Nesta segunda análise da Série Vetores do Varejo, abordamos, por meio de dados e cases, como o avanço da Inteligência Artificial (IA) vem transformando o comportamento dos consumidores e acelerando o uso de tecnologia no varejo nos anos posteriores à pandemia.
O consumidor pós-pandemia está mais exigente e familiarizado com a utilização de IA e de modelos de linguagem (Large Language Models) para encontrar produtos de sua preferência e melhores ofertas.
A consultoria global Adobe monitora dados de transações online com cobertura de mais de um trilhão de visitas a sites de varejistas norte-americanos, por meio de pesquisas trimestrais, com o objetivo de contextualizar como os consumidores estão utilizando IA em suas jornadas de compra online nos anos pós-pandemia.
Segundo o último estudo divulgado pela consultoria, em abril deste ano, o varejo foi o segmento que apresentou o maior crescimento no tráfego originado por ferramentas de IA e direcionado aos sites das empresas, com alta próxima de 400% no primeiro trimestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior. Na sequência aparecem os segmentos de viagens, com avanço de 233%, e de serviços financeiros, com crescimento de 158%.
Ainda segundo o relatório, 39% dos consumidores norte-americanos utilizaram IA antes de realizar compras online nos primeiros meses deste ano. Não é nenhuma surpresa que a maior varejista do mundo – Walmart Inc. – tenha saído na frente de seus concorrentes na utilização de tecnologia, incluindo IA, o que melhorou significativamente a experiência de compra dos consumidores e a produtividade dos canais de vendas e da operação como um todo.
A afirmação de Vinod Bidarkoppa, VP executivo de Tecnologia do Walmart International, resume bem a importância do uso de tecnologia para a operação e os ganhos obtidos nos anos pós-pandemia: “Dada a nossa escala, a única forma de sermos mais ágeis é sermos também mais inteligentes no uso das ferramentas de tecnologia.”
É exatamente com esse objetivo que a gigante mundial vem desenvolvendo sistemas proprietários capazes de liberar o tempo dos colaboradores de tarefas de bastidores para ações em tempo real, aumentando as vendas e fortalecendo a interação com seus clientes. São diversos os exemplos desenvolvidos nos últimos anos pelo Walmart visando ao aumento da eficiência da cadeia de abastecimento e da produtividade nas lojas.
Na operação mexicana, o Walmart desenvolveu uma plataforma denominada Self-Healing, que passou a ser utilizada na administração de estoques das lojas e na otimização do uso do espaço nas prateleiras.
A plataforma Self-Healing direciona produtos para lojas vizinhas e reorganiza as rotas de entrega quando identifica que determinada unidade atingiu um nível de cobertura de estoque considerado ideal, antes mesmo que haja risco de excesso de produtos ou necessidade de campanhas promocionais para redução dos estoques. Segundo o Walmart, essa iniciativa já gerou economia superior a US$ 55 milhões para a operação mexicana.
Outro exemplo de plataforma proprietária utiliza IA generativa (GenAI) associada a dados analíticos de tendências preditivas e comportamentais. Chamada de Trend-to-Product, ela foi desenvolvida para acelerar o desenvolvimento, a produção e o lançamento de novas tendências na categoria de vestuário; uma das áreas de maior escala e relevância para o grupo.
A plataforma utiliza IA para analisar informações disponíveis na internet, e nas redes sociais, e criar sugestões de moda, com recomendações de texturas e design, contribuindo para reduzir o tempo de desenvolvimento e disponibilização de novas coleções para aproximadamente sete semanas, frente às cerca de 18 semanas observadas no período pré-pandemia. O Walmart estuda expandir essa solução para outras categorias, como cosméticos e móveis.
Home Depot, gigante de varejo de materiais de construção, está em linha com Walmart
A linha adotada pela líder norte-americana do varejo de material de construção, a Home Depot, segue estratégia semelhante ao Walmart. A companhia desenvolveu internamente plataformas de IA para aumentar a produtividade dos colaboradores e otimizar a administração dos estoques, da logística e do abastecimento da rede.
A plataforma de maior aderência na Home Depot chama-se Sidekick e foi lançada em 2023. Atualmente, está disponível em todas as lojas da rede por meio de mais de 100 mil dispositivos móveis utilizados pelos colaboradores.
O sistema auxilia os colaboradores na identificação de produtos em falta nas lojas e pode indicar aumentos de demanda por determinados itens, permitindo o reabastecimento antes da ruptura de estoque. Outra aplicação da plataforma envolve algoritmos que determinam quais atividades devem ser executadas e em qual ordem de prioridade.
Target tem estratégia nativa e não nativa de IA
Ao contrário do Walmart, que preferiu desenvolver internamente essas soluções, a Target optou por estabelecer parcerias com plataformas já disponíveis no mercado, como Gemini (Google), Copilot (Microsoft) e ChatGPT (OpenAI).
A varejista procura integrar os resultados obtidos por meio dessas plataformas ao seu programa de fidelidade, o Target Circle. Os produtos passam a estar disponíveis para compra diretamente a partir das buscas realizadas nas ferramentas do Google, permitindo ao consumidor transferir os itens encontrados para o site da Target e concluir a compra utilizando o Target Circle Card.
Outra plataforma utilizada pela Target é a Trend Brain, nativa da companhia, que combina IA generativa com a criatividade humana para identificar oportunidades de negócios e acelerar o desenvolvimento de novos produtos. Um exemplo recente da utilização dessa solução foi o planejamento do lançamento do novo álbum e da linha exclusiva de produtos da cantora Taylor Swift durante sua turnê pelos Estados Unidos.
Grandes players brasileiros do varejo aceleram uso de IA
No Brasil, o uso de IA também acelerou nos anos posteriores à pandemia. Destacam-se os caixas de self-checkout das Lojas Renner, que utilizam tecnologia RFID para realizar a leitura automática dos itens colocados na cesta de compras, sem necessidade de intervenção humana, aumentando a produtividade no processo de pagamento e reduzindo filas.
Outras aplicações de IA nas Lojas Renner apoiam a companhia no planejamento da demanda, na otimização da cadeia de abastecimento e na previsão de tendências de moda, elevando a reposição automática de produtos e reduzindo perdas.
No caso da Azzas 2154, resultado da fusão entre Arezzo&Co e Grupo Soma, o principal desafio é integrar formatos de lojas, marcas e canais para formar um ecossistema de marcas integrado, porém altamente especializado. A estratégia adotada pela companhia tem como referência grupos globais como LVMH e Inditex.
Já a líder do varejo farmacêutico brasileiro, a RD Saúde, tornou-se referência na utilização intensiva de dados, automação e IA em sua cadeia de abastecimento e no relacionamento com clientes. As aplicações envolvem desde as entregas realizadas por aplicativo e site até a reposição automática de produtos vendidos nas lojas e a otimização dos estoques.
Daniela Bretthauer acumula mais de 25 anos de experiência em mercado de capitais, equity research e relações com investidores. Ao longo da carreira, atuou em instituições financeiras e companhias abertas, com passagens por HSBC, Goldman Sachs, Santander, Carrefour Brasil, Magazine Luiza e Via Varejo, além de participação em mais de 20 ofertas públicas de ações na América Latina.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
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