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Home Artigos

Corrida dos bilhões: o que o foodservice pode aprender com as maratonas do Rio e Nova York

Eduardo Bueno de Eduardo Bueno
10 de junho de 2026
no Artigos, Destaque do dia
Tempo de leitura: 5 minutos
maratona foodservice

No último final de semana, aconteceu o maior festival de corridas de rua do Brasil, a Maratona do Rio. Como atleta e maratonista por três vezes, naturalmente prestei atenção ao evento, mas com o olhar focado nas oportunidades que um evento desse porte tem a oferecer para o foodservice — e o que podemos aprender com casos emblemáticos como o de Nova York.

A Prefeitura do Rio de Janeiro estima que o evento tenha gerado um impacto superior a R$ 800 milhões na economia da cidade, acima dos R$ 587 milhões registrados em 2025. Foram 70 mil atletas inscritos, distribuídos ao longo dos quatro dias de provas, aproveitando o feriado de Corpus Christi, um crescimento de 55% em relação aos 45 mil em 2024. Dos participantes, 75% vieram de fora do Rio de Janeiro. Os impactos sobre o setor hoteleiro e de alimentação fora do lar são mais do que óbvios, e merecem uma análise especial.

A lógica é simples: como muitos atletas são de fora do Estado do Rio, incluindo mais de 5 mil estrangeiros, há forte demanda por hospedagem, com ocupação hoteleira acima de 80%, e um ritual de alimentação complexo. Nas 48h que antecedem a prova, ocorre uma “corrida paralela” em busca de carboidrato, criando espaço para cantinas italianas, restaurantes de massas e pizzarias capturarem esse fluxo atípico.  Já no pós-prova, chega o momento da celebração: bares, botecos e quiosques de Copacabana, Ipanema e da Marina da Glória, onde ficou a arena do evento, tornam-se pontos de confraternização, com o aumento de consumo de bebidas, espetinhos e petiscos na tarde de domingo. Sem mencionar outros setores do comércio e dos serviços que ganham com esse movimento.

Para além dos próprios atletas inscritos, o evento traz uma movimentação diferente para a cidade. Famílias e amigos saem às ruas para torcer e apoiar os atletas em diferentes pontos do percurso, tornando-se potenciais consumidores do que restaurantes, bares e ambulantes têm a oferecer nesses dias. No último domingo de maio, corri a Maratona Internacional de Porto Alegre e vi de perto como esse tipo de evento movimenta uma cidade, seus moradores, aqueles que não correm até mesmo os corredores. No meu caso, todas as refeições foram feitas em restaurantes, com o hotel servindo o café às 3h30 da manhã. A celebração pós-prova passou por diferentes pontos turísticos e seus restaurantes.

Há uma implicação importante também para a lógica do abastecimento. Cafés da manhã de hotéis, padarias e restaurantes precisam adaptar horários e cardápio para atender atletas e organizadores, movimentando fornecedores de panificação, massas, frutas e bebidas funcionais.

Do ponto de vista mais abrangente de negócios, o evento representou uma oportunidade riquíssima para marcas, capazes de impactar diferentes audiências, com estratégias distintas. Como destacou a página Sports Lovers em suas redes sociais, o patrocinador dos 5 km comprou acesso ao corredor casual e aspiracional, enquanto o patrocinador dos maratona de 42 km comprou acesso a um atleta de alta renda. Segundo a página, as inscrições para os 21 km ficaram 32% mais caras em dois anos, ultrapassando os R$ 300, enquanto as dos 42 km subiram 36% no mesmo período. Ainda assim, a absorveu cada aumento. Esse atleta também é consumidor, e seu apetite por consumo ficou claro ao longo do evento.

Cruzando dados tributários e censitários de turismo municipal, é possível estimar um impacto relevante e direto de R$ 60 milhões a 80 milhões para o foodservice carioca.  São números respeitáveis, que mostram o potencial desse mercado para além do esporte em si. E, para entender como esse valor pode aumentar, observemos a icônica, desejada e disputadíssima Maratona de Nova York.

De acordo com o estudo de impacto econômico mais recente da New York Road Runners (NYRR), os dados impressionam: apenas o fim de semana da maratona injeta US$ 692 milhões (cerca de R$ 3,8 bilhões) na economia de Nova York.

Desse montante, estima-se que turistas e atletas gastem US$ 109 milhões (mais de R$ 600 milhões) especificamente com alimentação e bebidas. O setor de hotelaria e hospedagem capturou outros US$ 178 milhões. E há outro aspecto de Nova York que traz importantes aprendizados para o Brasil: o chamado “efeito bairro”.

Diferentemente de outros eventos concentrados em arenas, a Maratona de Nova York passa pelos 5 distritos da cidade: Staten Island, Brooklyn, Queens, Bronx e Manhattan. Isso significa que cafés no Brooklyn, restaurantes familiares no Bronx e lanchonetes de Midtown recebem uma enxurrada de clientes periféricos que normalmente não iriam até lá. É a pulverização do gasto turístico, com resultados positivos e impactantes para o foodservice.

No xadrez do foodservice moderno, tratar as grandes maratonas urbanas como “apenas mais um fim de semana movimentado” é um erro estratégico que custa caro. Os números do Rio de Janeiro e de Nova York deixam claro que o turismo esportivo não entrega apenas atletas famintos na véspera da prova, mas também injeta na economia um capital altamente qualificado, com ticket médio elevado e disposição imediata ao consumo voltado à celebração. Enquanto as marcas tradicionais esperam passivamente o cliente bater à porta, as lideranças inovadoras já entenderam que a verdadeira corrida acontece nos bastidores.

A pergunta que fica para os executivos do setor é se a sua operação está desenhada para liderar o pelotão de frente e transformar o suor das ruas em margem líquida, não apenas no Rio de Janeiro e em São Paulo, mas em todo o Brasil.

Eduardo Bueno é gerente de Business Development na Gouvêa Inteligência.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.

Imagem: Envato

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Eduardo Bueno

Eduardo Bueno

Economista formado pela USP e pós-graduado em Gestão de Projetos pelo Insper, atualmente é coordenador de projetos na Mosaiclab e responsável pelo projeto CREST no Brasil. Tem experiência no mercado financeiro, consultoria macroeconômica, Analytics, Compras, além de implementação de projetos de SAP. Atua com inteligência de mercado desde 2015 e, desde 2017, com o setor de Foodservice, com passagem em um dos maiores operadores do setor no país.

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