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Na agenda de Biden, unir a nação e os 3 “Cs”: Covid, China e Clima; Brasil será secundário

Redação de Redação
20 de janeiro de 2021
no Artigos, Destaque do dia, Economia
Tempo de leitura: 4 minutos

Joe Biden assume a presidência americana nesta quarta-feira (20) à sombra de um ataque sem precedentes ao Capitólio. Lidar com os seus principais desafios, os “3 Cs” (Covid, China e Clima), só será possível se antes ele cuidar da própria casa: recuperar a alma e a confiança na democracia americana.

Esse processo vai desde curar as profundas divisões e feridas sociais até garantir uma economia mais inclusiva, que não deixe os trabalhadores de classe média para trás. Então, não se surpreenda se uma certa versão econômica do “America First” de Donald Trump continuar durante a administração Biden.

O que não vai continuar na administração Biden é a versão geopolítica do “America First”. Pois, para lidar de uma forma efetiva com os “3 Cs”, Biden precisará fomentar uma maior cooperação com a União Europeia, reconstruindo o fundamental relacionamento transatlântico que foi tão danificado durante a era Trump.

Essa aliança US-UE é essencial para os Estados Unidos avançarem na pesquisa e na produção de vacinas, terem uma única voz contra os excessos militares e econômicos chineses (mantendo, ao mesmo tempo, uma relação cordial) e progredirem significativamente no combate às mudanças climáticas.

E onde fica o Brasil em tudo isso? Infelizmente, o Brasil não terá um grande foco na administração Biden, pelo menos não inicialmente. E há duas principais razões para isso e que caminham juntas: geopolítica e econômica.

Geopoliticamente, o Brasil está isolado no mundo e os Estados Unidos sabem disso. O atual presidente brasileiro conseguiu, de uma certa forma, a façanha de alienar as três maiores potencias globais: EUA, UE e China. Com os Estados Unidos, ao se alinhar a um presidente e partido específico, e não à nação, perdeu junto com o seu candidato favorito. Com a Europa, reagiu a líderes com ataques infantis por suas preocupações com as queimadas na Amazônia. E com a China, seguiu cegamente o sentimento anti-China quase xenófobo do presidente Trump e seus apoiadores. A China tomou nota.

Ou seja, os Estados Unidos sabem que a competição estratégica pelo Brasil no momento não é grande, então podem esperar alguns anos, pelo menos até que alguém um pouco mais diplomático assuma em Brasília.

E, por consequência, essa falta de interesse estratégico americana pelo Brasil vai refletir no interesse econômico pelo Brasil. Como o Brasil essencialmente virou um mega exportador de commodities, que, por definição, podem ser compradas igualmente de vários lugares do mundo, o País no momento não tem muito mais a oferecer economicamente ao Tio Sam.

Os EUA preferirão fazer negócios com parceiros estratégicos e aliados, mesmo que nem sempre faça sentido economicamente. Esse é o novo “antigo” jogo de um mundo multipolar.

Além disso, como já mencionado antes, os Estados Unidos de Biden focarão fortemente na economia doméstica, inclusive com medidas protecionistas para, sobretudo, proteger o trabalhador médio americano. Não é surpresa: muitos dos responsáveis pelo ataque em Washington fazem parte do grupo que ele quer proteger. A conexão entre frustração econômica e violência política é clara e histórica, e os Estados Unidos não querem se tornar a Alemanha dos anos 1930.

Então, qual deve ser a postura do Brasil em tudo isso? Primeiramente, humildade. Focar em refazer suas alianças globais se reequilibrando entre os Estados Unidos, União Europeia, e China, sem apostar todas suas fichas em apenas um deles. Assim, o Brasil será mais uma vez cortejado pelos Estados Unidos, pois sabe que se eles não nos derem atenção, terá alguém que nos dê.

E, dentro de casa, o Brasil precisará ter uma maior visão estratégica do que quer oferecer ao mundo. Exportar soja, carne e minério de ferro não deve ser o objetivo final de um país que quer se desenvolver. Deve ser o meio pelo qual o país adquire recursos para investir em educação de ponta e tecnologia (veja o exemplo do “Made in China 2025”) para exportar produtos de alto valor agregado que não podem ser encontrados em qualquer outro país, como os aviões da Embraer, por exemplo.

Se isso acontecer, a administração Biden (ou qualquer outra) estará de braços abertos para os nossos produtos e expertise. Inclusive, há uma oportunidade única para o Brasil no momento neste sentido, uma vez que tanto os Estados Unidos quanto a Europa querem diminuir suas dependências da cadeia produtiva chinesa para ter mais autonomia estratégica.

E nesse processo de transferência/duplicação/encurtamento de cadeias de valores da China, o Brasil pode ser uma das opções de destino. Só é necessário, agora o Brasil se tornar mais atraente estrategicamente para se beneficiar economicamente deste novo jogo de xadrez mundial. Senão, essas fábricas vão todas parar no Vietnã, Indonésia, Índia, Leste Europeu, Tunísia e México. E não aqui.

Rodrigo Guimarães de Souza é mestre em Ciências Políticas pela Universidade de Gotemburgo (Suécia) com 20 anos de experiência internacional. Atualmente, está sediado em Washington D.C. (EUA) depois de ter passado pela União Europeia, em Bruxelas (Bélgica). Recentemente, ele lançou um portal online especializado em análises geopolíticas chamado Atlas Report.

Imagem: Bigstock

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