O presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), Laudemir Müller, classificou as novas tarifas aplicadas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros como uma medida “absurda do ponto de vista comercial.” Segundo Müller, a sobretaxa de 25% vai atingir US$ 7,2 bilhões das vendas aos EUA, de um total de US$ 38 bilhões.
“Ela não tem nenhuma lógica com quem trabalha com o comércio internacional”, disse Müller, durante entrevista coletiva sobre as tarifas.
O presidente da ApexBrasil salientou que entidades e empresas americanas que fazem comércio com o Brasil trabalharam para a isenção de produtos brasileiros ao tarifaço, que foi anunciado pelos EUA na noite da última quarta-feira, 15, após a conclusão de uma investigação com base na Seção 301 da Lei de Comércio americana.
Segundo Müller, São Paulo é o Estado com maior impacto do tarifaço em termos absolutos, com 20% da exportação para os EUA afetada, o equivalente a US$ 3 bilhões. Santa Catarina tem 65% das exportações afetadas.
“Nós vamos seguir firmes o nosso trabalho que a gente já vem fazendo nos Estados Unidos apoiando empresas e entidades, junto com empresas e entidades americanas para aumentar a isenção”, disse. “Vamos ampliar o nosso trabalho para aumentar a participação brasileira dos setores que foram isentos.”
A lista de exceções à nova tarifa veio com uma ampla relação de itens isentos, dentre eles celulose, petróleo bruto e gás natural, bem como aeronaves civis, motores e componentes aeroespaciais. Além disso, a medida não traz novidades para o setor siderúrgico, que segue taxado em 50% para exportações aos EUA.
Müller disse, ainda, que a ideia é ampliar as exportações de produtos isentos das tarifas americanas, como mel e pescados.
Mercado dos EUA
A decisão americana de sobretaxar produtos brasileiros indica um resultado “muito negativo” para a relação bilateral, na avaliação da Amcham Brasil.
A Câmara avalia que a medida coloca o Brasil entre os países com condições mais restritivas no mundo para acessar o mercado americano, com tendência a afetar duramente mais de US$ 11 bilhões em exportações industriais e do agronegócio. “Esse tratamento contrasta com o crescente superávit comercial dos EUA com o Brasil – de US$ 41,8 bilhões em bens e serviços em 2025 – e com o baixo patamar das tarifas efetivamente aplicadas pelo Brasil aos produtos americanos”, observa, em nota.
A Amcham também considera que as novas taxas tendem a elevar custos para as empresas e consumidores americanos, reduzir a competitividade das indústrias que utilizam insumos brasileiros e ampliar a dependência de fornecedores asiáticos, com potencial para deteriorar o déficit comercial dos EUA com países daquela região. Além disso, segundo a Câmara, limita as oportunidades de cooperação entre Brasil e EUA em áreas estratégicas, como minerais críticos, energia, economia digital e propriedade intelectual.
A expectativa também é de aprofundamento da queda do comércio bilateral, que já registra recuo de 13% no ano e levou a participação dos EUA no comércio exterior brasileiro ao menor nível histórico, além de uma possível piora dos investimentos bilaterais, que mantêm relação estreita com o dinamismo das trocas entre os dois países.
“Esperamos que os governos do Brasil e dos Estados Unidos mantenham abertos os canais de diálogo. Embora não tenha sido possível alcançar um acordo, as negociações se intensificaram nos últimos meses e seguem sendo o caminho mais eficaz para a retirada das sobretaxas e a construção de uma agenda bilateral mais ampla”, afirma o presidente da Amcham Brasil, Abrão Neto. Ele reforça que as negociações tornam-se ainda mais urgentes diante da probabilidade de novas tarifas no seio da investigação sobre trabalho forçado, que poderão elevar as sobretaxas para até 37,5%.
Com informação do Estadão de Conteúdo (Flávia Said e Isadora Duarte).
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