Transformação digital sem educação corporativa?

Após dois anos de pandemia, aqui no Brasil iniciamos o retorno à vida sem distanciamento e máscaras. O trânsito nas ruas das grandes capitais comprova que a rotina de trabalho fora de casa está voltando por aqui. Eventos presenciais de grande porte, como a Campus Party Brasília, realizada entre os dias 23 e 27 do mês passado, voltam a acontecer. Aos poucos vamos retomando a “antiga vida normal”, em comunidade, o bom e velho relacionamento pessoal em carne e osso, e com sorriso no rosto! Mas qual foi o legado desse longo tempo de distanciamento social em nossas vidas?

Sem sombra de dúvidas, a aceleração da transformação digital foi o maior transformador dos hábitos e da rotina nos lares e na vida das famílias. Reuniões virtuais, aulas online, lives, social commerce, banco digital, Pix, compre online e retire na loja, canais de streaming e uma série de novos costumes foram consolidados em nossa rotina de vida. É o primeiro passo para que tenhamos a transformação digital acontecendo de fato na sociedade, pois ela não se consolidará sem uma transformação cultural. Mas será que esses novos hábitos aconteceram em todas as camadas da sociedade?

Infelizmente, o abismo social que temos entre as diferentes camadas da sociedade brasileira não permitiu que classes menos favorecidas usufruíssem do universo digital para incorporar novos hábitos na rotina de vida. A escassez de recursos em grande parte desses lares torna a transformação cultural e digital de nosso país um desafio adicional. A educação pública durante a pandemia é o maior exemplo de como será difícil fazer uma transformação digital por aqui. As escolas públicas não tiveram recursos para manter aulas virtuais. Os estudantes, muitas vezes, não tiveram acesso à internet e, assim, foram dois anos de estagnação na preparação de jovens para um mundo mais tecnológico e digital. Como podemos reverter esse cenário?

Há aproximadamente um ano, o ex-presidente Michel Temer disse em um evento para lideranças do varejo que “O país precisa de unidade e ação”. Nesse mesmo evento, o ex-presidente falou da importância do varejo e do consumo para retomar o crescimento. Os dois aspectos pontuados por Temer são, em meu ponto de vista, a chave para iniciarmos a reversão do cenário e conseguirmos qualificar nossa mão de obra para um futuro mais promissor em nosso Brasil. A sociedade civil tem que estar unida e agir de maneira coesa, exigindo que haja projetos concretos de geração de emprego por parte da esfera pública, principalmente no setor de varejo e consumo. Mas como o varejo poderá ser relevante na transformação das pessoas e da cultura digital?

O varejo é o setor privado que mais gera postos de trabalho no Brasil. O varejo tem uma malha extremamente capilarizada e chega nas regiões mais distantes e menos desenvolvidas. Esses dois pontos fazem o setor varejista ampliar seu potencial de contribuição para a qualificação de nossa mão de obra. Já se foi o tempo em que “qualquer pessoa respirando serve para ser vendedor de loja”. Por outro lado, vivemos um cenário de baixíssima qualificação profissional em nosso mercado de trabalho ameaçando a produtividade das operações. Os varejistas podem, e devem, assumir o protagonismo da qualificação profissional no Brasil. Se não fizerem, correm o risco de serem devorados pela baixa produtividade e elevados custos operacionais. Mas será que os varejistas estão prontos para esse protagonismo?

A educação corporativa nunca foi prioridade de investimento no setor varejista. Treinar para quê, se o turn over no varejo é altíssimo? Esse pensamento era (ou ainda é) comum na cabeça dos líderes de varejo. O cenário mudou. Pensar nas pessoas deve ser a prioridade número 1 de todas as esferas da sociedade. Esse foi o maior ensinamento da pandemia. Talvez ainda não seja o maior aprendizado, mas acredito que estamos caminhando juntos para que seja. O Boticário é um exemplo de investidor na qualificação das pessoas e usa uma experiência imersiva, em metaverso, para capacitar e desenvolver continuamente as pessoas que fazem a empresa ser o que é. Mas, será que investir em qualificação dos colaboradores é uma novidade?

Paulo Camargo, CEO da Arcos Dorados, franquia responsável pela operação do McDonald’s na América Latina e Caribe, diz que “Em primeiro lugar é preciso ter empatia” e que as “As pessoas precisam se conectar às estratégias”. As palavras de Camargo foram ditas quando apresentava sua visão sobre metaliderança. Qual será a turbina de sucesso do McDonald’s? Não deve haver apenas uma turbina, mas, com certeza, a prioridade na qualificação de seus jovens colaboradores é uma das mais potentes delas. Obrigado, McDonald’s pelo exemplo de longa data em transformar jovens entrantes no mercado como caminho para o sucesso de toda a sociedade. E você? Já está priorizando a educação corporativa em sua empresa?

Luiz Guilherme Baldacci é sócio-diretor da Friedman
Imagem: Shutterstock

Luiz Guilherme Baldacci

Luiz Guilherme Baldacci

Guilherme Baldacci é sócio-diretor da Friedman, empresa da Gouvêa especializada em Gente, Gestão, Talentos e Treinamento. Baldacci possui mais de 25 anos de carreira focada no varejo e ampla vivência em gestão de operações em empresas de franchising e consultoria.

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