Existe algo poderoso no futebol que fica ainda mais patente quando exponenciado numa Copa do Mundo. Vai muito além do que acontece nos 90 ou mais minutos das partidas e amplifica o que ocorre nas quatro linhas.
Pode ser também interpretado como um laboratório vivo de estratégia, operação, pressão, execução e liderança.
E, se quisermos olhar com uma visão expandida, poderemos perceber que o futebol não apenas imita a vida, mas reproduz em parte o que acontece no mundo dos negócios. Sendo, em si mesmo, um negócio com crescente impacto global.
Em termos estratégicos, o jogo também começa muito antes do apito
Na Copa, ninguém vence apenas no talento. Ele é fundamental. Mas há muito mais do que isso. O bom resultado é fruto de muito tempo e dedicação ao planejamento, análise e preparação dos times.
No futebol, é preciso dedicar tempo ao estudo dos adversários, a ajustes do esquema tático e ao treinamento repetitivo como forma de alcançar os resultados.
Na empresa e nos negócios, esse é o papel do planejamento estratégico, que hoje precisa ser constantemente revisto e envolve o uso intensivo da inteligência de mercado e o permanente realinhamento de recursos.
Empresas e negócios que improvisam jogam, quando muito, para empatar. Os que querem vencer devem pensar e repensar o curto, médio e longo prazos, cientes de que execução é sempre o fator mais crítico. Isso exige modelos de organização, gestão e cultura alinhados a essa dinâmica.
Atitude e Iniciativa são decisivas para converter talento em resultado
No campo e no futebol, na maioria dos momentos a decisão precisa ser tomada em segundos e a hesitação pode custar muito caro. A hesitação significa perder a chance e a bola. E estimular o contra-ataque.
No mundo corporativo, cada vez mais a tomada de decisão deve ser rápida, porém ponderada e avaliada. Assim como a proatividade em cenários incertos – que passaram a ser a única constante. Sempre com a atitude, e até mesmo coragem, de agir quando necessário e antecipando movimentos de mercado. Idealmente antes da concorrência.
Assim como no futebol, negócios e organizações enfrentam ambientes cada vez mais imprevisíveis e precisam responder rapidamente às mudanças. E, sempre que possível, antecipar-se a elas.
A iniciativa pode transformar antecipação de pressão em oportunidade.
Preparo com disciplina constrói resultado
Em vários casos, e assistimos a isso mais uma vez, times considerados menos preparados superaram outros reconhecidamente mais fortes.
O preparo, a dedicação e a disciplina com a execução foram os responsáveis pela surpresa do resultado. Treinos intensos, comprometimento e o estímulo constante, combinados com organização tática consistente, responderam pela aparente surpresa positiva.
Nas organizações e nas empresas, os processos bem definidos, o estímulo, a cultura organizacional forte e a disciplina na execução podem gerar resultados também surpreendentes e mostrar que a excelência vem de organização, disciplina, comprometimento e estratégia. E não apenas do acesso a maiores recursos.
Comprometimento e dedicação pensando no todo
Grandes craques podem ser decisivos e fazer toda a diferença, como no mundo empresarial e dos negócios. Ao longo desta e outras Copas, mais uma vez ficou provado isso.
Mas o mais decisivo, de fato, é que o todo esteja organizado para fazer a diferença e até mesmo permitir que o craque cumpra seu papel.
Em quantas oportunidades temos visto o craque, do futebol ou do mundo empresarial, não conseguir sozinho virar uma situação adversa? Exemplos recentes de França, Dinamarca e Inglaterra, para citar apenas alguns, foram eloquentes para mostrar que todo talento individual pode não ser suficiente para superar outros atributos conjugados e integrados.
Grandes seleções e negócios não podem depender de um único ou poucos craques; é fundamental a integração virtuosa do coletivo para que se alcancem bons resultados. Nas organizações a cultura, o espírito de integração, o alinhamento dos objetivos e o senso de pertencimento podem fazer toda a diferença.
Resultados nos negócios vêm de valores, confiança e disciplina e não apenas do talento individual de poucos. Talento e momento podem ganhar um jogo. Times, no sentido mais abrangente, ganham campeonatos.
