O clima sempre fez parte da rotina do varejo, ainda que nem sempre tenha recebido a mesma atenção dedicada ao calendário promocional, aos preços ou às datas comemorativas.
Mas, diante de fenômenos cada vez mais relevantes para o comportamento de consumo, como o El Niño, essa variável começa a ganhar outro peso nas decisões comerciais.
E não estamos falando apenas sobre vender mais sorvete quando faz calor ou mais sopa quando esfria. Temperatura, chuva e eventos climáticos extremos interferem na forma como as pessoas se deslocam, nos horários em que compram, nos canais que escolhem, nas ocasiões de consumo e, consequentemente, nas categorias que ganham ou perdem relevância em determinados momentos.
O El Niño é um bom exemplo dessa complexidade. O fenômeno altera os padrões de temperatura e precipitação em diferentes partes do mundo. No Brasil, seus efeitos também variam de acordo com a região, podendo favorecer volumes maiores de chuva no Sul e períodos mais secos e quentes em áreas do Norte e Nordeste.
Para um país continental como o nosso, isso significa que o impacto sobre o varejo dificilmente será uniforme. Uma rede de supermercados com lojas em diferentes cidades ou estados pode encontrar, simultaneamente, consumidores vivendo contextos completamente distintos.
Enquanto uma região enfrenta dias consecutivos de chuva, outra pode registrar temperaturas muito acima da média. E cada um desses cenários cria comportamentos e necessidades diferentes.
É justamente aí que o clima deixa de ser apenas uma informação meteorológica e passa a ser uma variável de consumo. Um período de calor intenso pode aumentar a procura por bebidas geladas, sorvetes, água, frutas, protetor solar e itens associados ao consumo fora de casa.
Mas também pode mudar os horários de maior fluxo da loja, estimular compras mais rápidas e alterar as ocasiões de consumo.
A chuva produz outros movimentos. Dependendo da intensidade e da região, pode reduzir o fluxo físico, aumentar a relevância do delivery, favorecer compras de abastecimento e modificar o consumo de determinadas categorias.
Existe ainda um efeito menos visível para quem olha apenas para dentro da loja: o clima também acontece antes da gôndola. Eventos climáticos interferem na produção agrícola, na disponibilidade de matérias-primas, na logística e nos custos de diferentes cadeias.
Produtos frescos são especialmente sensíveis a essas oscilações, mas os reflexos podem chegar a muitas outras categorias. Em 2026, por exemplo, preocupações relacionadas ao El Niño já aparecem entre os fatores capazes de influenciar decisões da safra 2026/2027 e, consequentemente, preços e ofertas de alimentos.
Isso cria um desafio importante para o varejo: o mesmo fenômeno pode mexer, ao mesmo tempo, com a oferta e com a demanda.
O calendário comercial ganhou mais uma variável
O varejo é extremamente competente em trabalhar calendário. Natal, Páscoa, Dia das Mães, férias, volta às aulas, verão, inverno e dezenas de outras datas ajudam a definir campanhas, compras, estoques, exposição e comunicação.
O problema é que o calendário diz qual estação deveria estar acontecendo. O consumidor responde ao clima que realmente está vivendo. Um inverno com temperaturas elevadas pode frustrar uma estratégia construída meses antes para categorias tradicionalmente associadas ao frio. Da mesma forma, uma onda de calor fora de época pode criar uma oportunidade de venda que não estava prevista no planejamento original.
Isso exige mais flexibilidade. Não significa abandonar o planejamento antecipado, mas criar uma operação capaz de reagir rapidamente quando o contexto muda.
Rever exposição, comunicação, mídia, estoque, sortimento e até a intensidade promocional pode ser necessário quando o comportamento real começa a se distanciar daquele projetado.
E existe aqui uma oportunidade especialmente interessante para supermercados. Poucos setores conseguem perceber mudanças de comportamento com tanta velocidade quanto o varejo alimentar.
A frequência de compra é alta, milhares de SKUs respondem a diferentes ocasiões de consumo e o comportamento pode mudar de uma semana para outra ou mesmo de um dia para o outro.
O dado de venda, nesse sentido, funciona quase como um termômetro do consumidor.
Menos calendário fixo, mais leitura de contexto
Talvez uma das principais mudanças seja entender que determinadas estratégias comerciais precisarão ser cada vez menos estáticas. Se uma onda de calor inesperada chega a determinada região, não basta perceber alguns dias depois que determinadas categorias aceleraram.
O verdadeiro ganho está em conseguir identificar rapidamente essa mudança, adaptar a operação e transformar o contexto em oportunidade enquanto ele ainda está acontecendo.
Isso vale para abastecimento, mas também para merchandising e comunicação. Uma ponta de gôndola planejada meses antes pode perder relevância diante de uma mudança brusca de temperatura. Uma campanha digital pode ser adaptada geograficamente.
O aplicativo pode destacar produtos diferentes conforme o contexto local. O delivery pode ganhar mais comunicação em dias de chuva intensa. Combos e exposições podem acompanhar novas ocasiões de consumo.
O ponto de venda precisa, cada vez mais, conversar com o momento que o consumidor está vivendo. E talvez esse seja o principal aprendizado que fenômenos como o El Niño trazem para o varejo.
Não podemos controlar o clima. Também não conseguiremos prever perfeitamente todas as suas consequências. Mas podemos construir empresas mais preparadas para observar sinais, entender rapidamente como eles estão alterando o comportamento do consumidor e responder com velocidade.
Fernanda Dalben é diretora de Marketing da rede de Supermercados Dalben.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem: Envato














