A Inteligência Artificial entrou de vez na agenda do varejo, mas ainda distante de qualquer solução única ou definitiva. Para Maurício Bastos, CTO da Azzas (Azzas), companhia aberta formada pela fusão entre Arezzo&Co e Grupo Soma e hoje posicionada como o maior grupo de moda da América Latina, com 28 marcas no portfólio, o momento do setor exige menos experimentação e mais execução. “Não existe bala de prata – o jogo é escalar o que funciona”, disse ao M&C Talks, da Mercado&Consumo. O executivo participou do Inside Fashion Business, evento promovido pela Gouvêa Experience, em São Paulo.
A Azzas reúne marcas como Arezzo, Schutz, Vans, Farm, Animale, Hering, Reserva, Maria Filó e outras bandeiras relevantes do varejo brasileiro, operando um ecossistema que combina moda, lifestyle e distribuição em larga escala. Com essa complexidade, o grupo tem usado Inteligência Artificial para atacar um dos principais desafios do setor: ganhar eficiência em um ambiente de margens pressionadas e demanda cada vez mais volátil.
Para Bastos, o mercado já saiu da fase de encantamento com a tecnologia. Se antes o discurso era testar IA “pela IA”, agora a régua mudou – e passa, necessariamente, por retorno mensurável. O foco está em iniciativas que comprovadamente geram valor e podem ser escaladas dentro da operação.
Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista concedida à M&C Talks:
M&C Talks — O que mudou na forma como o varejo olha para Inteligência Artificial?
Maurício Bastos — Há um ano, todo mundo falava de usar IA pela IA. Hoje o olhar é muito mais crítico. A pergunta passou a ser: cadê o business case? Como isso retorna valor para o usuário, para a empresa e para o acionista?
Onde estão os primeiros ganhos concretos?
Na eficiência operacional. O varejo trabalha com margens apertadas, então qualquer ganho rápido nessa frente já faz diferença. Tem muita captura de valor acontecendo aí.
E onde vocês estão aplicando isso na prática?
Um exemplo claro é no ciclo de desenvolvimento de produto. Estamos usando tecnologia para ser mais inteligentes na escolha de SKUs, na precificação e no planejamento de compra. Isso reduz desconto, aumenta venda a preço cheio e melhora o abastecimento.
Isso impacta diretamente o problema clássico de estoque?
Total. Estoque parado é dinheiro parado. E falta de estoque também significa perda. A IA ajuda a equilibrar isso melhor.
O consumidor está mais exigente e mais rápido. Isso muda o jogo?
Muito. Hoje você pode ver uma tendência surgir em outro país e ela virar demanda no Brasil quase instantaneamente. Isso exige uma capacidade de reação muito mais rápida.
E como lidar com um ciclo de produto que ainda é longo?
Esse é o grande desafio. Estamos trabalhando para encurtar todas as etapas possíveis, do desenvolvimento até a entrega. É uma agenda de velocidade.
A China virou referência nesse tema.
Sem dúvida. Lá, mais de 90% das entregas já acontecem em menos de 24 horas. E o cliente passa a esperar esse nível de serviço em qualquer marca.
Existe uma “grande solução” em IA ou são várias iniciativas menores?
Não existe bala de prata. São várias iniciativas que, juntas, vão gerando resultado – no criativo, no abastecimento, nas vendas. O momento agora é escalar o que já deu certo.
O que define vantagem competitiva nesse cenário?
Capacidade de execução. A gente sempre fala: controle o que você pode controlar. Desenvolvimento de produto, experiência do cliente e gestão do negócio.
A IA substitui pessoas?
Não. O que a gente vê é a inteligência humana usando IA para tomar decisões melhores. Quem souber usar bem essas ferramentas vai gerar mais valor.
Imagem: Kaique Gouveia/Gouvêa Experience