Superação e resiliência são decisivos para virar o jogo
Nesta e em todas as Copas, tivemos histórias de viradas improváveis. E assistimos, surpresos, à capacidade de se reinventar em meio a um quadro desfavorável.
Nas empresas, crises econômicas podem ser resultado de mudanças abruptas de mercado, transformações tecnológicas, concorrentes beneficiados por quaisquer circunstâncias ou, até mesmo, alterações de cenários de forma imprevisível.
Em todos os casos, o fundamental é a determinação de focar no essencial, mobilizar, aproximar-se do operacional e promover as mudanças que se impõem – por mais indesejadas que possam ser.
Não há opção. Líderes e equipes precisam manter foco e estratégia mesmo sob extrema pressão.
No final, não é sobre cair e pedir para sair. É muito mais sobre cair e ter a capacidade e determinação de levantar-se mais rápido.
Inovação e iniciativa para jogar diferente
Ao longo do tempo das Copas da Mundo, assistimos a seleções que marcaram épocas, pelo talento individual ou coletivo, tática, estilo ou maturidade de seus atletas e mentalidade dominante.
Isso envolveu novos esquemas de jogo, novos elementos físicos nos treinamentos, a ousadia da quebra de padrões e a intensidade do jogar e se desafiar.
No mundo empresarial, essas inovações e iniciativas passam por tecnologia, produtos, canais, marcas, segmentos de atuação, modelos de negócio e organização. E, no extremo, até mesmo transformações culturais e atitudinais demandadas.
Em última análise, podemos considerar que quem joga igual aos demais pode se sobressair pela execução. Mas os que verdadeiramente se diferenciam são os que inovam e tomam iniciativas e, ao mesmo tempo, primam pela execução.
Equilíbrio emocional sob qualquer pressão
Não dá para ignorar que grandes decisões acontecem sob máxima pressão.
No futebol, pode ser nos pênaltis decisivos – e assistimos a falhas e execução duvidosas – ou nos jogos finais, à medida que cresce a pressão.
Na empresa e nos negócios, isso envolve negociações críticas e decisões estratégicas onde o que está em jogo é o futuro da atividade, do legado e das equipes.
A competência, o equilíbrio e a execução sob pressão são dos principais diferenciais de equipes vencedoras.
O placar da vida empresarial
Definitivamente uma Copa do Mundo mostra que vitória não é obra do acaso. Exatamente como na vida empresarial.
É o resultado combinado, perseverante e focado envolvendo estratégia bem desenvolvida, atuação dedicada e consistente, liderança eficaz e inspiradora, execução disciplinada – por mais impopular que possa parecer – e, acima de tudo, no mundo atual, agilidade e capacidade de se ajustar e mudar. Quantas vezes for necessário.
E principalmente, na realidade presente, a capacidade de decidir sob intensa e constante pressão
Para fechar
A impressionante mobilização global precipitada pela Copa do Mundo estimula interpretações e correlações que vão do básico-básico ao mais estratégico e prende a atenção e liberta paixões na forma como aconteceu nestas semanas.
Existem empresas e líderes que se posicionam para estarem presentes e capturar o momento em benefício empresarial ou pessoal, como aconteceu nesta final. E existem outros que se organizam, planejam e se dedicam para ganhar. Sob quaisquer circunstâncias. Foi isso que vimos.
Vale reforçar e nos damos conta do quanto o conceito de experiência deve ser reinterpretado numa lógica de metaexperiência por conta da globalização dos comportamentos em escala exponenciada.
Para quem está presente nos jogos ou submetido à intensidade emocional desencadeada pelas transmissões, mobilização e envolvimento nos mais diversos países e regiões trazem imagens e associações que ficam gravadas e podem, e devem, ser reconfiguradas.
Do futebol “ópio do povo” às dimensões do business representado pelas competições, há muito para ser dito, inspirar e ser inspirado. E sempre é válido associar e resgatar conceitos e melhores práticas em tempos que vivemos essa exponencial transformação.
O acaso pode sempre estar presente. Mas a lógica é predominar e vencer o planejamento, a competência, a dedicação, a determinação, a organização, o preparo e a visão.
Fica a contribuição.
Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem e publisher da plataforma Mercado&Consumo.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem gerada por IA (ChatGPT)














