Fusões e aquisições caem com juro alto e crise bancária de EUA e Europa

No Brasil, o número de fusões e aquisições encolheu 16% de janeiro a março ante o mesmo período do ano passado, totalizando 335 operações

Fusões e aquisições caem com juro alto e crise bancária de EUA e Europa

Os juros persistentes e a turbulência bancária nos Estados Unidos e na Europa retardaram a retomada do mercado de fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês) nas principais praças globais. No Brasil, a Selic em 13,75% ao ano e a crise de crédito agravada com o caso Americanas abalaram os negócios, embora em menor intensidade do que em outros países da América Latina como Peru e Chile, sofrendo também por questões políticas.

No Brasil, o número de M&As encolheu 16% de janeiro a março ante o mesmo período do ano passado, totalizando 335 operações, conforme dados da consultoria Kroll obtidos pelo Estadão/Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado). O ritmo de queda supera a média global e dos EUA, onde a baixa foi de 14%. No entanto, é menos da metade do baque visto na América Latina, responsável por 10% do mercado global. Na região, a retração foi de 34%, no mesmo período de comparação.

“O Brasil ficou mais próximo do desempenho mundial e melhor do que a América Latina porque não temos uma estrutura alavancada, usando dívida (nas transações). Apesar do custo do dinheiro mais elevado e da menor liquidez, o País foi menos prejudicado uma vez que a taxa de juros afeta um pouco menos o financiamento das transações”, explicou o diretor de Finanças Corporativas da Kroll no Brasil, Alexandre Pierantoni.

Um banqueiro da Faria Lima comentou que não tem neste momento tanto capital disponível para bancar fusões e aquisições, em um ambiente de mercado de renda fixa complicado e as aberturas de capital (IPO, na sigla em inglês) fechadas, e sem chance de voltar no curto prazo. Ao mesmo tempo, fundos de private equity (investimento em empresas) estão com os caixas cheios e avaliando possíveis negócios, mas com cautela. “Está todo mundo um pouco mais ressabiado para fazer movimentos, por conta do maior risco.”

Ações ‘baratas’

Na Bolsa, ações muito depreciadas podem estimular não só ofertas de compra de empresas por fundos e fusões. No BTG Pactual, os executivos têm se debruçado todo dia em análises de como fazer M&As das empresas que abriram o capital recentemente e estão baratas, com quedas das ações perto de 90%. “Vamos ver muita empresa se juntando”, previu o diretor do banco, Cláudio Berquó, em evento recente.

O varejo é no Brasil um dos setores mais agitados em termos de perspectiva de aquisições ou fusões, com várias empresas afetadas pelo ambiente de juros altos e queda do poder aquisitivo por causa da inflação. Entre os nomes comentados, está uma possível fusão da Tok&Stok com a rival Mobly.

Outro setor movimentado é o de energia elétrica, principalmente em geração e distribuição de energia renovável, como eólica e solar. Esta semana, a Neoenergia vendeu 50% de oito ativos de transmissão para o GIC, fundo soberano de Cingapura, por R$ 1,2 bilhão.

Crise bancária

Nos EUA, o quadro macroeconômico de juros altos e inflação persistente foi agravado pela turbulência bancária em março em meio à queda de três dominós no setor, o que aumentou a volatilidade nos mercados e respingou nos negócios de M&As. “A expectativa para 2023 era de um mercado um pouco mais animado, mas, em março, a visão se inverteu e o segmento de M&As ainda ensaia uma retomada”, disse o sócio do escritório de advocacia norte-americano Hughes Hubbard & Reed LLP, Carlos Lobo, ao Estadão/Broadcast.

“A confiança afeta a capacidade das pessoas de seguir em frente, serem ativas no mercado de M&A, e certamente o que aconteceu ao longo das últimas semanas desacelerou alguns dos diálogos”, disse o presidente do Goldman Sachs, David Solomon.

Além do número de transações, o volume financeiro movimentado por M&As encolheu em todas as praças no início do ano. América Latina, Caribe e Austrália amargaram os piores desempenhos, com queda de 69% no primeiro trimestre ante um ano, segundo a consultoria americana Dealogic. Nos EUA, maior palco de M&As do mundo, o volume financeiro caiu 36%, para US$ 3,6 bilhões. Já na Europa, a despeito da venda às pressas do Credit Suisse ao rival UBS, a cifra recuou quase pela metade, ritmo esse que desacelera para uma baixa de 43% sob a ótica global.

Retomada

Apesar dos números, banqueiros de Wall Street e da Faria Lima mantêm o otimismo e esperam que fusões e aquisições represadas em meio ao cenário mais difícil avancem e ajudem o mercado a engatar uma retomada mais forte.

No Brasil, a expectativa é de recuperação nos negócios ao longo dos próximos meses e que pode ser acelerada a depender do quadro macroeconômico, com o avanço do arcabouço fiscal e da reforma tributária, fora a esperada queda dos juros no País. Dentre os impulsos para o mercado brasileiro de M&As, o movimento de grandes multinacionais revisando portfólios locais pode agitar o mercado, segundo Pierantoni, da Kroll.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Com informações de Estadão Conteúdo (Altamiro Silva Junior e Aline Bronzati)
Imagem: Shutterstock

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