O Momento é de trégua

Estou alinhado entre os mais inconformados com o que tem acontecido ao Brasil em termos de valores, ética, seriedade, corrupção, malversação no uso dos recursos públicos e descaso com a saúde, educação e a segurança. E como tal, tenho buscado usar meu capital pessoal, em especial relacionamentos e alguma influência, para sensibilizar, advogar e propor uma atitude contestadora e, ao mesmo tempo, construtiva, para mudar o que temos pela frente.

O país e nossos sucessores não merecem isso que aí está. Estão roubando nossa esperança e sem esperança não há razões para prosseguir. Mas é preciso reconhecer que estaremos nos próximos dias vivendo um período muito especial que mereceria outras reflexões para além daquelas do curto prazo.

Gostemos ou não o Brasil estará na maior e mais acessada vitrine do Mundo. Serão bilhões de pessoas acompanhando pelas mais diversas mídias o que já está acontecendo e irá acontecer durante a Copa do Mundo. Inegavelmente, o mal está feito. O que poderia ser um momento único e mágico para mostrar um país sério, que sabe planejar, organizar, receber e envolver, em boa parte já está comprometido.

O que se refere a planejar, organizar, racionalizar e excelência em realização, elementos que teriam enorme valor no mundo dos negócios e na valorização das marcas, produtos, imagem, empresas e profissionais brasileiros, não irá mais acontecer.

Essa Copa poderia ser a redenção de muitos aspectos associados negativamente à imagem do Brasil. Poderia, mas não será. Ao contrário, vamos confirmar muitos dos elementos associados à nossa imagem empresarial e profissional. Agora não é exatamente o momento de discutir as causas. Adiante sem dúvida temos que fazer essa discussão e cobrar quem deve ser cobrado.

No entanto ainda temos um conjunto de elementos que depende apenas de nós, os brasileiros e que, felizmente, corre paralelo ao conjunto de elementos controlados ou administrados pela coisa pública.

Diz respeito à nossa capacidade de receber, envolver, comemorar e vibrar com o que de mais puro e autêntico temos em nosso comportamento: a alegria de viver, no seu sentido mais amplo. Isso é genuíno e natural, faz parte de nosso jeito de ser.

De forma quase inconsequente me alinho àqueles que propõem uma trégua neste momento, tentando salvar o que pode ser salvo com respeito à realização da Copa do Mundo.

O primeiro a levantar essa bandeira foi Abilio Diniz durante o Fórum de Comandatuba e posteriormente em artigo dedicado a esse assunto, seguido por outro do Nizan Guanaes, nos mesmos termos. Por si só a tese já estaria muito bem defendida. Mas na prática ainda não vemos que ela tenha dominado e é importante o reforço da proposta.

O que está feito, está feito, e temos que cobrar responsabilidades, mas no momento, temos que salvar o que pode ser salvo e é aí que entra o nosso melhor lado, aquele em que somos mestres, que é nossa capacidade de superação face às adversidades.

Definitivamente o que se nota é um clima muito diferente de outras Copas. A decoração e as bandeiras nas casas, ruas, bairros, comércio e barracas é tímida, quase subversiva. As bandeirolas nos carros em número quase insignificante. Tudo com medo de parecer alienação. A atitude das pessoas de forma geral é contida, desconfiada. O clima é de cautela associada com rancor por conta das manifestações e problemas agravados no dia a dia.

O chamamento é que coloquemos, por alguns dias, os problemas de lado para envolver e encantar os que irão ver e acompanhar o evento, buscando ampliar a imagem positiva que se tem do país nos seus aspectos habituais de alegria, espontaneidade, descontração, comunicação e relacionamento humano, elementos importantes, quase que únicos associados à imagem Brasil.

É responsabilidade de cada um contribuir de alguma forma para que tudo isso não seja perdido e que possamos salvar um pouco e, principalmente, aprender muito. E, passada a festa, vamos fazer a faxina que precisa ser feita.

Aprender com os erros ensina mais do que com acertos.

 

*Marcos Gouvêa de Souza (mgsouza@gsmd.com.br) diretor-geral da GS&MD – Gouvêa de Souza.

 

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