Bets ampliam inadimplência severa entre homens 35+ e mais escolarizados

Expansão das apostas desde 2023 eleva a incapacidade de pagamento, mostra estudo da CNC

Bets ampliam inadimplência severa entre homens 35+ e mais escolarizados

Homens com 35 anos ou mais, de baixa renda e com maior nível de instrução escolar são mais vulneráveis aos efeitos das apostas online (bets) no bolso. É o que mostra um estudo divulgado nesta terça, 28, pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Pela primeira vez em 16 anos de monitoramento mensal, o volume de lares endividados no Brasil superou a barreira dos 80%. O objetivo do estudo foi, ao cruzar dados de consumo com o perfil dos apostadores, para entender os motivos pelos quais, mesmo com indicadores de emprego estáveis, a capacidade de pagamento das famílias continue se deteriorando.

A análise aponta como o fluxo de recursos destinados aos jogos de azar tem drenado a renda disponível para itens e serviços mais essenciais, reduzindo o poder de compra e elevando o comprometimento do orçamento doméstico. O principal indicador dessa vulnerabilidade é a inadimplência severa, caracterizada por famílias que declaram não ter condições de pagar suas dívidas nos próximos 30 dias

As famílias de renda mais baixa (especialmente aquelas que ganham até 3 salários mínimos e entre 3 a 5 salários mínimos) são as mais afetadas. Esse grupo apresenta um aumento significativo tanto no endividamento global quanto na incapacidade de pagamento. As famílias de renda alta (mais de 10 salários mínimos) também mostram vulnerabilidade ao aumentarem seus atrasos e inadimplência severa, mesmo reduzindo dívidas formais.

Quando se considera o gênero, os homens são substancialmente mais vulneráveis e responsivos ao choque das apostas. De acordo com o estudo, eles  apresentam um aumento generalizado e significativo no endividamento total, na inadimplência severa (famílias que não terão condições de pagar) e no tempo médio de atraso das contas.

No fator idade, pessoas com 35 anos ou mais demonstram maior fragilidade financeira decorrente das apostas. Assim, o resultado vai na contramão da crença de que as bets impactam principalmente os mais jovens. É na faixa etária mais madura que se observam os maiores impactos no endividamento total e na inadimplência severa.

Outro resultado contraintuitivo diz respeito a escolaridade. Famílias com maior escolaridade (2º grau completo ou mais) são mais vulneráveis aos impactos das bets, segundo o estudo da CNC. O relatório sugere que o maior acesso digital e a bancarização desse grupo facilitam a exposição aos riscos das apostas, resultando em impactos significativos em todos os indicadores de endividamento e inadimplência.

“O ecossistema de jogos que envolve bets, apostas preditivas e mais outros jogos faz parte da economia da experiência digital. Mas há dramáticos impactos na economia real, em especial varejo, consumo e serviços com resultado na redução de emprego e renda dos setores que são os maiores empregadores privados do País”, analisa Marcos Gouvêa de Souza, diretor-geral da Gouvêa Ecosystem e publisher da Mercado&Consumo.

Um artigo do executivo publicado nesta segunda-feira, 27, no portal debateu justamente o impacto das bets nesses setores. “É importante considerar que existe uma mensagem clara: o apelo do entretenimento está cada vez mais associado aos hábitos dos omniconsumidores, e cabe ao varejo, ao consumo, às marcas e aos serviços buscar alternativas para jogar também esse jogo de forma criativa, inovadora e envolvente para manter ou expandir seus negócios”, analisa.

Imagem: Envato

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