Após o governo dos Estados Unidos (EUA) anunciar, em 28 de maio, que vai designar as facções criminosas brasileiras Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO), surgiram diversas questões a respeito da soberania nacional. Entre elas, como essa ação do governo norte-americano poderia impactar a economia e, em especial, o comércio varejista brasileiro.
A reportagem da Mercado&Consumo foi atrás dessa resposta. Em conversa com três especialistas, o consenso foi de que, caso o PCC e o CV sejam considerados grupos terroristas, o principal impacto da medida ocorreria no sistema financeiro, com reflexos indiretos sobre o varejo.
Gabriel Uarian, analista-chefe da Cultura Capital, explica que essa designação ativaria sanções do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros dos EUA (OFAC) e regras antiterrorismo americanas, o que poderia elevar o escrutínio sobre qualquer transação com nexo nos Estados Unidos.
“Para o varejo, isso significa maior custo de conformidade, possível restrição ou maior dificuldade de acesso a determinados serviços financeiros e cautela de investidores estrangeiros. O varejo opera com margens apertadas e depende de fluxo de caixa rápido. Qualquer demora ou rejeição em transações internacionais pode apertar a liquidez, especialmente em períodos sazonais, como Black Friday ou Natal”, afirma Uarian.
Já Rafael Cortez, sócio da Tendências Consultoria, destaca que a classificação das organizações criminosas poderia trazer efeitos indiretos para o varejo, em decorrência de uma eventual alteração na política monetária estabelecida pelo Banco Central (BC).
Segundo ele, um cenário de maiores incertezas em relação ao Brasil poderia resultar em uma eventual depreciação do câmbio, o que, somado a um quadro internacional preocupante, poderia levar o Banco Central a interromper o atual ciclo de redução dos juros. “Ao longo do tempo, isso afetaria as condições financeiras das famílias e, portanto, a renda disponível para consumo poderia ficar menor, impactando negativamente o varejo”, acrescenta Cortez.
Crédito e investimentos sob maior escrutínio
A classificação do PCC e do CV como organizações terroristas também poderia dificultar o acesso das varejistas brasileiras ao crédito. Para Fábio Murad, sócio e fundador da Ipê Avaliações, isso ocorreria principalmente nos casos em que a empresa não consiga demonstrar controle financeiro e rastreabilidade de suas operações.
“Bancos podem demorar mais para aprovar crédito, exigir garantias maiores ou elevar o custo das linhas. Em transações internacionais, o escrutínio tende a ser ainda maior, porque instituições estrangeiras precisam evitar qualquer risco de sanção”, afirma.
A demora na concessão ou a rejeição de crédito pode afetar importações de mercadorias, pagamentos a fornecedores globais e recebimentos de exportações indiretas. Uarian explica que o acesso ao crédito externo fica mais caro ou limitado para empresas com operações em áreas de maior presença do crime organizado.
“A captação de investimentos estrangeiros diretos sofre porque fundos soberanos e institucionais evitam jurisdições percebidas como de alto risco terrorista. No varejo, isso pesa mais em players que dependem de importados ou que planejam expansão via M&A internacional”, diz.
Na análise de Uarian, os segmentos mais vulneráveis são aqueles com cadeias de suprimentos complexas e operações espalhadas por diferentes regiões do país, o que aumenta os desafios de monitoramento e rastreabilidade. Entre eles estão o varejo de eletroeletrônicos e moda, com forte presença de importações; supermercados e hipermercados, que dependem de logística extensa; farmácias e perfumarias, com distribuição capilar; e o varejo de construção e materiais de acabamento, que atua com fornecimento regional.
“As lojas de departamento e os e-commerces com marketplace também sentem os efeitos, pela dificuldade de monitorar milhares de sellers. Segmentos mais premium ou concentrados em grandes centros urbanos tendem a sofrer menos diretamente, mas são impactados indiretamente pelo aumento do custo de capital”, conclui.
Imagem feita por Inteligência Artificial.
