Cartões de varejo crescem e disputam espaço no sistema financeiro

Uso de cartões no Brasil cresce 8,3% e movimenta R$ 1,1 trilhão no 1º trimestre

O crescimento dos cartões de varejo vem redesenhando o sistema financeiro brasileiro. Com eles, o crédito se torna mais acessível e integrado à experiência de compra, ganhando espaço no dia a dia do consumidor.

Os pagamentos com cartões cresceram 10,1% em 2025, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs). Os brasileiros realizaram, em média, 132 milhões de transações por dia, superando R$ 4,5 trilhões em valor movimentado, com o cartão de crédito liderando e alcançando R$ 3,1 trilhões.

Empresas como Carrefour e Grupo Pão de Açúcar, além de redes como Renner, Riachuelo e C&A, e varejistas como Magazine Luiza, passaram a oferecer crédito com bandeiras internacionais, programas de fidelidade e até empréstimos pessoais — tudo integrado à jornada de consumo, sem que o cliente precise recorrer a um banco tradicional.

Esse movimento reflete o avanço do chamado embedded finance (finanças embutidas), em que serviços financeiros passam a fazer parte da própria experiência de compra. Em vez de buscar crédito em uma instituição financeira, o consumidor encontra essa opção no aplicativo ou na loja onde já está acostumado a comprar.

Por trás dessa transformação está o modelo de Banking as a Service ,ou banco como serviço (BaaS), que viabiliza a oferta de produtos financeiros por empresas não financeiras. O BaaS democratiza o acesso à infraestrutura financeira: uma empresa pode oferecer cartão, crédito ou até conta digital sem ser banco, simplesmente incorporando essa camada ao seu negócio. O resultado é um produto financeiro muito mais conectado ao contexto real de consumo.

O Open Finance é o combustível desse ecossistema, e os números mostram tanto o avanço quanto os limites dessa transformação. Por um lado, o Banco Central registrou mais de 127 milhões de consentimentos ativos em março de 2026, e o Brasil já conta com 55 milhões de usuários conectados ao sistema, tornando-o o maior ecossistema regulado de compartilhamento de dados financeiros do mundo.

Por outro lado, a adoção ainda não acompanha o nível de familiaridade: pesquisa da Lina Open X com a MindMiners mostra que 76,8% dos brasileiros afirmam conhecer o conceito, mas apenas 37,1% autorizaram o compartilhamento de dados, o que indica que o potencial do sistema ainda está longe de ser plenamente explorado.

Como o consumo passou a orientar o crédito

Se antes os bancos sempre tinham acesso às finanças dos seus clientes, a diferença agora é que supermercados, marketplaces e redes de moda passaram a analisar também o que as pessoas compram, com que frequência, em quais categorias e quanto gastam.

Esse retrato do consumo abre espaço para uma nova forma de conceder crédito, mais alinhada ao comportamento real do cliente. Com o apoio do digital, essas empresas passaram a oferecer crédito próprio com agilidade e estratégia, em um movimento que passa a ocupar um espaço antes concentrado nos bancos tradicionais.

Banco e varejo olham para dimensões diferentes do consumidor. A instituição financeira acessa o histórico de crédito e o comportamento bancário. Já o varejista enxerga os hábitos de consumo do dia a dia, o que, combinado com os dados financeiros disponíveis via Open Finance, pode tornar a análise de risco mais precisa e a oferta de crédito mais adequada ao perfil real de cada pessoa.

Esse desejo de centralização e personalização é exatamente o que os cartões de varejo entregam de forma mais imediata: uma proposta financeira ancorada no hábito de consumo de quem já conhece o cliente.

Benefícios atraem, mas exigem cuidado

O cartão de loja se consolidou como uma estratégia de retenção no varejo, ao estimular maior frequência de compra e concentração de gastos no mesmo ecossistema. Em troca, oferece descontos, cashback, parcelamentos diferenciados e programas de pontos, vantagens que bancos tradicionais têm mais dificuldade de replicar por não acessarem o mesmo nível de dados de consumo.

Na prática, esses benefícios são mais relevantes para clientes recorrentes, com condições como abatimentos, isenção de anuidade atrelada ao uso, aumento de limite e recompensas que podem virar crédito na fatura ou milhas, além de aprovação mais acessível com base no histórico de compras.

O ponto de atenção são os juros, geralmente acima da média no parcelado e no rotativo. Os benefícios fazem sentido para quem paga a fatura em dia; porém, existe um risco claro de o consumidor gastar mais para aproveitar os benefícios. O cartão, seja ele de bancos ou de varejo, só é vantajoso quando está alinhado ao comportamento real de consumo, não quando induz novos gastos.

A evolução do crédito no ecossistema digital

A tendência é de aprofundamento. Com o avanço do Open Finance e o uso crescente de Inteligência Artificial na análise de crédito, os cartões de varejo devem se tornar cada vez mais personalizados. A lógica do “banco embutido” também tende a avançar para setores como saúde, educação e mobilidade urbana.

Estamos caminhando para um cenário em que toda empresa relevante terá algum tipo de oferta financeira. O banco deixa de ser o centro e o crédito vira uma camada integrada à experiência.

Para o consumidor, isso significa mais opções e acesso a soluções alinhadas ao seu perfil de consumo. A tendência é que esse avanço venha acompanhado de mais educação financeira, maior confiança no uso das ferramentas e produtos cada vez mais orientados à entrega de valor real.

Gustavo Siuves é CRO da Azify.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem: Envato

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