Varejo sai do encantamento com IA e cobra resultado na operação

Executivos discutiram, no evento Quando os Líderes se Encontram, como a IA tem impactado de fato os negócios

A Inteligência Artificial já passou da fase do fascínio no varejo. Depois da corrida inicial para testar ferramentas, criar pilotos e entender o potencial da tecnologia, o setor começa a fazer uma pergunta mais pragmática: onde, de fato, a IA melhora resultado? Foi esse o eixo do painel “IA da porta para dentro: Como a Inteligência Artificial aumenta a Eficiência da Empresa, otimizando processos como previsão de demanda e gestão de estoque”, realizado na noite de ontem, em São Paulo, durante o “Quando os Líderes se Encontram”, iniciativa da Gouvêa Experience e da Gouvêa Consulting.

O encontro reuniu líderes de diferentes segmentos do varejo para discutir casos reais, desafios e o uso da IA em processos internos. Participaram do primeiro painel Elói Assis, diretor-executivo de Varejo da TOTVS; Rubens Panelli Junior, CEO da Criatiff; Pérsio Alexandr, CEO da Pusco; Lucas Godoy, conselheiro da Ollie; e Roberto Wajnsztok, sócio-diretor da Gouvêa Consulting.

A programação também contou com um segundo painel, dedicado à aplicação da IA na relação direta com o consumidor. Com o tema “Da porta para fora, em todos os canais: A revolução da IA na Experiência de compra do Consumidor Omnichannel e os ganhos para o negócio”, a conversa reuniu Elói Assis e Roberto Wajnsztok com Paulo Farroco, CIO da PBKids/RiHappy; e Ricardo Mesquita, head de Tecnologia da MOB. A discussão ampliou o debate da noite ao tratar de como a inteligência artificial pode impactar a jornada de compra, a personalização, o relacionamento com o cliente e a geração de resultados em diferentes canais.

“A ideia desse fórum é que o mercado possa ter uma leitura com maior grau de maturidade sobre o tema, que é tão forte. É aterrizar para que se possa ter troca e insights sobre o que tem funcionado”, disse Roberto Wajnsztok.

Varejo sai do encantamento com IA e cobra resultado na operação

Tecnologia depende da inteligência humana

No painel sobre IA da porta para dentro, a discussão partiu de uma premissa comum: a tecnologia não deve ser tratada como uma solução mágica, mas como ferramenta para ampliar produtividade, reduzir perdas, melhorar previsibilidade e liberar as equipes de tarefas que consomem tempo sem necessariamente fazer parte do centro estratégico do negócio.

A comparação feita pelos painelistas foi com outras ondas tecnológicas já vividas pelo varejo, da microinformática aos sistemas de gestão. A diferença, agora, é a velocidade: análises que antes exigiam dias ou semanas podem ser organizadas em segundos, desde que a empresa saiba o que quer resolver.

Para Rubens Panelli Junior, a transformação não está em eliminar o papel das pessoas, mas em reorganizar a forma como elas trabalham. “O que vai mudar é a maneira de trabalhar. A gente vai ter que entender que vamos usar melhor aquilo que temos de melhor e que a IA não faz”, afirmou. “A gente tem de entender que ela vem para facilitar o que não é core business.”

Segundo o executivo, antes de adotar IA, as empresas precisam responder a uma pergunta essencial: para que querem usar a tecnologia? Sem clareza de objetivo, o risco é avançar em projetos caros, pouco aderentes à operação e sem retorno mensurável. “São três pilares de IA que precisam ser olhados com muito cuidado: custo, talento e dados. Se essas três bases não estiverem perfeitas, a chance de fazer besteira com IA é grande”, disse Panelli.

Essa combinação entre dado e experiência foi sintetizada por Elói Assis, da TOTVS, ao defender que o avanço da tecnologia depende da soma entre inteligência artificial e inteligência humana. “IA sozinha não vai entregar resultado nenhum”, disse. Segundo ele, o caminho está em incorporar recursos de IA aos sistemas de gestão para que as plataformas deixem de ser vistas apenas como obrigação operacional e passem a gerar ganhos concretos de receita, produtividade e eficiência.

