Depois de 25 anos construindo no Brasil um modelo de spa urbano baseado em massagens, rituais de relaxamento e cuidados pessoais, o Buddha Spa se prepara para atravessar a fronteira. A rede de franquias abrirá em outubro sua primeira unidade internacional, na Avenida Vitacura, em Santiago, no Chile.
A estreia acontece em um momento em que o bem-estar deixou de ocupar um espaço periférico no consumo. Cuidados com o corpo, saúde mental, controle do estresse, sono, atividade física e qualidade de vida passaram a fazer parte da rotina – e do orçamento – de um número crescente de consumidores.
A economia global do bem-estar movimentou US$ 6,8 trilhões em 2024 e deverá alcançar US$ 9,8 trilhões até 2029, segundo o Global Wellness Institute. O segmento de bem-estar mental está entre os que mais cresceram nos últimos anos, impulsionado pela procura por práticas relacionadas a relaxamento, atenção plena, sono e redução do estresse.
É nesse ambiente que o Buddha Spa pretende transformar uma marca construída no Brasil em uma operação latino-americana. A primeira loja chilena será própria e terá papel estratégico: testar a aceitação do serviço, compreender o consumidor local e identificar quais elementos do modelo brasileiro podem ser replicados sem alterações – e quais precisarão ser adaptados.
“Parece relativamente simples montar uma operação em outro País. Mas muda a língua, muda a cultura, muda a maneira de fazer negócio, além das regulações fiscal e trabalhista”, afirmou Gustavo Albanesi, fundador e CEO do Buddha Spa, em entrevista à Mercado&Consumo.
Loja própria será laboratório para a expansão
Embora o crescimento do Buddha Spa no Brasil tenha ocorrido prioritariamente por meio de franquias, a operação chilena começará sob controle direto da companhia.
Segundo Albanesi, a escolha permite que a empresa acompanhe de perto a implantação, o recrutamento, o treinamento das equipes, a resposta dos consumidores e as adaptações necessárias antes de oferecer o modelo a parceiros locais.
“A gente precisa colocar os dois pés no País para depois continuar replicando, seja por meio de franquias ou até de operações próprias”, disse.
A unidade será instalada em Vitacura, região de Santiago associada a consumidores de maior renda e a um estilo de vida ligado a atividades físicas, alimentação saudável, serviços premium e qualidade de vida.
A loja será uma flagship da marca e começará com aproximadamente 70% do portfólio oferecido no Brasil. A redução inicial permitirá avaliar a demanda por cada tipo de tratamento e criar uma programação de novos serviços ao longo dos primeiros anos.
O processo de implantação inclui reforma, formação do time e treinamento dos profissionais. O Buddha Spa mantém no Brasil o Buddha Spa College, estrutura responsável pela capacitação dos terapeutas e pela padronização dos protocolos utilizados nas unidades.
Demanda reprimida também na América Latina
A decisão de internacionalizar a rede surgiu da avaliação de que outros mercados latino-americanos apresentam uma dinâmica semelhante à encontrada no Brasil: aumento do interesse por bem-estar, mas ainda com oferta limitada de serviços especializados e padronizados.
“Existe demanda reprimida, qualidade de vida e bem-estar como assuntos recorrentes na vida das pessoas e pouca oferta qualificada de operações voltadas a spa e massagem”, afirmou o executivo.
O movimento também acompanha uma transformação mais ampla na relação dos consumidores com o cuidado pessoal. Pesquisa da McKinsey aponta que, especialmente entre consumidores mais jovens, o bem-estar vem sendo incorporado como uma prática diária e personalizada, e não apenas como uma atividade eventual.
Para o Buddha Spa, essa mudança significa que a massagem deixa de ser percebida exclusivamente como indulgência ou presente para ganhar espaço como serviço recorrente, relacionado ao combate ao estresse, à ansiedade e ao cansaço.
Albanesi afirma que o mercado ajudou a acelerar a rede depois da pandemia, mas atribui o desempenho também à estruturação do negócio, à qualidade dos serviços, ao treinamento das equipes e à capacidade de gerar recorrência.
“O mercado sem dúvida ajuda, mas ele é 30% do resultado. Se fosse só o mercado, qualquer um que entrasse prosperaria. Há desafios de comunicação, posicionamento, marca, qualidade, recorrência e resultado financeiro”, disse.
Argentina já está no radar
A chegada ao Chile deverá ser seguida por um período de quatro a seis meses de observação e ajustes. Depois dessa etapa, a empresa pretende avaliar uma segunda unidade no País e iniciar o movimento de entrada na Argentina.
Albanesi reconhece que o cenário econômico argentino ainda exige cautela, mas acredita que o momento pode abrir oportunidades de longo prazo, especialmente para a obtenção de pontos comerciais e para a construção antecipada da marca.
