O foodservice brasileiro terminou 2025 mostrando desafios já conhecidos e diferentes janelas de oportunidade. O setor atingiu o patamar recorde de R$ 223,5 bilhões gastos pelos consumidores em diferentes canais, ocasiões e categorias, com crescimento discreto de 1% em relação a 2024. Com queda de 5% no último ano, o tráfego somou 10,8 bilhões de pedidos e segue como principal desafio. Já o ticket médio alcançou um novo patamar, chegando a R$ 20,7, valor 6% superior ao registrado em 2024.
Com os novos hábitos e comportamentos do consumidor, após a pandemia, o tráfego mostra moderação em sua performance. A isso se somam fatores que ainda impactam o poder de compra da população.
Apesar da inflação mais controlada, taxa de desocupação em patamares baixos e rendimento médio real em níveis recordes, o alto endividamento e a inadimplência em patamares recordes ajudam a explicar a moderação do consumo, mas não são os únicos fatores. O avanço de gastos com apostas, o uso de medicamentos à base de GLP-1 e a maior presença das marmitas na rotina das pessoas também contribuem para a redução do consumo em foodservice. É um cenário complexo, influenciado por diferentes frentes.
De acordo com os dados da pesquisa Crest, conduzida pela Gouvêa Inteligência desde 2015, a frequência mensal de consumo reduziu entre 2024 e 2025, indicando que os consumidores passaram a comer fora de casa com menos regularidade. No mesmo período, canais como padarias, lanchonetes e ambulantes registraram quedas significativas no fluxo, o que indica uma redução nas compras por impulso e nas paradas do dia a dia no foodservice brasileiro.
Ao mesmo tempo, o fluxo de visitas aumentou em restaurantes sofisticados, casual dining e hotéis; ou seja, os consumidores têm buscado cada vez mais o consumo de experiência, que é usualmente mais caro e de menor frequência.
Em 2025, durante a participação na NRA Show, evento global realizado anualmente em Chicago, foi possível observar o avanço do consumo premium e como marcas passaram a se destacar ao investir em produtos de maior qualidade.
No geral, nenhuma ocasião de consumo cresceu em 2025, com destaque para as quedas de tráfego nas refeições matinais e horário de almoço, períodos fortemente ligados à rotina de trabalho e que perderam força ao longo do ano.
Por outro lado, refeições vespertinas e noturnas mostraram resiliência, indicando que o consumidor está desenvolvendo um comportamento de consumo diferente, renunciando ao consumo frequente do dia a dia, economizando no café da manhã, levando marmita no almoço, mas ainda recorrendo às pausas da tarde e a um jantar mais prático. É um cenário factível, carregado de nuances e múltiplas variações.
Novos formatos de consumo
Durante nossa viagem a Chicago, visitamos o The Fresh Market, que tem operado sob o formato de grocerant. Além de supermercado, tem uma forte operação de foodservice, que responde por 25% das transações da loja visitada.
O operador consegue capturar e oferecer múltiplas alternativas de consumo para as pessoas, que podem visitar o mercado para abastecerem suas residências, e adquirir uma refeição pronta e fresca para consumo imediato em suas casas. Ou seja, uma necessidade (compras para a casa) levou a uma oportunidade (comprar uma refeição prática), entregando conveniência.
Preços competitivos e promoções
Ainda que tenha havido forte crescimento dos canais relacionados à experiência, super e hipermercados tiveram um desempenho de tráfego robusta em 2025. É um canal de ticket mais baixo (portanto, competitivo), com múltiplas ofertas de refeições prontas e práticas em suas gôndolas, cafés e restaurantes, atendendo aos diferentes momentos do dia a dia do consumidor. Aproveitando o exemplo do The Fresh Market, os preços das refeições prontas eram bastante atrativos, com porções de pratos elaborados que serviam facilmente duas pessoas por até US$ 30.
Ao leitor atento, provoco a seguinte reflexão: um estabelecimento serviu para três exemplos distintos, mas complementares. Como sua operação busca atender esse novo consumidor?
O padrão de consumo no foodservice brasileiro mudou: está menos frequente, menos impulsivo e mais disposto a pagar um pouco mais caro em troca de experiência e qualidade, sem renunciar a preços baixos e conveniência quando possível.
Se antes o jogo da eficiência era visto principalmente entre os operadores e na indústria, nos anos recentes, ele atingiu o bolso do consumidor, que quer comprar, mas reflete mais antes de consumir. O desafio é entender como otimizar e adaptar sua operação, suas ofertas e seu portfólio de soluções a esse novo comportamento.
Eduardo Bueno é gerente de Business Development na Gouvêa Inteligência.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
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