Luiza Trajano: A pandemia acelerou o processo de igualdade para a mulheres

Presidente do conselho de administração do Magazine Luiza, Luiza Helena Trajano vinha, havia algum tempo, destoando de grande parte de colegas empresários quando o assunto era a participação feminina nos comitês das empresas. Ela defendia que houvesse cotas por um determinado período, até que se alcançasse um equilíbrio de gênero. Diante do avanço que observou no último ano na presença de mulheres em conselhos, Luiza Trajano diz agora que precisa reavaliar a questão.

“Não estou falando que não vai mais precisar de cotas, porque ainda não sei. Mas você vai ver, nestes próximos dois anos, uma mudança muito grande de mulheres diretoras. Eu nem esperava estar viva pra ver o que estou vendo”, afirmou ao Estadão. Segundo a empresária, a pandemia foi responsável por acelerar o processo de transformação nas companhias.

Luiza Helena lidera o Mulheres do Brasil, grupo formado em 2013 que trabalha por igualdade de oportunidades entre gêneros e raças. A empresária destaca que são necessárias políticas públicas para reduzir a desigualdade entre homens e mulheres no trabalho e, assim como o Mulheres do Brasil, defende escolas integrais e iniciativas que permitam às mães trabalhadoras morarem em regiões centrais das cidades, próximas ao trabalho. A seguir, trechos da entrevista.

Levantamento do ‘Estadão’ mostrou que, das 87 empresas do Ibovespa, apenas duas têm mulheres CEOs e três, mulheres na presidência de conselhos de administração. Como avalia esse cenário?

Minha vida inteira, eu lutei por cotas (para mulheres em conselhos), porque, para mim, era um processo transitório para acertar uma desigualdade. Era uma defasagem muito grande entre mulheres e homens. Só que hoje a realidade mudou. As pessoas querem mulheres, e querem mesmo. Mudou de um ano pra cá. Antes, tinha só eu de presidente de conselho de empresa aberta. Depois, veio a do Banco do Brasil e mais uma (da CCR). Graças a Deus, agora já somos três. Você vai ver que, daqui um tempo, teremos mais.

Essa mudança está ocorrendo na velocidade adequada? As cotas ainda são necessárias?

Até o ano passado, a diferença (entre a participação feminina e a masculina na alta liderança das empresas) era muito grande. Hoje, os principais headhunters estão me falando que, para cada dez vagas em diretorias que estão chegando a eles, 60% das empresas querem mulheres. Então, para mulheres isso já mudou muito. A pandemia trouxe muita tristeza, mas acelerou o processo de igualdade tanto para o negro quanto para a mulher. Não estou falando que não vai mais precisar de cotas, porque ainda não sei. E tem outras cotas que não são para mulheres. Mas você vai ver, nestes próximos dois anos, uma mudança muito grande de mulheres diretoras. Eu não digo presidente, porque existe um papel de formação ainda, mas vai ter muita mudança. Eu nem esperava estar viva pra ver o que estou vendo.

A sra. sempre defendeu cotas, agora disse que não sabe se ainda serão necessárias…

Estou falando para mulheres. Para outros grupos, tenho certeza de que ainda são.

A adoção de cotas ainda enfrenta muita resistência no ambiente corporativo, não?

Eu respeito quem tem (resistência à ideia). Acho que é um processo de paradigma. Mas a mulher não era lembrada nem convidada para estar nos conselhos. Então não é uma questão de meritocracia. Mas a própria mulher também precisa entender que está pronta para ser isso (conselheira ou diretora), assim como o homem está pronto. Ela tem de acreditar nela. Ela vai errar, vai acertar, vai aprender, como todos que pegam um cargo novo.

Como é a discussão desse assunto de cotas com seus colegas?

Eu já percebi mais resistência do que percebo hoje. No começo, eu quase apanhava, tanto de homem quanto de mulher. Mas me mantive firme, porque entendo que cota seja um processo transitório para acertar uma desigualdade. Vou te explicar quando é que eu fiquei a favor de cotas. Você nem vai acreditar. Foi quando saiu a lei de cotas para deficientes. O Magazine já era uma empresa que estava na lista das melhores empresas para se trabalhar. Eu sempre fui muito voltada para essa questão de diversidade, mas nunca tinha olhado para a questão do deficiente. Eu falei: ‘Se eu, que sou uma pessoa que tem uma tendência para se importar com isso, que tenho um RH já premiado, nunca olhei para isso…’ Aí eu fui estudar. Eu comecei a aprovar as cotas quando eu vi que elas eram necessárias mesmo em uma empresa que já era aberta para a questão da diversidade.

O Magazine Luiza foi a primeira empresa a ter um programa de trainee só para negros, mas a companhia não tem negros no conselho. Como vocês vão trabalhar isso?

O conselho, a gente vai renovando. Estamos atentos a isso e sabemos que precisa ter. Hoje, temos essa falha. Mas mulheres, nós já temos 40% há muito tempo.

A sra. vê muita diferença quando um conselho tem essa participação feminina?

Eu sempre tive (40% de participação no conselho do Magazine Luiza). Então nunca foi novidade. Até porque, se eu não tivesse, tinha de apanhar, né? Agora, eu participei de muitos conselhos em que era a única mulher. Vejo o tanto que o meu papel de mulher, e não por ser a Luiza Helena, e a minha experiência ajudaram os conselhos.

A sra. sempre foi acionista de empresa. Essa posição a poupou de sofrer preconceitos machistas?

