A venda de produtos usados, ou de segunda mão, é um dos temas recorrentes de painéis e conversas durante a NRF Retail’s Big Show 2026. Quem percorre o varejo de Nova York também percebe o aumento do espaço que produtos usados têm ocupado nas prateleiras. Não é por acaso: esse mercado deve ultrapassar o de fast fashion até 2027.
Na palestra que fez durante o evento, Cassandra Napoli, diretora de Marketing, Eventos e Previsão de Tendências Culturais da WGSN, destacou que muitos grandes players de moda estão criando seus próprios programas de resale de olho no comportamento do consumidor, que busca propósito e sustentabilidade.
É o que caso da H&M, que mantém, em uma loja do Soho, uma seção dedicada aos produtos “pre-loved” – outra maneira de dizer que eles são usados. Itens de alta qualidade, vintage ou de collabs históricas com designers passam por uma avaliação ali mesmo e, se aprovados, são higienizados, precificados e colocados à venda. A logística é operada pela Sellpy (plataforma de revenda da qual a H&M é acionista majoritária).
A The Real Real é focada em itens de luxo. Fundada em 2011, foi a primeira empresa de revenda de luxo a abrir capital na bolsa. Começou com uma operação puramente digital e hoje atua também no varejo físico – tem uma flagship no Soho. Seu diferencial é a autenticidade – a empresa lança mão de especialistas (gemólogos, horologistas e especialistas em couro) para garantir que nada falso entre no sistema.
Cassandra destaca que o resale atrai principalmente os mais jovens e, nesse sentido, é preciso estar alerta para o que ela classifica como uma “tensão de tendências”, com dois movimentos contraditórios, mas verdadeiros, que ocorrem ao mesmo tempo. “Existe uma expectativa enorme sobre a Geração Z de que eles ‘vão salvar o mundo’. Há um peso grande sobre eles em relação à questão ambiental. Mas, se você olha os dados, a Geração Z é também quem mais compra fast fashion. Então existe essa tensão entre o que eles gostariam de fazer em termos de valores e o que é possível financeiramente’, diz.
Além disso, apesar de o mercado estar em alta, é preciso cautela. Cassandra lembra do caso de uma empresa de mídia de rastreou uma peça devolvida para reciclagem com um AirTag e concluiu que a peça tinha ido para um aterro sanitário. Um desastre para a imagem da marca. “Isso nos leva de volta à transparência e à responsabilidade. É preciso realmente honrar o que o consumidor valoriza e atender a essas expectativas de forma realista, sem promessas vazias. Porque o consumidor, especialmente a Geração Z, não perdoa facilmente quando percebe incoerência.”
Imagem: Aiana Freitas/Mercado&Consumo
