A falta de mão de obra qualificada é um dos principais gargalos para o crescimento do foodservice no Brasil, afirmam executivos de empresas que compõem a cadeia do setor. A dificuldade de contratação e a alta rotatividade afetam tanto a indústria quanto operadores e empresas que atuam na logística.
O tema permeou debates no Connection Foodservice Day Pós-NRA Show 2026, realizado pela Mercado&Consumo e pela Gouvêa Experience em São Paulo nesta semana.
“Esse assunto está entre os três itens na agenda de qualquer empresa, de qualquer setor, especialmente no de logística”, afirmou Alessandro Rios, diretor-geral da Martin Brower para a América Latina e presidente do Instituto Foodservice Brasil (IFB).
Segundo ele, a realidade mudou drasticamente nos últimos anos. “Há 15 anos apareciam centenas de pessoas querendo trabalhar. Hoje não conseguimos contratar toda a demanda de que precisamos.”
A disputa por profissionais, diz Rios, ganhou novos contornos com o crescimento do e-commerce, das plataformas digitais e de modelos alternativos de trabalho. “Novos canais foram abertos e geram uma concorrência quase desleal e uma competição absurda por mão de obra.”
Dados da Confederação Nacional do Transporte (CNT) mostram que o Brasil enfrenta um déficit estimado de cerca de 120 mil motoristas profissionais. Se esse déficit atual continuar crescendo, a CNT projeta que o País poderá ter 200 mil vagas ociosas até 2027.
O desafio também afeta diretamente os operadores de restaurantes. O CEO da Firehouse Subs, Iuri Miranda, afirma que a elevada rotatividade continua sendo um dos principais fatores de perda de produtividade do setor. “O varejo fala de uma média de 120% de turnover nas operações. Quanto custa cada ponto percentual dessa rotatividade? Quanto estamos perdendo de competitividade?”, questiona
O executivo destaca, ainda, a dificuldade de contratação formal. “Tínhamos 30 pessoas inscritas para uma vaga. Quando informamos que era com carteira assinada, 20 desistiram antes de começar.”. Para ele, o tema exige uma discussão mais ampla sobre as relações de trabalho no País. “Temos um sistema laboral arcaico, completamente atrasado em relação à modernidade toda de tecnologia.”
Na indústria, o cenário não é diferente. A diretora global de Foodservice da MBRF, Luzia Goldbeck, afirma que a gestão de pessoas se tornou um desafio diário para empresas de grande porte. “Todos os dias temos inúmeras contratações para fazer. É um cenário bem complicado.”
Diante da escassez de profissionais, a automação aparece como uma das alternativas para aumentar a produtividade, afirma a executiva. “Precisamos evoluir cada vez mais na automação para ter menos dependência de mão de obra e entregar mais eficiência para a cadeia.”
Mas a tecnologia, sozinha, não resolve o problema. Para Luzia, o engajamento dos colaboradores passa também por propósito e pertencimento. “Se a gente não mostrar o propósito, não consegue entregar essa solução. O profissional de hoje quer pertencer, quer ter um propósito.”

Integração para ganhar eficiência
A integração da cadeia de foodservice foi o tema principal do painel “Cadeias mais conectadas, negócios mais fortes”, que contou com a participação dos três executivos e mediação de Marcos Gouvêa de Souza, fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem e publisher da Mercado&Consumo.
Ela é apontada como uma das principais respostas aos desafios do setor, entre eles o de mão de obra. Soluções integradas de gestão de estoque, previsão de demanda e abastecimento ajudam a diminuir atividades operacionais e liberam tempo para que gestores foquem em questões estratégicas, como retenção de talentos e experiência do consumidor.
A colaboração entre os diferentes elos também fortalece a resiliência do setor em momentos de instabilidade econômica ou interrupções logísticas, reduzindo riscos de desabastecimento e aumentando a capacidade de resposta das empresas.
Além disso, a integração deixará de ser apenas uma vantagem competitiva para se tornar uma necessidade operacional com a implementação da reforma tributária – outro tema urgente e debatido no painel como desafiador. O novo modelo exigirá maior sincronização entre indústria, operadores logísticos e varejo para garantir a correta gestão dos créditos tributários e a padronização de informações fiscais ao longo da cadeia.
Assim, a troca de dados em tempo real e a interoperabilidade entre sistemas serão fundamentais para evitar inconsistências e assegurar a conformidade das operações.
Imagens: Envato e Mercado&Consumo