Participar anualmente do NRA Show, em Chicago, é sempre um privilégio. O evento traz um olhar dedicado ao que acontece na operação de foodservice, deixando claro que a resposta do mercado norte-americano para o complexo cenário de consumo não está em conceitos abstratos, mas na eficiência, como automação do backstage, soluções preditivas de Inteligência Artificial voltadas à gestão de perdas e engenharia de cardápio focada em menus mais enxutos e bebidas premium — atualmente, o grande motor de rentabilidade atual.
O foodservice brasileiro também vive um momento de forte pressão sobre as margens, impulsionado pela volatilidade dos custos e pela constante transformação nas expectativas de conveniência e experiência do consumidor. Chicago torna-se um ponto de partida fundamental para conectar a inteligência operacional da NRA Show às potências de inovação em produto e escala que aguardam na SIAL Paris e nos hubs tecnológicos da China.
A imersão nos Estados Unidos mostra o roteiro ideal de como desenhar processos eficientes, aprimorar a gestão e aplicar a tecnologia às operações. A SIAL Paris surge como o principal palco global para decodificar o que vender: quais produtos oferecer, quais os melhores insumos e quais ingredientes ganharão destaque. Diante de um consumidor que demanda, cada vez mais, saudabilidade, indulgência e preços competitivos, a SIAL antecipa tendências em ingredientes funcionais, proteínas de alto valor agregado incorporadas à rotina comum, além de soluções voltadas à transição ecológica que impactam toda a cadeia de suprimentos.
Cruzar o Atlântico com a mentalidade de margem apertada debatida em Chicago direciona o olhar para as inovações apresentadas em Paris sob a ótica da viabilidade econômica e da adaptação industrial, transformando tendências globais em diferenciais competitivos reais e escaláveis para a realidade brasileira e para diversos outros mercados.
O fechamento dessa tríade estratégica encontra na China o ápice da disrupção. Enquanto o Ocidente ainda discute as barreiras financeiras e culturais para a adoção da automação intensiva e do omnichannel radical, o mercado asiático já opera em um patamar no qual o ecossistema digital e a logística preditiva moldam o comportamento diário de centenas de milhões de consumidores.
A Gouvêa Ecosystem liderará, em parceria com o Instituto Foodservice Brasil, uma delegação com executivos brasileiros para a SIAL e a China em outubro, com uma programação rica em termos de visitas técnicas e aprendizados.
O que esperar da SIAL Paris 2026?
A grande discussão será sobre a hiperfuncionalidade, com destaque para alimentos nutricionalmente densos, com ingredientes focados na saúde do microbioma, aplicados a molhos, bases culinárias e bebidas para o foodservice, tendência que foi destaque no NRA Show.
Atenção também à área de inovação, que contará com degustação em tempo real, com foco em insumos de alto rendimento — um olhar para a eficiência a partir do produto —, além de ingredientes que reduzam etapas de preparo, mantendo alta qualidade em diferentes aspectos sensoriais.
Valerá observar também a sofisticação das marcas próprias (private label), que alcançaram alta qualidade técnica, além de soluções em embalagens sustentáveis, como barreiras de gordura sem plástico, que ditam o padrão regulatório europeu, tendência que costuma chegar ao Brasil três ou quatro anos depois.
O que esperar de uma viagem à China logo após a SIAL?
Em Hangzhou, o olhar estará voltado para automação da linha de frente. Cidades do Futuro e distritos de inovação, como o Future Sci-Tech City, operam restaurantes comerciais, a exemplo do pioneiro 24 Solar Terms AI Robot Restaurant. A conveniência ganha destaque também com aprendizados sobre como replicar consistência de sabor e reduzir o tempo de preparo, com pratos prontos em três minutos, mantendo um staff humano reduzido a apenas 30 a 40% da operação, uma visão essencial diante da baixa oferta de mão de obra.
Em Shanghai, o destaque será um estudo rico sobre fluxo de loja e experiência do cliente. Chama a atenção o conceito de smart store: lojas compactas, algumas com apenas 10 m², operando com alta densidade de pedidos via Mini-Programs (WeChat, Alipay), nas quais o cliente não fala com ninguém, o pagamento é digital e o tempo de retirada é de poucos minutos.
Em Beijing, o foco estará na cadeia de suprimentos e segurança alimentar em escala massiva, para entender como as dark kitchens são integradas a hubs logísticos urbanos, permitindo que o prato saia da cozinha e chegue à mesa do cliente em menos de 25 minutos, mantendo a integridade térmica do produto.
O verdadeiro valor dessa rota integrada não está em replicar, de forma isolada, o que cada feira e as visitas técnicas apresentam individualmente. A riqueza está na capacidade de sintetizar a disciplina operacional americana, a vanguarda conceitual europeia e a velocidade tecnológica chinesa para desenhar um modelo de negócios que seja resiliente diantes dos desafios macroeconômicas locais e assertivo na captura de novas oportunidades de mercado, seja por meio da inovação, seja destravando valor a partir dos já existentes desafios do setor na atualidade.
Eduardo Bueno é gerente de Business Development na Gouvêa Inteligência.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem: Envato
