Empresas apostam na economia circular vendendo produtos usados ou restaurados

A economia circular tem despertado cada vez mais a atenção do consumidor, como mostra a pesquisa “Consumidor do Amanhã – Tendências de Comportamento, Compra e Consumo para o Futuro”, realizada pela Mosaiclab e pela Toluna. O assunto teve destaque maior ainda neste ano, em que valores como sustentabilidade, inclusão e igualdade de direitos afloraram por todo o mundo.

Grandes empresas já perceberam que precisam estar ligadas nesse movimento e algumas têm investido fortemente nele. Em recente entrevista à Mercado&Consumo, Hélio Muniz, diretor de comunicação e sustentabilidade da Via Varejo, dona das marcas Casas Bahia e Pontofrio, disse que, em no máximo cinco anos, a empresa quer ser capaz de recolher todos os produtos que forem vendidos em suas lojas, e que precisem ser descartados pelos consumidores, e dar a destinação adequada a eles.

Outra grande iniciativa foi anunciada pelo Arezzo&Co. Em novembro, o grupo estreou no segmento de segunda mão por meio da aquisição de 75% do brechó online Troc. “O Troc, para nós, é uma ótima combinação. Ela traz a questão da economia circular, a pegada da sustentabilidade e ainda tem o lado da democratização da moda. Ao revender usados, damos acesso a pessoas que não comprariam produtos de qualidade em outras condições”, afirma Aline Penna, diretora de Relações com Investidores, Estratégia e M&A do grupo.

Segundo Aline, a sustentabilidade tem sido muito trabalhada pela marca nos últimos anos, por meio da venda de calçados feitos com matéria-prima biodegradáveis e da gestão adequada de resíduos. “Mas a economia circular pode ser a nossa grande iniciativa. A gente pode fazer tudo certo até o produto chegar à loja, mas o que acontece com ele depois que ele sai dali? Com a economia circular, fechamos esse elo.”

Marketplace com mais de 30 marcas

O Troc será, em breve, conectada à plataforma ZZ Mall, marketplace da Arezzo&Co que já opera mais de 30 outras marcas de moda e acessórios. Os usuários poderão vender suas peças de segunda mão e usar créditos no próprio site – para comprar produtos novos das marcas presentes na plataforma, direcionar o valor para doação ou transferir o dinheiro para sua conta bancária.

Com a aquisição do Troc, a Arezzo&Co oficializou a criação do ZZ Ventures, braço de corporate venture capital que será responsável por avaliar novas oportunidades de startups disponíveis no mercado. O brechó online continuará a ser comandado pela empresária e fundadora Luanna Toniolo. “A gente já vinha pensando como trazer, para ‘dentro de casa’, as startups, que têm a questão da inovação muito forte no negócio”, destaca Aline.

Outra vantagem do negócio é que o grupo passa a ter acesso a dados mais completos dos consumidores. “A partir do momento em que minhas clientes começarem a vender peças pelo Troc, nós vamos conseguir enxergar não só as peças que elas compram conosco, mas o guarda-roupa completo delas. Além disso, temos um canal para vender produtos de coleções passadas.”

‘Peça sustentável é a que já existe’

Produtos usados sempre foram o business do Repassa. O brechó online foi fundado em 2015 por Tadeu Almeida e divulga números que chamam a atenção – e não são só os financeiros. A empresa já economizou mais de 553 milhões de litros de água, evitou que 2,4 toneladas de CO2 fossem emitidas e reduziu 13 milhões de kW/h de energia. Desde o início da operação, a marca já recebeu mais de R$ 10 milhões de aportes provenientes de fundos de venture capital e investidores-anjos.

O segmento têxtil é o terceiro maior poluidor do Planeta, ficando atrás apenas das indústrias de transportes e petróleo. “Esse setor vem se acelerando ano após ano. Em 2018, o mercado de moda de segunda mão cresceu 21 vezes e, em 2019, 25 vezes. Estudos que tratam da ciência do consumo mostram que as pessoas estão ganhando mais consciência e essa é uma tendência da qual se vai falar cada vez mais. Os consumidores demandam responsabilidade corporativa. A peça mais sustentável é a que já existe”, diz Tadeu.

O ano de 2020 foi particularmente bom para a empresa. A crise econômica gerada pela pandemia fez aumentar a procura por produtos de preços mais acessíveis. Além disso, passando mais tempo em casa, muitas pessoas se viram diante de peças que não usavam mais e decidiram se desfazer delas – vendo, na revenda, uma opção também de rentabilização.

De ferro velho em ferro velho

Outra empresa que nasceu com foco na economia circular foi a Indústria Fox. Ela foi inaugurada em setembro de 2010 para operar a primeira fábrica de produção reversa de refrigeradores e refurbished (reforma) de eletrônicos. Foi naquele ano que a Política Nacional de Resíduos Sólidos foi elaborada – embora ela tenha sido regulamentada em decreto só neste ano, uma década depois.

“Trouxemos da Europa, em 28 contêineres, uma máquina de reciclagem de eletrônicos com foco em equipamentos de refrigeração. Eu saía de ferro em ferro velho comprando geladeira para testar a máquina. Só que a lei não saiu do papel e fomos atrás de outros serviços, porque tínhamos de sobreviver”, conta o CEO Marcelo Souza.

A empresa começou, então, a fazer a distribuição, a logística reversa e a coleta de eletrodomésticos com recursos próprios. Em 2012, complementou o portfólio de serviços com soluções de armazenagem, manutenção, reforma e reparo de equipamento. Em 2018, a empresa ampliou a atuação nos processos de reaproveitamento de materiais e produtos no mercado B2B. Hoje, possui um e-commerce próprio, o TudoBônus, onde os produtos recebidos de parceiros e restaurados são vendidos praticamente novos ou com pequenas avarias.

Remanufatura vs reparo

Antes de colocar os itens à venda, a empresa faz tanto reparos quanto remanufaturas. “Se você vai numa loja, compra um produto e devolve, ele não é mais considerado novo e geralmente tem uma pequena avaria, que pode ser apenas estética. Nós fazemos o reparo, a higienização e a comercialização”, explica.

Já geladeiras em fim de vida, usadas em residências ou empresas, são desmontadas, passam por funilaria e pintura e vão para uma linha de montagem, onde começam a ser reconstruídas. “Nós remontamos o equipamento com um upgrade de tecnologia e colocamos à venda.”

Segundo ele, o TudoBônus funciona como uma espécie de catálogo digital. O cliente pode ver as fotos reais e fazer a reserva dos produtos. Na hora da entrega, ele examina e só aí faz o pagamento. Os produtos, vendidos por cerca de 70% do valor dos novos, têm seis meses de garantia. São geladeiras, máquinas de lavar roupa, micro-ondas e batedeiras vendidos para públicos que vão da classe A à baixa renda.

“Podemos pegar produtos que são lixo para uma pessoa e vender para outras. O lixo das pessoas da classe AAA está quatro, cinco anos à frente daquele de pessoas que moram no sertão do Nordeste e ainda usam televisores de tubo da marca CCE. A economia circular é o próximo passo estratégico das empresas”, acredita.

Imagem: Bigstock

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