O erro de transformar todo patrão em vilão no debate sobre o 6×1

6x1

Existe um erro muito comum no debate sobre o fim da escala 6×1: tratar “o patrão” como uma figura única, como se todo empregador fosse um bilionário explorando trabalhadores em escala industrial.

Claro que existem grandes grupos com margens enormes, distorções salariais e relações abusivas. Isso é real, mas isso não representa a maior parte do mercado de trabalho brasileiro, especialmente no varejo.

E, talvez, seja justamente aí que o debate comece a perder profundidade. Porque, quando olhamos os números do Brasil real, percebemos rapidamente que o emprego no País é sustentado principalmente pelos pequenos negócios.

As micro e pequenas empresas foram responsáveis por quase 80% do saldo de empregos gerados no Brasil desde 2023. Segundo dados do Sebrae, foram cerca de 3,4 milhões de vagas criadas por pequenos negócios, de um total de 4,4 milhões.

No comércio, setor frequentemente colocado no centro das críticas sobre jornadas e condições de trabalho, os números continuam gigantescos. Dados do Observatório Sebrae mostram que as micro e pequenas empresas representam praticamente 70% dos empregos do comércio brasileiro.

Ou seja, quando muita gente imagina “o varejo”, pensa automaticamente em multinacionais bilionárias, grandes redes ou empresas listadas em Bolsa.

Mas boa parte do varejo brasileiro é formada por:

São empresas que muitas vezes operam com margens apertadas, alto peso tributário, dificuldade de contratação e pressão constante sobre custos.

Existe exploração em alguns casos?
Claro que existe.

Mas também existe uma enorme quantidade de pequenos empresários que trabalham mais horas do que seus próprios funcionários, tiram menos do que aparentam tirar e convivem diariamente com aluguel, folha salarial, impostos e insegurança operacional.

São empresas que seguem empregando mesmo em cenários difíceis. Por isso, transformar todo empreendedor em símbolo de “elite econômica” talvez seja uma das maiores simplificações desse debate.

O dono de uma pequena loja com seis funcionários não possui a mesma estrutura financeira de uma grande varejista nacional.

E existe um ponto ainda mais delicado nessa discussão: muitos setores criticados hoje, como varejo, alimentação e serviços, já convivem com uma escassez estrutural de mão de obra.

Em muitos casos, o problema deixou de ser apenas “contratar pagando menos”. O desafio já passou a ser simplesmente conseguir operar.

Curiosamente, pesquisas recentes do próprio Sebrae mostram algo que raramente aparece nas discussões mais polarizadas: menos de um terço dos pequenos empresários enxergam o fim da escala 6×1 como algo necessariamente negativo. Muitos acreditam que mudanças podem ser absorvidas e até gerar ganhos de produtividade, retenção e qualidade operacional.

Isso mostra que talvez o verdadeiro debate não seja “trabalhador versus empresário”.

O debate real deveria ser como criar uma transição sustentável para um mercado em que o trabalhador deseja mais qualidade de vida, o pequeno negócio não consegue absorver sozinho todos os custos dessa mudança e o consumidor continua exigindo preço baixo, rapidez e conveniência.

Porque existe uma contradição silenciosa nessa conversa. O mesmo consumidor que apoia jornadas mais humanas também reclama quando a fila aumenta, a entrega atrasa, a loja fecha mais cedo ou o preço sobe.

A discussão sobre o 6×1 é legítima. Necessária também. Mas ela fica superficial quando ignora que boa parte dos empregos brasileiros nasce justamente de pequenos negócios que também estão tentando sobreviver.

E talvez seja exatamente esse o ponto que mais precise entrar na conversa.

Caio Camargo é especialista em inovação no varejo.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem: Envato

 

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