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Home Artigos

Reputação na era da IA: quando a marca não controla mais a narrativa

Cecília Rapassi de Cecília Rapassi
6 de maio de 2026
no Artigos, Destaque do dia
Tempo de leitura: 3 minutos

Se hoje um consumidor pergunta a uma Inteligência Artificial se vale a pena comprar de determinada marca, a resposta dificilmente será construída a partir de campanhas ou discursos institucionais. O que aparece é uma síntese: avaliações, experiências reais, menções em notícias, comentários de clientes e também percepções vindas de dentro – de quem trabalha na empresa.

Durante décadas, construir marca esteve diretamente ligado à capacidade de organizar e sustentar um discurso, definir território, estabelecer um tom consistente e repetir mensagens até consolidar reconhecimento. Era um processo relativamente controlável, porque mesmo com ruídos, a lógica era mais clara.

Hoje esse modelo começa a perder força. A construção de reputação tem acontecido de forma mais difusa e menos controlável. Parte relevante do que define a imagem de uma marca já não nasce dos seus próprios canais, nem das estratégias clássicas de branding. Surge em camadas que se formam fora desse território e que, somadas, passam a ter mais peso do que a narrativa oficial.

Avaliações negativas recorrentes, por exemplo, têm capacidade de neutralizar rapidamente qualquer posicionamento aspiracional. Relatos de funcionários em plataformas públicas deixaram de ser episódios isolados e passaram a influenciar diretamente a percepção externa. Cultura interna, nesse contexto, não é mais um tema organizacional, mas um forte ativo reputacional.

Por outro lado, marcas que conseguem dar protagonismo real aos seus colaboradores, permitindo que participem da construção e comunicação de projetos, tendem a gerar uma conexão mais orgânica e genuína.

Talvez o ponto mais subestimado esteja no conteúdo que a marca não produz. Avaliações espontâneas, vídeos de “recebidos”, conteúdos de uso real, comentários nas redes sociais. Esse material, frequentemente tratado como periférico, hoje funciona como base para a leitura dos algoritmos. É esse volume de conteúdo orgânico que alimenta a forma como a marca é recomendada, ou ignorada.

Na prática, não é só sobre ter presença digital, mas sobre o que as pessoas estão dizendo quando a marca não está conduzindo a conversa. Na moda, isso inclui nuances importantes. É o conteúdo gerado pelo usuário que valida como o produto se comporta fora da campanha, se a qualidade sustenta o preço, se a experiência de compra corresponde à expectativa e se a marca se mantém coerente em diferentes contextos de uso e perfis de consumidor.

Ao mesmo tempo, há um outro fator pressionando essa dinâmica: o esgotamento do consumidor. A abundância de opções, estímulos e decisões diárias, começa a cobrar um preço. A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) já apontou a depressão como uma das principais questões de saúde global, um contexto que também reflete a sobrecarga cognitiva e emocional.

No consumo, isso se traduz em fadiga de decisão. Há menos disposição para pesquisar, comparar e testar. Ou seja, cresce a busca por referências confiáveis que simplifiquem a escolha. Nesse ponto, a reputação assume um novo papel. Deixa de ser apenas construção de imagem e passa a funcionar como atalho, uma forma de reduzir o esforço.

Marcas que mantêm coerência entre produto, discurso, cultura e experiência tendem a ser escolhidas não necessariamente por serem as melhores em tudo, mas por serem mais seguras.

A reflexão final talvez seja mais incômoda do que estratégica: sua marca está pronta para ouvir o que já estão dizendo sobre ela? Por quê? Porque reputação não se constrói sozinha – ela emerge do que é vivido, observado e compartilhado.

Cecília Rapassi é consultora de Negócios na área de Moda e Professora de pós-graduação em Fashion Business na Faap.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem gerada por IA.

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Cecília Rapassi

Cecília Rapassi

Cecilia Rapassi é consultora de Negócios na área de Moda e Professora de pós-graduação em Fashion Business na Faap. É especialista em gestão, expansão de marcas no canal B2B e desenvolvimento de estratégias comerciais. Fez parte do grupo de sócios da Gouvêa Ecosystem, onde fundou a Gouvêa Fashion Business, liderando projetos de consultoria estratégica, curadoria de eventos e iniciativas voltadas ao fortalecimento do varejo de moda nacional.

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