A Copa de 2026 e o jogo em constante transformação

A Copa de 2026 e o jogo em constante transformação

O calendário esportivo de 2026 vai além de marcar datas: ele reorganiza prioridades, redistribui investimentos e abre um novo mapa de oportunidades para quem sabe ler o comportamento antes do apito inicial.

Dos Jogos Olímpicos de Inverno à Copa do Mundo Fifa 2026, o esporte volta a funcionar como um dos maiores catalisadores de atenção global, principalmente para quem entende que o verdadeiro jogo, para marcas, varejo e agências, começa antes e termina depois.

A pergunta já não é mais “como aparecer durante o evento?”, mas sim como construir valor ao longo de toda a jornada, porque a centralidade do jogo mudou de lugar. Embora a audiência continue gigantesca, a disputa agora acontece em outro território: dados, recorrência, retail media, creators, comunidades e conversão.

A Copa deixa de ser apenas mídia e passa a operar como ecossistema. Historicamente, grandes eventos esportivos foram tratados como plataformas de visibilidade: filmes emocionais, grandes cotas de patrocínio, exposição massiva e campanhas concentradas em poucos dias.

Mas o comportamento do consumidor mudou, pois vivemos a era da atenção fragmentada, multiplataforma e contínua, em que somos expostos a mais de 5.000 marcas por dia e estamos dispostos a engajar com aproximadamente 12 delas, conforme pesquisa da Media Dynamics.

E como otimizar tão poucos dias de evento?

O público comenta antes, reage durante e prolonga emocionalmente o evento depois, alterando completamente a lógica de investimento. Hoje, as marcas precisam atuar em três camadas complementares:

Talvez uma das maiores oportunidades estratégicas, pois concentra planejamento, construção de narrativa, ocupação cultural, formação de comunidade e definição orçamentária.

Quem começa cedo esse trabalho de branding associado à Copa consegue criar conteúdo proprietário, ativar creators antes da saturação publicitária, construir legitimidade cultural, desenvolver ecossistemas de influência e estruturar importantes parcerias de mídia e varejo. Mais do que campanha, o pré-evento vira construção de presença.

A audiência da Copa continua incomparável, mas o ambiente tornou-se simultaneamente massivo e fragmentado. O consumidor assiste ao jogo enquanto comenta nas redes sociais, navega no e-commerce, interage em uma segunda tela e recebe estímulos em múltiplas plataformas. É uma omnicanalidade que também fragmenta. A disputa ultrapassou a telinha e acontece na timeline, no creator, no algoritmo, no marketplace e na recomendação.

Assim, as oportunidades passam por ativações em tempo real, experiências híbridas, social commerce e retail media em expansão, além de campanhas orientadas por comportamento e integração entre branding e performance.

Lógico que, mundo afora e principalmente no País do futebol, a emoção continua central, mas ela tem a missão de converter.

Talvez este seja o território mais negligenciado do marketing esportivo. Quando o torneio termina, boa parte das marcas desaparece, mesmo que os comentaristas da esquina mantenham a memória emocional ativa, preservando seu valor residual.

Quem foca no pós-evento, quase como uma prorrogação ou até uma disputa por pênaltis, encontra oportunidades em programas de fidelização e CRM, criação de comunidades proprietárias, recompra, recorrência e extensão narrativa.

O jogo continua, e quase ninguém permanece em campo.

Outro ponto que merece destaque é o retail media, um território que conecta emoção à decisão. Se o esporte constrói desejo, o retail media captura intenção.

Nos últimos anos, varejistas passaram a operar como plataformas de mídia altamente sofisticadas, utilizando dados proprietários, comportamento de compra e segmentação avançada para monetizar audiência.

Globalmente, o investimento em retail media ultrapassou US$ 140 bilhões em 2024, consolidando-se como um dos ambientes mais estratégicos da publicidade digital.

No Brasil, o movimento também acelera. Dados do IAB Brasil mostram expansão consistente da publicidade digital, impulsionada pela evolução dos ecossistemas de marketplace e mídia proprietária.

Amazon, Mercado Livre e Carrefour Brasil transformaram seus ambientes em plataformas de dados, mídia e conversão. Isso muda profundamente o papel do esporte no marketing. A Copa deixa de ser apenas um território de awareness e passa a operar como um gatilho transacional.

Na prática, campanhas ligadas ao torneio conectam-se diretamente à jornada de compra. O comportamento esportivo alimenta a segmentação, as experiências emocionais tornam-se conversão e o tempo entre impacto e decisão encurta radicalmente.

Os números que explicam a disputa

Existe uma diferença importante que frequentemente se perde nas análises de mercado: receita da Fifa e investimento total das marcas não são exatamente a mesma coisa.

Segundo relatório oficial da Fifa, o ciclo da Copa do Mundo Qatar 2022 encerrou com receita recorde de US$ 7,568 bilhões, um crescimento de 18% em relação ao ciclo da Copa da Rússia.

Desse total, US$ 1,795 bilhão vieram especificamente de marketing e patrocínio.

A entidade também detalha que todos os slots globais de patrocinadores foram vendidos, houve 18 apoiadores regionais, e o resultado comercial foi o maior da história da Fifa.

O breakdown oficial das receitas ajuda a entender a escala do ecossistema: 

Categoria  Valor (US$bi)  Participação no total  Observações 
Broadcasting rights  3,426  45%  Direitos de transmissão televisiva e digital; Europa liderou comUS$1,061bi, seguida por Ásia e Norte da África (US$1,025bi). 
Marketing rights  1,795  24%  Patrocínios globais e regionais de marcas como adidasCocaColaHyundai/KiaVisaQatarAirways e WandaGroup. 
Licensing rights  0,769  10%  Programas de licenciamento e varejo, incluindo PaniniLouisVuittonHublot e Taittinger. 
Hospitality&ticketing  0,929  12%  Vendas de ingressos e pacotes corporativos; recorde de público e receita em Doha. 
Outros  0,649  9%  Inclui receitas de plataformas digitais e eventos menores. 

O crescimento financeiro da Fifa não reflete apenas o aumento de audiência, mas revela a transformação da Copa em uma infraestrutura global de mídia, dados, retail media, hospitalidade e conversão.

Para as agências, a oportunidade vai muito além de criar as mais incríveis campanhas: está em redesenhar a forma como as marcas ocupam o tempo, despertam o desejo e influenciam a decisão dos consumidores.

Quem conseguir transformar presença em relevância, desejo em experiência e decisão em relacionamento contínuo não apenas vai jogar, mas vai levar a Copa.

Márcia Rostheuser Araújo é sócia da MRA Retail Strategies.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem: Envato

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