadania, em benefício da construção de um País menos desigual, mais justo, mais solidário, mais responsável, mais consciente de seus ativos e, em especial, das responsabilidades coletivas e individuais.

Seguramente ambicioso para o momento, mas por que desprezar a alta sensibilização com esses temas que emerge da pandemia? Não teremos no futuro próximo momento mais apropriado para isso. E podemos transformar o tempo dramático que temos vivido em algo motivador de uma transformação geracional para a construção de uma nova realidade.

Envolvendo os pós-millennials

Ambos devem ser caracterizados como pós-millennials.

Ela tem 11 anos. Seus pais têm PHD conquistado na Inglaterra, a mãe em Biologia Humana e o pai em Física Quântica. Vivem todos hoje no Rio de Janeiro. Com as restrições e limitações impostas pela pandemia, ela tem acompanhado a escola a partir de casa e seu dia padrão se divide entre aulas, trabalhos, intensa interação com amigas pelas redes sociais e um mínimo de atividades sociais, com excesso de cuidados por conta do momento. Praticamente não assiste TV aberta e sua conexão fundamental com o mundo externo ao apartamento em que vivem, no Recreio dos Bandeirantes, é pela internet e redes sociais.

Há dois anos, sensibilizada pela angústia da irmã mais velha de 14 anos que não recebia produtos comprados num site de origem chinesa, desenhou um aplicativo que notificaria sobre o estágio no processo de entrega do produto usando músicas identificadas como preferidas pelo comprador. E propôs alternativas financeiras para viabilizar a proposta, sugeridas a partir da proximidade com os pais, que desenhavam modelos para implantação de um site de viagens globais com foco em sustentabilidade.

Ele tem 11 anos e estuda numa escola de uma rede internacional, sendo educado simultaneamente em português e inglês. Pelas mais diversas razões, empresariais, profissionais e pessoais, a família viaja muito, no País e no exterior, mas permanece em constante contato via internet com a escola e seus colegas.

Apaixonado por games, suas atividades diárias envolvem os trabalhos e atividades escolares e as limitadas atividades sociais onde quer que esteja, restritas por todas as cautelas impostas pela pandemia global.

Sua paixão por esportes, em especial futebol, o tornou um profundo e atualizado conhecedor do que acontece nesse mundo por meio das redes sociais, da internet e dos games, para além do campo e do jogo em si.            Raramente assiste TV.

É surpreendente ouvi-lo e à sua irmã de 14 anos e como advogam o que hoje vivem em seu processo educacional, ao discutirem sobre os métodos de ensino praticados em sua escola. Tudo baseado em valores conhecidos, exemplificados e detalhados, bem como na constante interação entre os colegas, na qual o professor age como promotor do compartilhamento, da discussão e da troca de ideias. Tudo atualmente em bases virtuais. Eles próprios comparam e valorizam o que hoje vivenciam quando consideram os métodos da escola anterior, em que todo o conhecimento emanava do professor e os alunos eram apenas ouvintes.

São apenas dois exemplos, próximos, profundamente limitados em seu alcance social,  que personalizam a geração pós-millennial que está se formando. São futuros consumidores-cidadãos, que deveríamos considerar para um repensar mais ambicioso do que podemos fazer agora para promover conceitos atuais da cidadania da qual temos tanta carência.

Vamos nos inspirar a pensar, para além dos enormes desafios do presente, como transformar nossa realidade futura, focando também na disseminação de valores, atitudes, visões e comportamentos desejáveis para o País.

Eles estão muito mais preparados do que imaginamos.

Nós estamos preparados e dispostos a promover essa mudança?

Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem
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