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Home Artigos

O verdadeiro impacto da guerra na moda não está no preço

Cecília Rapassi de Cecília Rapassi
1 de abril de 2026
no Artigos, Destaque do dia
Tempo de leitura: 4 minutos
O verdadeiro impacto da guerra na moda não está no preço

Choques geopolíticos já não explicam os preços. Porém, estão alterando algo mais sensível: a previsibilidade da cadeia. Durante anos, a consequência esperada de guerras e conflitos geopolíticos para o setor de moda era: maior pressão sobre commodities, que elevam custos e comprimem margens.

Essa lógica ainda existe, mas, na prática, já não explica o que está acontecendo.

Mesmo com o cenário de conflitos recentes, o preço do algodão não disparou, possivelmente pelo excesso estrutural de oferta. O movimento é sustentado por projeções do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), que vêm revisando a produção mundial para cima e mantendo o mercado abastecido mesmo em cenários de instabilidade.

Portanto, o ponto central deixou de ser o preço, e isso altera a natureza da discussão.

O deslocamento do risco: do custo para o fluxo

Se o impacto direto sobre matérias-primas foi amortecido, a logística passou a concentrar a maior parte da tensão.

Os eventos geopolíticos recentes vêm alterando rotas marítimas, elevando custos de frete e aumentando a exposição a riscos operacionais. As interrupções logísticas e prazos mais longos de entregas são atualmente os principais efeitos indiretos dos conflitos nas cadeias globais.

Na prática, a discussão deixa de ser quanto custa produzir. Passa a ser quando o produto chega e com qual nível de previsibilidade.

Esse deslocamento já aparece nas decisões das grandes empresas.

A Inditex, dona da Zara, construiu um modelo baseado em proximidade produtiva, com parte relevante da produção concentrada na Europa e no Norte da África. Mais do que eficiência, essa escolha amplia a capacidade de resposta e reduz a exposição a rotas longas e instáveis.

A cadeia não está colapsando, porém está menos confiável.

No Brasil, essa vulnerabilidade ganha outra escala. Dados da Logcomex mostram que cerca de 70% dos insumos têxteis importados vêm da China, com forte concentração de chegada em poucos portos brasileiros. A dependência não é apenas produtiva, é também operacional.

Brasil: entre protagonismo agrícola e dependência industrial

Nesse cenário, o Brasil ocupa uma posição relevante, mas contraditória.

O País responde por cerca de um terço das exportações globais de algodão, segundo a Abrapa. Em um ambiente de instabilidade, isso reforça seu papel como fornecedor mundial consistente.

Ao mesmo tempo, dados da Abit mostram um déficit expressivo na balança do setor, que em 2025 foi de US$5,86 bilhões. A dinâmica é conhecida: exportamos matéria-prima em escala e importamos produtos acabados em escala ainda maior.

Esse desequilíbrio estrutural ganha peso em momentos de tensão global. Não porque a guerra cria a fragilidade, mas porque o nosso maior risco está na nossa própria dependência.

Uma alteração gradual no mix de fibras

Existe também um efeito indireto que começa a ganhar relevância.

Conflitos em regiões estratégicas para energia impactam a indústria petroquímica, base das fibras sintéticas. Consequentemente, as oscilações no petróleo e seus derivados são transmitidas para cadeias industriais dependentes desses insumos, com destaque especial para o poliéster.

Ao longo do tempo, isso tende a alterar o equilíbrio entre fibras sintéticas e naturais.

Marcas que já vinham buscando esse equilíbrio na utilização de fibras podem se destacar nesse momento. A Adidas, por exemplo, já opera com a maior parte do poliéster proveniente de fontes recicladas, reduzindo a dependência de matéria-prima virgem de origem petroquímica.

Embora essa transição esteja associada à agenda ambiental, ela também responde a uma lógica de risco e custo no médio prazo.

Nesse contexto, o algodão ganha competitividade relativa. E o Brasil, além da escala, já avançou em rastreabilidade e certificação, atributos cada vez mais considerados por compradores globais.

Menos sobre preço, mais sobre confiabilidade

O setor de moda está acostumado a reagir a variações de custo. Mas o que está em curso exige outro tipo de analise.

Os dados apontam para uma dinâmica mais estrutural:

  • menor sensibilidade imediata a choques de preço
  • maior exposição a interrupções logísticas
  • manutenção de oferta global elevada
  • redução da previsibilidade operacional

A Inditex responde com proximidade e velocidade. A Adidas atua sobre a base material da cadeia. São caminhos diferentes para um mesmo problema.

No caso brasileiro, essa dinâmica expõe um ponto sensível: a dependência externa em um ambiente cada vez menos previsível.

A leitura de que conflitos encarecem a moda já não é suficiente.

O que emerge é um cenário em que a produção global segue funcionando, mas com menor confiabilidade e maior complexidade de gestão.

Para um setor que depende de tempo, giro e coordenação, confiabilidade deixa de ser consequência operacional, passa a ser estratégia.

E, em muitos casos, este pode ser o fator que separa eficiência de vulnerabilidade.

Cecília Rapassi é consultora de Negócios na área de Moda e Professora de pós-graduação em Fashion Business na Faap.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.

Imagens: Envato

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Cecília Rapassi

Cecília Rapassi

Cecilia Rapassi é consultora de Negócios na área de Moda e Professora de pós-graduação em Fashion Business na Faap. É especialista em gestão, expansão de marcas no canal B2B e desenvolvimento de estratégias comerciais. Fez parte do grupo de sócios da Gouvêa Ecosystem, onde fundou a Gouvêa Fashion Business, liderando projetos de consultoria estratégica, curadoria de eventos e iniciativas voltadas ao fortalecimento do varejo de moda nacional.

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