A Copa de 2026 é um dos eventos esportivos mais tecnológicos de todos os tempos, que conta com várias inovações, começando pela grama dos estádios, que foi projetada e amplamente testada pela Universidade Estadual de Michigan, em colaboração com a Fifa e a Universidade do Tennessee, chegando às plataformas de suporte à decisão, que analisam 2.000 métricas por partida e disponibilizam relatórios que facilitam a simulação de mudanças táticas e a análise dos jogadores em tempo real, de forma personalizada e instantânea.
As tecnologias são as mais diversas, tais como: redes 5G privadas, sensores e acelerômetros embarcados na bola; câmeras de alta definição; gêmeos digitais; gramados monitorados cientificamente, com protótipo de pés impressos em manufatura aditiva para simular os movimentos dos jogadores; avatares 3D dos atletas modelados a partir de suas dimensões físicas reais; câmeras corporais; câmeras de alta velocidade; sistemas magnéticos; RFID – Identificação por Radiofrequência; VAR (Árbitro Assistente de Vídeo); algoritmos de visão computacional; e, claro, muita Inteligência Artificial (IA), incluindo a generativa.
A Lenovo é a parceira oficial de tecnologia da Copa do Mundo de 2026 e tem usado a IA de diversas formas, em condições reais e extremas, em um ambiente altamente complexo. Em janeiro, na CES 2026, a empresa apresentou os sistemas de IA que estão sendo utilizados na Copa, como o Football AI Pro; os avatares 3D de jogadores; o impedimento semiautomatizado; o Centro de Comando Inteligente, que integra todos os estádios; gêmeos digitais das arenas; infraestrutura resiliente; árbitro de vídeo inteligente; entre outros agentes de IA que analisam milhões de pontos de dados em tempo real para suportar a tomada de decisão em momentos críticos.
A Trionda, bola oficial do evento, da Adidas, possui dispositivo instalado em sua estrutura interna, denominado IMU – Unidade de Medida Inercial de alta precisão, que detecta o milissegundo exato de qualquer toque, uma vez que combina um giroscópio e um acelerômetro, além de um dispositivo de RFID, que conversa com as antenas distribuídas ao redor do campo e nas arquibancadas, integrando-se ao sistema de câmeras e redes 5G para rastrear a posição da bola e sincronizar com o sistema de arbitragem.
O dispositivo necessita ser recarregado por possuir bateria e pode coletar informações até 500 vezes por segundo, detectando o exato milissegundo em que a bola sofre uma vibração mecânica (impacto), que, às vezes, pode ser imperceptível na câmera ou em desvios de impedimento.
As informações são cruzadas, combinando os dados da bola com a visão computacional para analisar o posicionamento físico dos jogadores, aplicando a IA para analisar o conjunto da situação e suportar a tomada de decisão dos árbitros.
Para se ter uma ideia, até as tecnologias desenvolvidas no espaço pela Nasa estão sendo aplicadas nesta Copa. Foram realizados estudos na estação espacial para ajudar a compreender os efeitos da presença desses sensores no comportamento aerodinâmico da bola, uma vez que eles alteram o peso dentro dela.
Engenheiros do centro de pesquisas da Nasa, na Califórnia, chegaram a testar a Brazuca, bola oficial da Copa do Mundo de 2014, em túneis de vento para analisar fenômenos como o chamado “knuckleball“, que ocorre quando uma bola é chutada com força total e sem nenhuma rotação, fazendo com que o ar crie turbulências na sua superfície, influenciadas pelo número de gomos e pela textura, e gere desvios imprevisíveis em zigue-zague.
Do ponto de vista técnico, é fascinante. Mas, como especialista em tecnologia e inovação, não consigo ignorar a dúvida: será que toda essa sofisticação está madura o suficiente para confiarmos cegamente?
Mas será que a arte do futebol, aquela que, durante boa parte da história, foi vivida no calor do momento, cheia de imperfeições, que faziam parte da essência do jogo, alimentavam rivalidades, criavam histórias e davam ao futebol sua identidade emocional, não era mais humana?
Estamos diante do futebol mais preciso da história. Mas será que é isso que queremos? Não estamos robotizando demais? Só vale gritar gol após o algoritmo decidir e, até lá, ficamos paralisados, segurando o grito, esperando sensores, algoritmos, dezenas de câmeras e a IA decidirem se podemos ou não comemorar, depois que o árbitro digital decidir o que e quando faremos!
O futebol nunca foi apenas sobre decisões perfeitas. Foi sobre injustiças que viraram lendas, sobre árbitros que erravam e torcedores que reclamavam, sobre lances inexplicáveis que, justamente por isso, se tornavam inesquecíveis.
Ao buscar a perfeição absoluta, corremos o risco de perder o que sempre fez das Copas um espetáculo humano: a emoção espontânea, o drama imprevisível e a beleza da imperfeição, assim como nós, humanos.
Regiane Relva Romano é diretora da VIP-Systems.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem: Envato














