A economia brasileira tem mostrado sinais contraditórios, com impacto relevante sobre o consumo. Enquanto o País apresenta as menores taxas de desemprego da história, com o rendimento médio real atingindo patamares recordes, o endividamento e a inadimplência seguem corroendo o poder de compra da população. E, se de um lado a inflação da alimentação dentro do lar mostra maior controle, segundo o IPCA, a alimentação fora do lar permanece com inflação mais pressionada, com impactos diretos sobre o consumo do foodservice.
Em meio à moderação do consumo, o setor atingiu um gasto de R$ 55,4 bilhões no terceiro trimestre de 2025, um crescimento de 2% sobre o mesmo período de 2024, influenciado principalmente pela alta de 7% do ticket médio, enquanto o tráfego caiu 5%. A geração de visitas e aumento no número de pedidos segue como um desafio persistente para o setor.
Embora tenha sido um patamar recorde de gasto para um terceiro trimestre, inúmeros pontos de atenção surgem quando se faz uma análise detalhada.
Analisando os segmentos de consumo, nota-se um padrão: estabelecimentos sofisticados, de acesso restrito e consumo não cotidiano mostram forte crescimento de tráfego, com destaque para o high check (ou fine dining) e hotéis – movimento que já fora observado nos trimestres anteriores de 2025. Do outro lado, segmentos de baixo ticket também apresentam forte performance, destacando-se lojas de conveniência e o consumo de foodservice em super e hipermercados.
Ou seja, é notório o padrão que tem se firmado no setor: crescem o consumo sofisticado e pontual, e o consumo mais acessível, favorecido pelo contexto de preços ascendentes e pelo forte endividamento da população.
Entre esses dois grupos de segmentos, existe um amplo universo, que inclui redes de fast-food, lanchonetes, padarias, ambulantes, quilo, buffet e casual dining. Todos esses segmentos perderam tráfego em relação a 2024.
Embora alguns tenham tickets mais acessíveis e outros lancem mão de promoções agressivas, seus patamares de preço estão em uma faixa intermediária em comparação aos segmentos sofisticados e aos mais baratos. Ou seja, quando se analisa a performance dos diferentes estabelecimentos, sobretudo daqueles poucos que apresentam crescimento no tráfego e no fluxo de pedidos, o consumidor está realmente optando pelo consumo de menor preço possível ou gastando com experiência, produtos premium e serviços diferenciados (quando tem renda disponível para tanto).
Pensando nos canais de consumo, após forte performance no trimestre passado, o delivery teve queda em relação a 2024. Essa não é uma tendência para o canal, que já mostra um aquecimento relevante com a entrada de novos operadores, além do fortalecimento de promoções agressivas para geração de tráfego. O consumo no local de compra (denominado on-premise) ficou estável, mostrando que ainda existe um desafio para aumentar o consumo no foodservice, apesar da volta generalizada da população ao trabalho presencial.
Em termos de ocasiões, as faixas matinais e o almoço são os principais pontos de atenção (fortemente correlacionados com os diferentes canais que perderam visitas). Por que é importante destacar esses movimentos? Buscando economizar dinheiro, o consumidor tem deixado de tomar café da manhã fora de casa e, para o horário do almoço, tem optado por alternativas mais econômicas, como o consumo de marmitas, sobretudo aquelas preparadas em casa.
Mais uma vez, o foodservice cresce em gasto exclusivamente devido ao aumento do ticket médio. O tráfego segue como o principal e mais preocupante desafio do setor, afetando os mais variados segmentos de consumo. Com forte restrição na renda disponível, o consumidor redefine seu comportamento, priorizando preços menores e alternativas para o consumo do dia a dia.
Eduardo Bueno é gerente de Business Development na Gouvêa Inteligência.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem: Envato














