Às vésperas de mais uma SP-Arte, a maior feira de arte da América Latina, trago a questão da potência transformadora do mercado da arte: a figura do mecenas e o quiet luxury da arte. Outrora símbolo de poder e prestígio, o patrono ou mecenas da arte ressurge no século 21, impulsionado por uma nova consciência e um desejo de transcender o efêmero. No cenário do luxo contemporâneo, a relação entre marcas, artistas, pessoas e instituições culturais se reinventa e interage, buscando um propósito com experiências imersivas, sensoriais, fontes de inspiração e criatividade, dando espaço para o surgimento de vários tipos de mecenas.
Desde a Antiguidade, os incentivadores das artes desempenharam um papel crucial no desenvolvimento cultural, político e comercial, financiando artistas e obras que moldaram a história da humanidade e cidades inteiras. No Renascimento, famílias como os Médici transformaram Florença em um centro de excelência artística, impulsionando a criação de obras que ecoam até os dias atuais.
No mercado de luxo, essa tradição se manifesta na forma de colaborações entre marcas e artistas, na criação de fundações, institutos culturais e no apoio a projetos que celebram a criatividade e a inovação. No entanto, o novo luxo busca ir além do mero patrocínio, abraçando a arte como um pilar fundamental de sua identidade, criatividade e propósito.
A arte como ferramenta de imersão e conexão
A arte, com sua capacidade de evocar emoções e estimular a reflexão, torna-se uma ferramenta poderosa para as marcas de luxo se conectarem com seu público de forma autêntica e memorável.
Experiências imersivas, instalações interativas e eventos exclusivos transportam os consumidores para universos paralelos, onde a marca se torna protagonista de uma narrativa envolvente. Ao criar experiências que estimulam os sentidos e despertam emoções, as marcas de luxo constroem um relacionamento mais profundo, significativo e inesquecível com seus consumidores.
Algumas iniciativas que moldam o futuro do luxo
Fondation Louis Vuitton, em Paris: Concebida como um espaço para a arte e a cultura, a fundação, criada pela Louis Vuitton, abriga exposições de arte contemporânea, instalações interativas e performances musicais. O edifício em si, projetado pelo renomado arquiteto Frank Gehry, é uma obra de arte que se integra perfeitamente à paisagem parisiense. A Fondation Louis Vuitton não apenas celebra a arte, mas também reforça a imagem da marca como um símbolo de sofisticação e apoio à cultura.
Gucci Garden, em Florença: Localizada em um palácio histórico no coração de Florença, é um espaço que celebra a história e a estética da marca italiana. O local abriga um museu, uma livraria, um restaurante e uma loja conceito, onde os visitantes podem mergulhar no universo da Gucci. A marca também promove eventos e exposições de arte contemporânea, criando um diálogo entre o passado e o presente.
Instituto Inhotim, em Minas Gerais: Um dos maiores centros de arte ao ar livre da América Latina, o Inhotim abriga um acervo de obras de arte contemporânea em meio a um exuberante jardim botânico. O instituto, criado pelo empresário Bernardo Paz, é um exemplo de como o mecenato pode impulsionar o desenvolvimento cultural e turístico de uma região.
Bienal, em São Paulo: Um dos eventos de arte mais importantes do mundo, a Bienal de São Paulo recebe o apoio de diversas marcas e patronos, que reconhecem a importância da arte para a construção de uma sociedade mais criativa e inovadora.
Regeneração, essência e propósito: os pilares do novo mecenato
O novo mecenato transcende a mera filantropia, abraçando a regeneração social e ambiental como um princípio fundamental. Patronos, empresas e artistas se unem para criar projetos que promovem a sustentabilidade, a preservação do meio ambiente e o desenvolvimento social. Um dos projetos recentes mais famosos é o da Cidade Matarazzo, em São Paulo, que revitaliza toda uma construção histórica, combinando a natureza com gastronomia, hospitalidade, saúde, cultura, economia regenerativa e longevidade.
Novos visionários, como o pessoal do Instituto Alto, reinventam espaços urbanos e rurais ao conectar ecologia, legado e movimentos artísticos, transformam realidades sociais e trazem ao spot um novo tipo de mecenato. Algo mais no sentido do quiet luxury, pois não ostentam com bailes de gala, mas com trocas reais em espaços nos quais as pessoas se misturam, criando uma cena interessante, imaginando e vivendo futuros possíveis.
A busca pela essência, pelo propósito, por marcas e pessoas que se conectam com seus valores, que contam histórias autênticas e criam um mundo melhor, tecem laços duradouros com seus públicos, deixando um legado que vai além da mera transação comercial.
Caminhos futuros para o luxo: tecnologia, conexão e experiências imersivas
A tecnologia, quando utilizada de forma inteligente e criativa, pode enriquecer a experiência da arte e do luxo. Ferramentas como realidade virtual, realidade aumentada e Inteligência Artificial permitem a criação de experiências imersivas e personalizadas, que conectam o consumidor à marca, a outras realidades, a locais e à obra de arte de forma única.
A conexão humana, por sua vez, ganha destaque nesse novo cenário. Marcas e artistas que se conectam com seus públicos em um nível emocional, valorizam a autenticidade e a transparência, criam laços duradouros e significativos.
O futuro do mecenato reside na capacidade de criar experiências que transcendem o convencional, que estimulam os sentidos e despertam emoções, que conectam pessoas e ideias, e que celebram a criatividade e a inovação.
O novo mecenato de pessoas físicas ou marcas é um convite à reflexão, à ação e à transformação da sociedade e da natureza. Se essas questões não forem tratadas, não sobreviveremos em um futuro próximo nem teremos legados a deixar. Marcas, incentivadores e artistas que souberem abraçar esse novo paradigma estarão mais bem preparados para construir um futuro de sucesso e relevância, em que a arte e o luxo com propósito se unem em prol de um mundo mais belo, justo e sustentável.
Sandra Hayashida é fundadora da LPE Experiências.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem: Sandra Hayashida