A crise societária entre Alexandre Birman, CEO da Azzas 2154, e Roberto Jatahy, sócio e um dos fundadores do Grupo Soma (que fundiu com Arezzo, de Birman, em 2024), ganhou um novo capítulo nesta terça-feira, 12, e voltou a colocar a governança da companhia sob pressão no mercado. A Mercado&Consumo apurou com a Azzas 2154 que o processo tramita em segredo de Justiça no Rio de Janeiro.
O caso envolve a gestão da unidade de moda masculina da companhia, mais especificamente, os rumos da Reserva, uma das marcas mais relevantes da operação. Em comunicado ao mercado divulgado nesta terça-feira, 12, Eric Alexandre Alencar, diretor-financeiro, corporativo e de Relações com Investidores da companhia, afirmou que a Azzas 2154 foi “surpreendida pela existência de um pedido judicial movido por Roberto Jatahy envolvendo a gestão da unidade masculina do grupo, que nos termos do estatuto social, compete ao CEO”.
Poucas horas depois, Roberto Jatahy obteve uma decisão cautelar favorável na Justiça para impedir a cisão da Reserva da estrutura de vestuário da companhia, revelou o jornal Valor Econômico. “A decisão da juíza Simone Gastesi Chevrand, da 7ª Vara Empresarial da Capital do Rio de Janeiro, impede mudanças envolvendo a separação da marca da operação masculina até que o caso seja analisado em procedimento arbitral”.
Na prática, a decisão suspende um movimento defendido por Alexandre Birman de reorganização da estrutura da unidade masculina da Azzas 2154, incluindo a integração da Reserva com a operação da Hering – iniciativa contestada por Jatahy. Segundo a decisão, a companhia não poderá promover separação dos negócios do Rio de Janeiro, realizar transferência de equipes, encerrar atividades ou alterar a sede da operação ligada à Reserva até nova deliberação judicial.
O motivo da disputa foi antecipado inicialmente por Lauro Jardim, em sua coluna no jornal O Globo. Segundo a publicação, o embate envolve justamente uma decisão de Birman de segregar a Reserva da operação de moda masculina ligada a Jatahy, após mais de um ano de integração entre as estruturas da antiga Arezzo&Co e do Grupo Soma.
O mercado reagiu negativamente ao episódio. As ações da companhia operavam em queda nesta terça-feira, refletindo o aumento da percepção de risco envolvendo governança e estabilidade da relação entre os principais acionistas da empresa.
Histórico de desentendimentos, números e avaliação do mercado
A discussão ocorre em torno de uma das marcas mais emblemáticas da antiga AR&Co. Fundada por Rony Meisler e Fernando Sigal, a Reserva foi adquirida pela Arezzo&Co em 2020 e tornou-se um dos principais ativos de moda masculina da companhia. Hoje, a Azzas 2154 reúne 28 marcas no portfólio, entre elas Arezzo, Schutz, Reserva, Farm, Animale, Hering, Reserva Mini, NV e Maria Filó, operando uma plataforma multimarcas de moda, lifestyle e calçados considerada a maior da América Latina.
Desde a fusão, anunciada em 2024, a convivência entre Birman e Jatahy sempre foi acompanhada de perto pelo mercado. A união criou uma gigante de moda, lifestyle e calçados, mas também trouxe questionamentos sobre integração cultural, velocidade de execução e alinhamento estratégico entre duas lideranças historicamente fortes no setor.
De um lado, Alexandre Birman sempre foi associado a uma gestão mais disciplinada, orientada para eficiência operacional, rentabilidade e execução financeira. Do outro, Roberto Jatahy construiu reputação ligada à criatividade, branding e construção cultural de marcas. A combinação das duas visões ajudou a criar potência de escala no setor de moda brasileiro, mas também passou a levantar dúvidas sobre modelo de gestão e tomada de decisão dentro da nova estrutura.
