Cheguei a Guangzhou achando que sabia o que esperar. Voltei convencido de que a 139ª Canton Fair, maior feira multissetorial do mundo, realizada na China, marcou uma virada de chave que o varejo brasileiro precisa acompanhar de perto.
A edição deste ano, a primeira do 15º Plano Quinquenal chinês, bateu todos os recordes de escala. Foram 1,55 milhão de metros quadrados de área, 75,7 mil estandes e mais de 32 mil empresas mostrando produtos, com 9 zonas temáticas inéditas – entre elas, wearables inteligentes, drones de consumo, tecidos funcionais e casas pré-fabricadas. Para colocar em escala, o complexo equivale a mais de 200 campos de futebol. Caminhar tudo, em três semanas divididas em três fases, é impossível — e ainda assim ficou claro que estamos diante de outra Canton Fair.
Três fases, três retratos do consumo global
A feira se organiza em três fases que funcionam como capítulos. A Fase 1, de 15 a 19 de abril, concentra a manufatura avançada: eletrônicos, eletrodomésticos, automação industrial, novas energias e veículos. A Fase 2, de 23 a 27 de abril, é o capítulo da casa: móveis, materiais de construção, decoração, cozinha, banho e têxteis para o lar. Já a Fase 3, que termina nesta terça-feira, 5, fecha com os produtos que tocam diretamente o varejo de moda, como calçados, bolsas, brinquedos, cuidados pessoais, alimentos e saúde.
Para quem trabalha com varejo e consumo, é a chance rara de ver, num mesmo lugar, todo o ecossistema que abastece as prateleiras do mundo inteiro.
A Inteligência Artificial saiu da nuvem e entrou no produto
A grande virada desta edição é o quanto a IA deixou de ser argumento de marketing para virar ingrediente do hardware. O conceito que dominou os halls foi o de “AI-native devices”: dispositivos pensados, desde o silício, para rodar a IA localmente, sem depender da nuvem. Vi óculos de tradução simultânea com mais de 100 idiomas, terminais biométricos multimodais e geladeiras, purificadores e impressoras que se comportam como assistentes interativos.
Mas o maior espetáculo da feira esteve numa zona inteira dedicada a robôs de serviço, com 4,2 mil metros quadrados e 46 fabricantes. Havia humanoide jogando badminton com visitante, robô-barista preparando 800 cafés por dia, braço mecânico fatiando carne em oito segundos para o caldeirão de hot-pot, robô limpador de painel solar, exoesqueleto para idoso, cão-robô subindo rampa de 35 graus e robô esférico de patrulhamento.
Não é mais protótipo de feira: a Tsann Kuen, fabricante de cafeteiras automáticas, fechou US$ 10 milhões em pedidos no primeiro dia, com cinco compradores levando lotes de 10 mil a 15 mil unidades cada.
O fim do estigma do produto barato
A pegada do “produto chinês ruim” está, definitivamente, para trás. A China hoje detém cerca de 60% das patentes mundiais de IA e dois terços das patentes globais em robótica. Isso aparece no acabamento, no design, na embalagem e até no atendimento dos próprios estandes.
Marcas como Xiaomi, Haier, Anker e DJI já são referência global de qualidade – a Xiaomi, sozinha, conquistou 46 prêmios iF Design só em 2025. A BYD vendeu 4,1 milhões de veículos eletrificados no ano passado, mais do que Tesla, Geely e Volkswagen somadas no mesmo período.
O que vi na 139ª edição foi a consolidação dessa transição. Conversei com expositores presentes em 40 edições da feira que contaram a mesma história: produziam por OEM (Original Equipment Manufacturer), para alemães e americanos durante anos e hoje veem esses mesmos parceiros disputando direitos de distribuição para produtos de marca própria, com portfólios de 2 mil a 3 mil patentes. É a passagem definitiva do “Made in China” para o “Created in China”.
O Brasil entrou de vez no jogo
Outra mudança impossível de não notar: há brasileiro em todo canto. Na 138ª edição, que foi realizada em outubro e novembro de 2025, o número de compradores brasileiros cresceu 33,2% em relação à edição anterior, ritmo próximo ao da União Europeia, algo atípico para a região. Na 139ª, esse movimento se acelerou de novo, com varejistas, importadores e operadores de marketplaces circulando por todos os halls.
Três fatores explicam o movimento. Primeiro, a isenção de visto para brasileiros com fins de negócios, válida até o fim de 2026, que derrubou a barreira de entrada. Segundo, a guerra comercial entre EUA e China, que está redirecionando produtos chineses para o Brasil em condições competitivas.
E, terceiro, o mais relevante: o comércio Brasil–China bateu US$ 171 bilhões em 2025, recorde histórico, e a participação chinesa nas nossas importações já passou de 25%. Quem ainda não estruturou um relacionamento direto com fornecedor chinês está, na prática, fora do jogo do varejo competitivo.
O que isso significa para o varejo brasileiro em 2026
A leitura que trago desses dias em Guangzhou cabe em quatro pontos. A IA embarcada vai redefinir cada categoria de eletro e eletrônico nos próximos 12 a 24 meses. Robôs de serviço deixam de ser ficção e passam a ser linha de produto disponível para hospitality, varejo físico e uso residencial.
A sustentabilidade virou requisito e não diferencial – quase metade dos novos produtos lançados na edição anterior já incorporava o conceito de design verde. E a janela para quem quer importar com vantagem competitiva é agora, antes que os preços de energia limpa e mobilidade elétrica caiam mais 20% a 40%, como projetam os especialistas que acompanham o setor.
A Canton Fair sempre foi a maior feira multissetorial do mundo. Em 2026, ela é também o termômetro mais preciso do que vai chegar à sua loja, ao seu marketplace, ao seu app – e ao seu concorrente.
Theo Paul Santana é fundador do Destino China.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagens: Theo Paulo Santana















