A NRF 2026 acontece em um momento particularmente sensível para o varejo global. Sob o tema The Next Now, a conferência parte de um norte: as decisões que sustentam a rentabilidade deixaram de ser estruturais e passaram a ser operacionais, tomadas no curto prazo.
Para o varejo de moda brasileiro, a agenda funciona como um mapa de prioridades. As palestras não prometem cases disruptivos, mas devem apresentar dados e modelos de execução que ajudam a responder perguntas práticas como: onde alocar capital, como reduzir ineficiências e quais ajustes têm impacto real na margem e no giro. Alguns destaques da programação:
Diagnóstico do varejo e foco em retorno
Na sessão de abertura, Retail’s Defining Moment, no dia 11, Andrew Jennings, CEO da NRF, acompanhado de executivos da Nordstrom e da Amazon, deve apresentar um diagnóstico do ambiente atual do varejo, marcado por custos pressionados, mudanças no comportamento do consumidor e maior complexidade operacional.
No recorte de moda, a expectativa é ouvir como grandes redes vêm reorganizando sortimentos e priorizando categorias com maior retorno, com exemplos de redução de SKUs, foco em produtividade por metro quadrado e ajustes de portfólio orientados por desempenho real de vendas, um tema especialmente sensível para mercados com capital mais restrito, como o brasileiro.
Essa discussão encontra eco em sessões voltadas à leitura de dados de consumo em tempo real, como From Runway to Checkout: Apparel, Footwear & Accessories Trends Shaping 2026, no dia 13. Aqui, o foco não está em tendências estéticas, mas em como sinais de compra, comportamento e elasticidade de preço estão redefinindo decisões de sortimento, timing de coleção e profundidade de estoque.
Operação, estoque e uso prático da IA
A pressão por eficiência aparece de forma clara em Store Operations in the AI Era, no dia 12, com Macy’s e Target detalhando como utilizam modelos preditivos para antecipar rupturas, redistribuir estoques e otimizar o papel da loja como ativo logístico.
Para o varejo de moda no Brasil, esse tema é especialmente relevante por seu impacto direto em giro de estoque e disponibilidade de produto, dois pontos historicamente críticos no setor. Mais do que tecnologia, a discussão tende a mostrar como decisões operacionais baseadas em dados reduzem perdas silenciosas de margem.
Essa lógica se conecta diretamente à palestra Pricing Precision: Data-Driven Markups, também no dia 12, quando a Levi’s deve apresentar sua abordagem de precificação ajustada por localização, clima e sazonalidade, com foco em reduzir remarcações amplas e preservar margem. O interesse especial nessa apresentação está em entender como coordenar essas estratégias sem gerar conflitos com o canal B2B.
Ciclos de coleção mais curtos e controlados
A busca por menor risco de compra aparece em Collection Cycles at Warp Speed, no dia 11, com Nike e Shein compartilhando como operam ciclos de teste mais rápidos, validando SKUs em pequena escala antes de expandir a produção.
A expectativa é entender como esses modelos ajudam a reduzir o erro de previsão, melhorar a assertividade e evitar o excesso de estoque, um aprendizado particularmente relevante para marcas de médio porte que precisam equilibrar criatividade com disciplina financeira.
Comércio unificado na prática
O tema de comércio unificado ganha um viés mais pragmático em Unified Commerce: No More Silos, no dia 12, com Walmart e Gap mostrando como operam estoques integrados entre canais e oferecem ao cliente uma visão consistente de disponibilidade.
Para o varejo brasileiro, essa discussão dialoga diretamente com desafios como estoque fragmentado, inconsistência de informações entre canais e perda de vendas por indisponibilidade percebida, problemas que muitas vezes não estão ligados à falta de demanda, mas a falhas de integração operacional.
Valor além do produto: serviços, experiência e personalização
Outro eixo relevante da agenda é a ampliação do papel do varejo para além da venda de produto. Em The Future of Retail Through Services, no dia 13, a discussão gira em torno de estratégias orientadas a serviços, desde a personalização contínua até modelos que ampliam o lifetime value do cliente.
Para moda, essa abordagem reforça uma mudança importante: o diferencial competitivo passa menos pela coleção em si e mais pela capacidade de construir recorrência, relacionamento e valor ao longo do tempo.
Essa lógica se conecta com o painel AI-Driven Personalization at Scale, no dia 12, em que Salesforce e Anthropic devem apresentar casos de personalização orientada pelo contexto da jornada do consumidor, e não apenas por seu histórico de compra. O interesse, aqui, está em entender como essas abordagens podem aumentar ticket médio e a coerência entre canais físicos e digitais, sem comprometer a experiência.
Pessoas e liderança em ambientes de alta complexidade
Por fim, a agenda também reconhece que nenhuma dessas transformações acontece sem ajustes na forma de liderar. Em Talent and Leadership in Permacrisis, o painel com CEOs da Gap e da Ulta Beauty deve abordar como estruturar times mais integrados, combinando competências de produto, operação e experiência do cliente.
A expectativa é discutir modelos de liderança que favoreçam testes controlados, decisões mais rápidas e aprendizado contínuo, sem perder disciplina operacional, um equilíbrio cada vez mais necessário em ambientes de alta volatilidade.
O que esperar da NRF 2026
A NRF 2026 deve reforçar uma mudança importante de abordagem: menos foco em tendências amplas e mais atenção a modelos de execução replicáveis.
Para executivos e empresários de moda, o valor do evento estará em identificar quais dessas práticas fazem sentido para sua realidade e traduzi-las em projetos-piloto no curto prazo.
A provocação do tema principal desse ano faz refletir que as empresas de sucesso serão as que, simultaneamente, estão agindo no presente, mas preparadas para o futuro. As escolhas que precisam ser feitas agora para sustentar resultados em 2026 e 2027.
Cecília Rapassi é consultora de Negócios na área de Moda e Professora de pós-graduação em Fashion Business na Faap.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagens: Mercado&Consumo