Nos últimos meses, os sinais de desgaste começaram a ficar mais evidentes. Mudanças em estruturas internas relevantes passaram a alimentar leituras de bastidor sobre tensões crescentes entre os principais acionistas da companhia. A pergunta é: de fato, a fusão se sustenta por muito tempo? Em abril deste ano, por exemplo, a saída de Ruy Kameyama da liderança da vertical Fashion & Lifestyle chamou atenção do mercado e desencadeou uma nova reorganização operacional dentro do grupo. O movimento foi interpretado por parte dos investidores como ruim (ele seria a figura essencial para a ponte entre Birman e Jatahy). O impacto disso apareceu na Bolsa. Na época da saída do executivo, as ações caíram em torno de 8%, após fato relevante divulgado ao mercado.
Ao longo dos últimos 12 meses, as ações da Azzas 2154 acumularam forte volatilidade e relevante desvalorização, refletindo não apenas os desafios operacionais da integração, mas também um ambiente mais difícil para o varejo de moda no Brasil. Juros elevados, consumo mais seletivo, crédito restrito e avanço de plataformas internacionais asiáticas passaram a pressionar o setor, como um todo, de forma mais intensa.
Mas, no caso da Azzas 2154, investidores passaram a enxergar um componente adicional: o risco de governança. Desde a fusão, o mercado vinha monitorando a capacidade da companhia de capturar sinergias, integrar operações e manter estabilidade decisória em uma estrutura construída a partir da união de culturas empresariais bastante distintas. Rumores recorrentes de desgaste entre Birman e Jatahy passaram a contaminar parte dessa percepção.
Paradoxalmente, os números operacionais mais recentes vinham ajudando a sustentar uma visão mais construtiva sobre a companhia. No acumulado de 2025, a Azzas 2154 reportou receita bruta de R$ 14,7 bilhões nas operações continuadas, avanço de 7,1% na comparação anual, além de Ebitda recorrente de R$ 1,94 bilhão, crescimento de 5,8%, com margem Ebitda de 16,4%. O lucro líquido recorrente da companhia somou R$ 770,7 milhões em 2025, acima dos R$ 590,7 milhões registrados no ano anterior, em um movimento que o mercado vinha interpretando como sinal de avanço gradual na captura de sinergias, eficiência operacional e disciplina financeira após a fusão.
A companhia também destacou geração operacional de caixa de R$ 1,2 bilhão em 2025 – considerada a maior desde a fusão – além de redução da alavancagem líquida para 1,28 vez, mesmo após pagamento de R$ 500 milhões em dividendos no trimestre. A própria Reserva aparecia como um dos ativos estratégicos mais relevantes dentro dessa narrativa. No relatório do quarto trimestre de 2025, a companhia afirmou que a marca “continuou a ser a marca masculina mais querida e desejada do Brasil” e destacou avanço em rentabilidade, inauguração de novas flagships “Casa Reserva”, expansão da linha Reserva Sprint e melhora operacional ligada a estoques, despesas e margem do e-commerce. O canal multimarcas, por exemplo, avançou 15,6%, “impulsionado principalmente pela Reserva”, segundo o relatório da companhia.
Os números do primeiro trimestre de 2026, porém, começaram a mostrar um ambiente mais pressionado para a companhia. No período, de acordo com o relatório aos investidores, o lucro líquido recorrente totalizou R$ 63,9 milhões, recuo de 45,7% em relação ao primeiro trimestre de 2025, com margem líquida de 2,6%, recuo de 1,8 ponto percentual na comparação anual. O trimestre também foi marcado por ajustes deliberados na operação da Reserva, especialmente na relação entre sell-in e sell-out da rede de franquias, em uma estratégia voltada para preservação de margem, disciplina de estoques e melhora de rentabilidade.
O JP Morgan, no entanto, em abril, rebaixou a classificação de compra de ações da Azzas 2154 para neutra. E citou, por exemplo, que a companhia encontra dificuldades para retomar o avanço em marcas maduras e ainda desafios no canal de franquias.
Esse contexto ajuda a explicar por que decisões envolvendo a gestão da Reserva ganharam peso estratégico dentro da companhia justamente agora. Mais do que uma discussão sobre uma única marca, o episódio parece refletir divergências sobre ritmo de crescimento, gestão de canais, captura de rentabilidade e direcionamento operacional de um dos ativos mais relevantes da vertical masculina da Azzas 2154. Acima de tudo, gestão. Sinais cada vez mais claros de desentendimentos não sinalizam estabilização operacional. Dão recado ruim. Turbulências da fusão que parecem não chegar ao fim.
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