Na visão de Assis, o próprio papel dos sistemas de gestão tende a mudar. Soluções de ERP, distribuição, estoque e remanejamento devem incorporar IA de forma mais nativa, reduzindo a necessidade de customizações e tornando o uso mais intuitivo para as equipes. Para o executivo, o desafio das empresas de tecnologia é fazer com que sistemas historicamente percebidos como “mal necessário” passem a ser vistos como ativos capazes de melhorar resultado. “O meu desafio é usar a IA para fazer com que o cliente olhe para a conta e ache barata, porque economizou do outro lado”, afirmou.

Ganhos imediatos da IA no varejo

A discussão também mostrou que os ganhos mais imediatos da IA no varejo não estão, necessariamente, em grandes projetos transformacionais, mas em usos específicos e mensuráveis. Pérsio citou a redução de custos em campanhas como exemplo mais tangível. Ao substituir parte da produção tradicional de fotos, modelos, estúdio e locação por recursos de IA, a empresa conseguiu cortar etapas e despesas em um processo recorrente do varejo de moda. “O exemplo mais fácil e tangível é o quanto deixamos de fazer de foto, modelo, locação. A IA reduziu esse custo”, afirmou.

Outros participantes trouxeram exemplos de aplicações em tarefas repetitivas, como conciliação, fechamento de caixa e geração de instruções para a ponta. Um dos relatos mais concretos veio da aplicação da IA na rotina de gerentes de loja. A partir de indicadores básicos da operação, a tecnologia passou a organizar leituras, recomendações e correlações para que gestores começassem o dia sabendo o que havia acontecido, quais pontos exigiam atenção e quais “botões” poderiam ser acionados para melhorar o resultado.

O CRM também apareceu como uma das frentes com maior potencial de ganho no curto prazo. A possibilidade de identificar padrões de compra, prever a próxima categoria de interesse e acionar clientes com ofertas mais precisas foi apontada como um caminho para aproximar IA de receita. O exemplo citado no debate foi simples: se uma parcela relevante dos clientes que compra blazer marinho também compra calça cinza, a IA pode ajudar a identificar quem ainda não fez essa segunda compra e acionar a equipe ou os canais digitais com uma oferta mais aderente.

Pérsio Alexandr reforçou que a IA pode ajudar varejistas a tomar decisões mais embasadas, mas não elimina a intuição construída na operação. Para ele, o varejo continua sendo um setor fortemente dependente de leitura de cliente, sensibilidade comercial e experiência acumulada. “IA não é capaz de fazer tudo. Varejo é muito intuitivo”, disse. “A IA está deixando a gente mais embasado, mas ela é incapaz de resolver todos os problemas.”

Ao longo da conversa, também foram citadas oportunidades em áreas como planejamento de sortimento, previsão de demanda, gestão de estoque, campanhas, logística, antifraude e capacitação de equipes. Para os executivos, a IA pode ajudar a reduzir perdas, antecipar decisões, sugerir recompras, apoiar gerentes de loja e personalizar abordagens comerciais. Mas, para isso, precisa estar integrada aos processos e não ser usada como uma camada isolada de inovação.

A conclusão é que o varejo começa a substituir a pergunta “o que a IA faz?” por outra mais objetiva: “qual ganho ela entrega?”. Em um setor pressionado por margem, produtividade, estoque e custo de capital, a inteligência artificial tende a ganhar espaço justamente onde conseguir provar resultado – seja em performance, receita, redução de custos ou eficiência operacional. A tecnologia deixa, assim, de ser um tema de encantamento e passa a ser cobrada como qualquer outro investimento do varejo: precisa fechar a conta.

“Quando os Líderes se Encontram” é uma iniciativa da Gouvêa Experience e da Gouvêa Consulting criada para promover debates sobre os temas mais relevantes e estratégicos para o futuro do varejo. Realizado em formato de jantar, o encontro reúne executivos e lideranças do setor em um ambiente exclusivo, que combina discussões qualificadas, troca de experiências e oportunidades de networking de alto nível, estimulando conexões e reflexões capazes de gerar insights e novos negócios.

Imagens: Envato e Divulgação

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