Foi a distância entre o talento e os recursos que temos, e o projeto e a gestão que não temos que nos derrotou na Copa. E isso é o reflexo da realidade que vivemos.
Por mais duras que sejam as derrotas elas podem e devem ser usadas como momentos de reflexão. Existem aquelas derrotas que são apenas esportivas e outras que são sintomas.
O desempenho recente, e a forma como ocorreu a participação da seleção brasileira na Copa do Mundo, ficou muito aquém das expectativas de todo um País que tinha se acostumado a ser referência global no futebol. E não deve ser analisado apenas pelo prisma técnico e esportivo, pois ele revela algo mais profundo e pode ser um espelho dos equívocos do Brasil como Nação.
E, neste caso, o futebol provoca reflexões que reforçam pontos que líderes deveriam considerar no plano de suas próprias atividades, mas também, e principalmente, envolvendo o País.
Não é por falta de talento e recursos
Em termos de futebol, definitivamente o Brasil continua sendo um dos maiores celeiros de talentos do mundo. E recursos para Copa do Mundo são viabilizados para o que for necessário, pois todos sabem da importância estratégica do tema e que transcende em muito ao campo esportivo, e tem evidentes impactos na confiança, orgulho e visão da Nação.
Nossos jogadores atuam em clubes de elite no Brasil e nos principais times mundiais, com salários milionários, exposição e prestígio globais. E suas atividades transcendem em muito ao futebol, pois são embaixadores de marcas pela ascendência, especialmente para a maior parte da população de menor poder aquisitivo que é parte fundamental do Brasil real.
E o resultado coletivo decepcionou por questões no campo e extracampo. E com toda a cautela possível para não incorrer em perigosa generalização.
No plano da Nação temos quadro muito similar com recursos abundantes, potencial econômico relevante, porém falta projeto e, principalmente, um modelo de gestão e direção onde predomina o foco no curto prazo e no que rende aplausos fáceis mesmo quando compromete o futuro.
Falta projeto e estratégia consistentes
No futebol, na Copa e na vida, vencedores campeões têm identidade, vontade e determinação. Sabem como e por que jogam e como podem conquistar vitórias. De jogos e campeonatos. Treinam e desenvolvem competências para que se alcance os resultados.
E não podemos nos iludir.
Numa Copa há apenas um vencedor; muitos outros ficam pelo caminho. No caso brasileiro, chama a atenção o fato de que, apesar de contar com talentos que brilham nos principais clubes e ligas do mundo, em ambientes de organização e gestão que favorecem o alto desempenho, a seleção não consegue transformar esse potencial em resultados equivalentes.
Quando integrados na seleção brasileira, o desempenho recente tem mostrado o quanto o talento pode ser superado pela falta de maior e mais ambiciosa organização, atitudes e visões equivocadas e individualismo.
Nos últimos anos tivemos mudanças frequentes de comando, indefinições e um consistente processo de reação ao invés de antecipação com determinação e decisiva vontade de vencer, como assistimos em outras equipes durante a Copa.
Há uma ironia proveitosa em quem exatamente encerrou a campanha brasileira. A Noruega não tem um décimo do celeiro de talentos que o Brasil produz – e chegou mais organizada, mais coesa e com um projeto mais claro de como jogar.
Mais do que força de expressão, é o mesmo país que administra um fundo soberano de mais de um US$ 1 trilhão, construído com disciplina de décadas, gestão com visão de longo prazo e blindagem deliberada contra o imediatismo político. Enquanto o Brasil trata a abundância de petróleo, de terras raras, de agro, de talento como recurso a ser consumido no próximo ciclo eleitoral, países como a Noruega tratam a abundância como capital a ser administrado para gerações. A diferença em campo, no fim, foi um espelho fiel da diferença fora dele.
Quanto pensamos na política e na economia do nosso País, o que se nota são as oscilações de rumo permeadas pelas disputas polarizadas e focadas no curto prazo, que têm como horizonte a próxima eleição, gerando um clima de imprevisibilidade que limita a proposta e a atração de investimentos. E principalmente ausência do pensar no longo prazo.
Tornamo-nos reféns do imediatismo.
E desta forma desperdiçamos oportunidades históricas, como a que vivemos neste momento global, em que a abundância de recursos estratégicos como energia, terras raras e alimentos cria um momento único para nos posicionarmos e negociarmos.
No entanto, por falta de projeto, coesão e visão, ficamos à margem da transformação estrutural, política e econômica que acontece no mundo, com desempenho pífio em praticamente todos os vetores envolvendo crescimento econômico, educação, desigualdade social e segurança.
Mas, em compensação, somos um dos maiores mercados globais para bets, funcionando como válvula de escape e criação de ilusão para a maior parte da população.
O desafio brasileiro de uma potência com baixa performance
A frustração com a seleção brasileira não é apenas esportiva. Ela tem simbolismos maiores e não deveríamos apenas virar a página como temos feito. Em especial as lideranças empresariais.
Temos vivido a realidade de um País com enorme potencial, mas que teima em continuar apostando num futuro sem projeto e capacidade de execução.
Por visões e opções equivocadas.
Temos um dos maiores índices de advogados por 100 mil habitantes no mundo; reflexo da complexidade tributária, operacional, burocrática e legislativa. Mas formamos muito menos cientistas de dados, engenheiros e técnicos, em um cenário de ampla transformação tecnológica. Estamos na contramão do mercado futuro em termos de educação. E em muitos outros setores.
As facções avançam ocupando espaços na economia e no mercado real, formalizando um Estado contaminado pela corrupção e pelo crime.
E tudo isso apesar de o Brasil ter um setor privado que é benchmarking global em muitos aspectos e iniciativas, mas que delega a condução dos destinos da Nação apenas ao setor público. O resultado é o que temos acompanhado: projetos e a distribuição de verbas e recursos são pautadas pela ótica míope do curto prazo.
Reconstrução de forma ampla
Temos a necessidade urgente de reconstrução de quase tudo no campo, neste caso do futebol, e fora dele.
É um erro fundamental imaginar que o futuro da Nação deva ser delegado apenas à classe política e aos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.
Definitivamente, não.
O custo para a Nação, e para o setor privado que gera emprego, renda e paga os impostos que sustentam o País, tem sido muito altos.
Até mesmo os setores que vivem um momento positivo em sua realidade, como financeiro, construção e saúde, deveriam se mobilizar para construir um projeto que não desperdiçasse talento, recursos e possibilidades como tem acontecido. E aconteceu com o futebol nesta Copa do Mundo.
Derrotas muitas vezes podem precipitar reflexão. Mas o mais importante é estimular uma renovação.
Na vida, na política, nos negócios e para a Nação.
Ainda é tempo de assumir uma outra posição.
Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem e publisher da plataforma Mercado&Consumo.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem gerada por IA (ChatGPT)















