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Home Artigos

Pede pra sair

Marcos Gouvêa de Souza de Marcos Gouvêa de Souza
4 de maio de 2026
no Artigos, Destaque do dia
Tempo de leitura: 6 minutos
Pede pra sair

O Brasil entrou em modo julgamento permanente e as pesquisas de ano eleitoral mostram a evidente polarização e, principalmente, a crescente frustração da população. Com seus claros reflexos no consumo e no varejo. Nesse ambiente, não há mais como manter o silêncio institucional, quase serviçal.

No Brasil Real, o Brasil dos dependentes, que engloba a absoluta maioria dos brasileiros, não existe mais zona de conforto com uma população endividada, frustrada e cada vez mais descrente sobre transformações efetivas de curto ou médio prazo. E que joga nas bets de forma desenfreada e iludida pela perspectiva de reverter um quadro econômico crítico.

São 80 milhões de brasileiros endividados no mais alto patamar em termos históricos. É o Brasil pressionado, frustrado e cada vez mais descrente. E, quando a descrença e a desconfiança crescem, o comportamento muda.

É verdade que existe o Brasil afluente, mais ligado ao mundo financeiro ou de alguns segmentos ou nichos de mercado, beneficiado por uma das maiores taxas de juros real do mundo, onde ainda se vive o idílio com um futuro róseo como tentativamente retratado na propaganda oficial.

Numa combinação perniciosa, o quadro interno é ainda agravado pelo cenário externo, com aumento de custos de insumos, combustíveis e energia – e internalizando problemas globais. Nesse momento, tudo gira em torno da próxima eleição, sem qualquer preocupação de fato com a Nação e seu projeto de longo prazo.

O “Pede pra sair”, que um dia foi expressão de ruptura pontual em filme, virou linguagem corrente e disseminada para retratar o grau de insatisfação e frustração.

Um reflexo quase inevitável de uma sociedade que perdeu a paciência e, mais profundamente, a confiança e a esperança.

A frustração vem de cima

O impulso de trocar, afastar e renovar é compreensível. Ele nasce da percepção de desequilíbrio, injustiça e insegurança. E envolve diferentes poderes constituídos.

Não deve haver país no mundo onde se discuta tanto a composição, atuação e postura do Supremo Poder Judiciário, cujos temas se tornaram assunto diário da mídia social e convencional, como no Brasil.

Sistemas se sustentam por legitimidade. Por decoro, visão e inspiração. E legitimidade é mais do que cargo, poder ou prerrogativa. É percepção coletiva de equilíbrio, coerência e justiça. Paira o sentimento de que árbitros entraram no jogo para tentar decidir a partida. E de forma acintosa.

Ao abandonar a isenção e discrição — características fundamentais do Poder Judiciário —  para jogar o jogo midiático e ocupar o centro da arena, a instituição sem dúvida ganha protagonismo e eventuais outras mais benesses, porém deixa legado de dúvidas e preocupações que ampliam a contestação.

Para além da política

O que temos assistido no plano político traz inevitável consequência no comportamento de consumo. Que se reflete de forma direta no desempenho do mercado.

De alguma forma, está também presente no carrinho de compras, na troca das marcas, no foco no preço e no valor, na redução da lealdade, na disposição para testar novas alternativas que possam entregar mais por menos. E na mudança dos locais e canais de compra. Na busca de alternativas.

Os números mostram que o crescimento real do varejo nos seus diversos segmentos e categorias está negativo em termos reais, deflacionados pelo índice de inflação das diversas categorias, há muitos meses. E isso apesar do forte crescimento da massa salarial real e do consistente baixo índice de desemprego.

E como vamos evoluir?

Tudo indica que esse movimento de insatisfação vai se espalhar e se tornar mais forte, evoluindo do quadro atual, em que está presente nas discussões em mesas de bar, em encontros privados, em programa de audiência seletiva e em plateias restritas, e ganhar as ruas. As redes sociais, a mídia aberta e a imprensa de forma geral já não conseguem sensibilizar em sua proposta de retratar e ecoar a realidade.

O emblemático mês de setembro está chegando, gerando um período de muita reflexão e crítico em termos de mobilização. A escalada de irrealidade parece crescer a cada momento e o fosso entre o que se diz, o que é promovido e o que de fato acontece se aprofunda.