“A Argentina não vive o melhor momento para ingresso do ponto de vista econômico, mas a oportunidade pode estar agora, quando as coisas estão se reformatando”, afirmou. “A gente não está com pressa. Vamos fazendo com cuidado ao longo do tempo.”
A estratégia repete a lógica que a companhia diz ter utilizado no Brasil: entrar gradualmente, testar o modelo e acelerar somente depois de comprovar sua adequação ao mercado.
Rede tem mais de 150 unidades no Brasil
Fundado em 2001 por Gustavo Albanesi e seu pai, Jayme Santos, o Buddha Spa começou quando o conceito de spa urbano ainda era pouco difundido no Brasil. Os dois trabalhavam no mercado financeiro e conduziram a empresa inicialmente como um negócio paralelo. A partir de 2008, deixaram o setor financeiro para se dedicar integralmente à operação.
Hoje, a rede possui mais de 150 unidades no País, com maior concentração no Sudeste, mas presença em diferentes regiões. A empresa abre, em média, de duas a quatro unidades por mês, ou cerca de 30 por ano, embora Albanesi afirme que não estabelece uma meta rígida de inaugurações.
Segundo ele, a cautela busca evitar a escolha de pontos ou franqueados apenas para cumprir objetivos quantitativos.
“Se a gente coloca uma meta de abrir três ou quatro unidades por mês, pode errar no ponto ou no parceiro porque precisa bater o número”, afirmou. “O negócio vai acontecendo conforme a gente amadurece e encontra boas pessoas.”
A companhia calcula que o Brasil tenha espaço para mais de 500 unidades. Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sul estão entre as regiões prioritárias, enquanto Brasília aparece como um dos principais mercados ainda não ocupados. Na avaliação do CEO, a capital federal poderia comportar pelo menos 30 operações.
Modelo menor amplia possibilidades de expansão
Para alcançar regiões e áreas de influência que não comportam a estrutura tradicional, o Buddha Spa lançou um formato boutique.
A operação completa exige investimento de aproximadamente R$ 850 mil e inclui recepção, sala de estar, áreas de spa e estruturas para banho. Já o formato boutique pode ser instalado em espaços a partir de 40 metros quadrados e demanda investimento estimado entre R$ 400 mil e R$ 540 mil.
O modelo mantém a proposta da marca, mas trabalha com estrutura e portfólio mais enxutos, sem alguns serviços que exigem áreas maiores, como banhos de imersão.
A rede também amplia a presença em shopping centers. Cerca de 40 unidades, quase 30% da base, estão nesses empreendimentos. A estratégia é posicionar os spas próximos às lojas de varejo e nas áreas de maior circulação, e não somente nos corredores tradicionalmente destinados a serviços.
Bem-estar como ecossistema de negócios
A internacionalização não será sustentada apenas pela abertura de unidades. Ao longo dos últimos anos, o Buddha Spa passou a organizar o negócio como um ecossistema que combina franquias, formação profissional, produtos próprios e tecnologia.
Além da rede e do Buddha Spa College, a companhia mantém a Buddha Lab, dedicada a cosméticos e itens utilizados nos atendimentos ou vendidos aos clientes. O portfólio inclui chás, óleos essenciais, produtos de aromaterapia e acessórios relacionados ao bem-estar.
Em 2025, a empresa adquiriu a Pomander, marca de cosméticos de bem-estar que trabalha com óleos essenciais, sprays para ambientes e florais. A intenção é incorporar a empresa ao ecossistema, fortalecer a frente de produtos e, posteriormente, estudar sua expansão por franquias.
A verticalização busca aumentar o controle sobre a experiência oferecida ao cliente, ampliar a receita das unidades e levar a marca para além da sessão realizada no spa.
“Desde a troca do sapato pelo chinelo começa a experiência: a maneira de falar, o aroma, a decoração, o chá de recepção e a aromaterapia. Tudo isso compõe o bem-estar”, afirmou Albanesi.
Tecnologia nos bastidores
Mesmo sendo um serviço essencialmente presencial e humano, o Buddha Spa também pretende ampliar o uso de inteligência artificial.
Na relação com o consumidor, a tecnologia será empregada em automações, atendimento e agendamento. Internamente, a empresa criou uma célula dentro da área de tecnologia voltada à revisão de processos e à eficiência dos departamentos.
A intenção, segundo Albanesi, é usar a IA nas etapas administrativas e operacionais que antecedem a entrega do serviço, sem substituir a experiência humana da massagem.
“Por trás existe um business que precisa de tecnologia, eficiência, qualidade, método, margem e resultado”, afirmou. “É preciso nunca perder a essência do porquê fazemos aquilo, mas ser cada vez melhor na entrega e na profissionalização do negócio.”
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