Eu vim do interior. O Magazine Luiza era uma empresa pequena, e eu nunca mudei nada em mim. Vim muito novinha, e ninguém conhecia Magazine Luiza. Era tudo muito diferente. Eu sou a única mulher presidente no varejo até hoje. Então, imagina como era 40 anos atrás. Lógico que não é fácil, mas eu não me vitimizo. Eu mostro o que eu sou. Sou filha única. Minha tia não teve filhos. Venho de uma família onde as mulheres sempre trabalharam. Mas eu comecei a trabalhar muito essa questão das mulheres porque via a dificuldade que era ganhar menos ou não ser lembrada. Quando montamos o Grupo Mulheres do Brasil, percebemos mais ainda a importância da nossa luta. Nós somos claras nas nossas premissas. Não somos contra os homens, somos a favor das mulheres e temos trabalhado muito pra isso.

Muitas mulheres abandonam suas carreiras quando se tornam mães. Como foi para a sra. conciliar trabalho e maternidade?

Eu tive três filhos em três anos e meio trabalhando no balcão, na loja, o que exigia trabalhar sábado e domingo. Duas coisas me ajudaram muito. Primeiro, eu morei no interior nessa fase dos meus filhos pequenos. Eu podia levá-los à escola de manhã e depois alguém ia buscá-los. Podia almoçar em casa, porque era tudo muito perto. Isso ajudou muito. Mas o que mais me ajudou foi minha mãe. Ela só teve eu de filha. Quando nasceu meu primeiro filho, ela falou: “Você está tendo a coisa mais importante da tua vida, mas saiba que não tem receita”. Tem mãe que trabalha fora e tem filhos ótimos. Tem mãe que trabalha fora, mas tem filhos que não dão certo. Tem mãe que fica em casa e vice-versa. Então, tem de ter muito amor, bom senso e não pegar culpa. Eu não pego culpa de jeito nenhum. Nunca quis ser perfeita, mas sempre estive junto, sempre ajudando.

Quais políticas e iniciativas a sra. acredita que podem ajudar a mulher a avançar na carreira mesmo sendo mãe?

A gente (o Magazine Luiza) criou, há mais de 15 anos, o cheque-mãe. Toda mulher que tem filhos de até dez anos e 11 meses, independentemente do seu cargo, recebe um cheque de acordo com sua cidade. Aqui não é ONG. Todo mundo tem de dar resultado, mas isso não é amarrado ao resultado. Ela recebe esse auxílio para que possa pagar a vizinha, a mãe ou a irmã para ficar com o filho, porque infelizmente a criança sai da escola às quatro horas e fica lá abandonada. Mas, enquanto isso, eu luto como cidadã. No Grupo Mulheres do Brasil, lutamos para que cada quarteirão do Brasil tenha uma escola em período integral, porque é muito difícil para uma mãe sair para trabalhar às cinco da manhã, em uma cidade grande, ainda ter de trabalhar à noite e ter de deixar os filhos sozinhos de dia. As empresas têm de olhar para a mulher não como um custo, mas como muito necessária. Agora, nós precisamos mesmo é de políticas públicas.

Além de escola em período integral, quais políticas públicas?

Primeiro, ninguém pode pagar menos para uma mulher por ela ser uma mulher. A mulher operária precisa ser muito bem-vista também. Por que ela precisa morar longe dos centros se os centros das cidades estão abandonados? Por que ela não pode morar mais perto do trabalho se está tudo abandonado? Tem de olhar para esse lado da mulher que trabalha, que hoje é arrimo de família.

Como a sra. avalia a atuação desse governo em relação aos direitos das mulheres e às políticas públicas que podem promover igualdade de gênero?

Eu não quero falar disso. Eu só quero te dizer que tem de ter políticas públicas.

A sra. já afirmou ter sofrido muita pressão para ser candidata nas eleições deste ano e não quis. Como política, não poderia fazer mais pelas mulheres?

Eu poderia até tentar fazer, mas eu acredito muito no Grupo Mulheres do Brasil, que hoje tem 106 mil mulheres e é um grupo político. Já é o maior grupo político do Brasil. Acredito muito, e eu não dei conta. Não vou te falar que foi intuição. Eu sempre fui uma pessoa que acreditou em políticos, mas nunca me filiei a partido. Se tem um lado que faz coisas boas, vou defender. Eu sou apaixonada pelo Brasil. O Magazine Luiza canta o hino nacional há 25 anos. Hoje nós já cantamos em todas as unidades. Mas eu não dei conta (de uma candidatura). Não posso te dizer nada. Posso dizer que eu continuo atuando em políticas públicas, e hoje com um grupo forte. Ter um grupo ajuda muito para que a gente consiga pautar, colocar as coisa lá dentro, tá certo?

Como está o trabalho do Pula para 50 (movimento do Mulheres do Brasil que trabalha para que 50% das vagas na política sejam ocupadas por mulheres)?

Muito bom. O que eu mais tenho recebido, inclusive dos meus amigos homens, é que a gente tem de mudar o que está aí. Então temos de colocar mulheres que se comprometam com uma carta de compromissos nossa. Ela pode ser de qualquer partido, se estiver comprometida, vai estar na nossa lista.

Não adianta, então, ser só “mulher vota em mulher”? A candidata Simone Tebet tem defendido muito que mulheres votem em mulheres.

Não (adianta). Nós temos uma carta. A candidata pode ser de qualquer partido. Ela vai constar na nossa lista se comprometer. E, depois, ela vai ser acompanhada.

Com informações de Estadão Conteúdo (Luciana Dyniewicz).
Imagem: Divulgação

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