É uma sociedade cansada das assimetrias percebidas, cada vez mais sensível a qualquer sinal de incoerência e menos disposta a aceitar decisões ou iniciativas sem compreensão da realidade mais ampla e ao simples embalo de iniciativas eleitoreiras. Que se sucedem na tentativa de mascarar a realidade e postergar o resultado do julgamento coletivo.

A participação do setor empresarial

Mas é preciso reconhecer que temos de forma ampla um setor empresarial calado e incapacitado de se mobilizar para exigir mais realismo, bom senso e visão de longo prazo.

Um setor fragmentado, muitas vezes dependente de estímulos e relações institucionais, com baixa coordenação e carência de lideranças públicas fortes, reduz sua capacidade de influenciar o rumo do país.

Evidentemente que é pouco ou nada coerente integrar todo o setor empresarial em seus diferentes segmentos, geografias e níveis de maturidade como se fosse um único e sólido bloco. Definitivamente não é.

Mas, ao mesmo tempo, a ativismo e protagonismo do setor empresarial do passado estão hoje restritos pela ausência de lideranças individuais inspiradoras, pelos diferentes interesses setoriais ou regionais, pelo grau de dependência de verbas e estímulos governamentais e pela organização dessa representação mesclando entidades e associações públicas, privadas e seu poder de atuação.

E sem esquecer que as verbas e apoios demandados em períodos eleitorais foram substituídos pelas verbas oficiais para os partidos políticos e fundos eleitorais que limitam o interesse em ouvir, discutir e considerar suas propostas.

Em anos de eleição, esses valores somados estão na faixa de R$ 6,5 bilhões, reunindo a parcela anual aos partidos e mais o fundo eleitoral para campanhas. Essas verbas públicas para os partidos e eleições geraram maior independência e distanciamento do setor político em relação às propostas e demandas do setor privado.

Da reação à responsabilidade

O “Pede pra sair” é um grito que tem sido contido, mas atingiu seu limite.

Os resultados das discussões e votações no Congresso e no Senado na última semana ecoaram como um eloquente sinal de alerta em várias direções e precisam ser interpretados em sua dimensão mais abrangente e para além dos fatos em si. E deveria estar muito mais presente em especial no meio empresarial.

Mas sistemas se constroem com responsabilidades e posicionamento. A omissão é caminho sem volta que beira ao conluio e à conivência. E a história não perdoa os hesitantes e omissos.

A evolução necessária é clara. De julgamento ao entendimento. Da reação à construção. Da operação à estratégia e visão de longo prazo.

A questão deixa de ser quem precisa sair para o que precisa ser construído ou reconstruído para que funcione e para que o País possa capitalizar o relevante legado de capital humano, natural, empresarial e criativo que possui.

Liderança em tempos de legitimidade instável

Essa discussão também transcende o plano político, partidário e institucional, pois lideranças que não estejam alinhadas com a visão e pensamento de seus liderados nos seus setores de atuação reduzem seu poder de representatividade e capacidade de liderar transformações nos negócios e nas atividades econômicas.

De novo: toda generalização é muito perigosa. Mas, no todo dessa discussão, fica igualmente a mensagem da necessidade de sintonia e alinhamento das visões empresariais e de negócios com o clamor que cresce e envolve as opções ou omissões das lideranças empresariais nos temas públicos, na concordância ou aceitação de determinadas posturas e no comprometimento do futuro pelo resultado da próxima eleição.

Melhor pedir para sair do que encerrar um ciclo existencial como causa do problema. E não vale apenas assistir, discutir e torcer. É preciso se comprometer. Vale a reflexão.

Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem e publisher da plataforma Mercado&Consumo.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem: Envato

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Marcos Gouvêa de Souza

Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem, o mais relevante ecossistema de consultorias, soluções e serviços que atua em todas as vertentes dos setores de Varejo, Consumo e Serviços. É membro do Conselho do IDV, IFB e Ebeltoft Group, presidente do LIDE Comércio, conselheiro do grupo BFFC/Bob's, publisher da plataforma MERCADO&CONSUMO e autor/coautor de mais de dez livros relacionados aos temas de sua especialidade.

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