Grupo Mateus é acusado de comercializar carne ligada a desmatamento e trabalho escravo

Mighty Earth avaliou mais de 430 produtos de carne bovina e apontou problemas de rastreabilidade na cadeia de fornecimento

A organização ambiental Mighty Earth publicou nesta quarta-feira, 15, que o Grupo Mateus, terceiro maior supermercadista do Brasil, comercializa produtos de carne bovina provenientes de frigoríficos associados a denúncias de trabalho análogo à escravidão e com risco de desmatamento, após uma investigação realizada pela entidade.

De acordo com o levantamento, o Grupo Mateus apresenta o pior desempenho entre os grandes varejistas brasileiros em transparência e controle da cadeia de fornecimento de carne. A investigação concluiu que a falta de mecanismos públicos de monitoramento impede que os consumidores saibam se a carne vendida pela rede contribui para a perda de florestas e outros biomas brasileiros.

“Nossa nova investigação constatou que o Grupo Mateus tem comprado carne bovina classificada como ‘ruim’ ou ‘muito ruim’ de fornecedores como a JBS, empresa recorrentemente associada ao trabalho escravo e ao desmatamento. O Grupo Mateus deve escolher entre continuar a impulsionar a destruição do clima e da natureza ou seguir o caminho de seus concorrentes diretos, assumindo compromissos públicos para limpar suas cadeias de suprimento de carne bovina por meio de maior rastreabilidade e transparência”, afirma João Gonçalves, diretor global da Mighty Earth.

Além das questões ambientais, a investigação também encontrou um histórico de violações de direitos humanos e trabalhistas, incluindo casos de morte e tortura de homens negros em supermercados da rede, que somam mais de 2.900 processos em andamento, com indenizações em torno de R$ 139 milhões desde 2023.

A reportagem da Mercado&Consumo entrou em contato com o Grupo Mateus para cobrar esclarecimentos, mas foi informada de que a empresa não irá se manifestar. O espaço permanece aberto.

Produtos coletados

A investigação foi realizada com base em mais de 430 produtos de carne bovina coletados em 38 lojas do Grupo Mateus nos estados da Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Paraíba, Pernambuco, Piauí e Sergipe. As análises utilizaram dados do aplicativo Do Pasto ao Prato e do sistema de monitoramento Rapid Response, coordenado pela Mighty Earth em parceria com a AidEnvironment, que analisa indicadores de risco e de ilegalidades na cadeia da carne bovina.

“Estamos tentando contato com a empresa desde abril de 2024 e também não obtivemos resposta. O que pedimos é o mínimo esperado de uma empresa de seu porte – lidar com responsabilidade em relação aos seus impactos sobre o clima e a natureza”, completa Gonçalves.

Os resultados da investigação mostram que 54% da carne encontrada nas lojas da rede foi classificada como “Muito Ruim” ou “Pode Melhorar”, categorias atribuídas a produtos oriundos de frigoríficos com histórico de ligação a desmatamento, queimadas ou fornecedores incluídos na chamada “lista suja” do trabalho análogo à escravidão.

Além disso, 85% dos frigoríficos identificados como fornecedores da rede não são signatários do TAC da Carne, principal compromisso setorial para impedir a comercialização de gado associado ao desmatamento ilegal na Amazônia.

Frigoríficos ligados ao trabalho escravo

A Mighty Earth afirma que a análise identificou que pelo menos nove frigoríficos que fornecem ao Grupo Mateus compraram, direta ou indiretamente, de propriedades incluídas na Lista Suja do Trabalho Escravo, publicada pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Três dessas unidades pertencem à JBS: JBS Marabá (SIF 457) e JBS Santana do Araguaia (SIF 1110), ambas no Pará, e JBS Araguaína (SIF 4001), no Tocantins.

Desde outubro de 2023, o sistema Rapid Response monitora a exposição do Grupo Mateus a áreas de desmatamento na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal. Entre 2024 e 2025, a ferramenta identificou pelo menos 5.147 hectares de áreas desmatadas potencialmente associadas à cadeia de fornecimento da empresa, número que reflete apenas o que a metodologia conseguiu rastrear a partir dos produtos coletados nas lojas analisadas.

Entre os frigoríficos com pior avaliação identificados pela investigação estão unidades da JBS, além de empresas como Frigorífico Valêncio, Mercúrio Alimentos, Beef Indústria e Comércio de Carnes, Frigorífico Paraíso e Frigoestrela. Segundo a análise, essas plantas apresentam diferentes combinações de riscos, incluindo a compra de gado proveniente de áreas com histórico de desmatamento, vínculos com fornecedores incluídos na lista suja do trabalho análogo à escravidão e ausência de compromissos robustos de rastreabilidade.

Imagem: Divulgação

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