Ainda persiste um paradoxo importante no Brasil: apesar de o desemprego estar nas mínimas históricas, o rendimento médio real em suas máximas e a inflação sob controle, o consumo no geral não tem mostrado reação positiva ao cenário macroeconômico, incluindo o foodservice. Entre muitos fatores, a inadimplência tem sido uma barreira cada vez maior ao consumo das famílias – atingindo 82,8 milhões de brasileiros em março de 2026, segundo a Serasa Experian.
Em meio a esse contexto complexo, de acordo com os dados do Crest (Consumer Reports on Eating Share Trends), o gasto no foodservice brasileiro alcançou R$ 50,2 bilhões no primeiro trimestre de 2026, estagnado em relação ao mesmo período de 2025. Essa ausência de crescimento refletiu a forte queda de 5% no tráfego, que chegou ao patamar de 2,3 bilhões de visitas no trimestre.
Enquanto o setor está inerte, sob pressão, e com desafios permanentes em relação ao tráfego, o ticket médio segue sua trajetória de ascensão, mantendo-se em um dos seus patamares históricos mais elevados. Em abril, mencionei em artigo na Mercado&Consumo como os preços exercem uma pressão maior sobre o consumo nos anos recentes, e seu aumento acrescenta mais desafios à decisão de compra, além de evidenciar a alta no ticket médio.
Diferentes recortes do foodservice brasileiro explicam o recuo nos gastos. A queda do consumo é registrada em super e hipermercados, padarias, bares, restaurantes de selfservice e lojas de conveniência – segmentos de diferentes perfis e posicionamentos de preços. Entre as diferentes ocasiões de consumo do dia, observa-se recuo importante em refeição matinal e no lanche da tarde. Porém, destaque positivo para o almoço e refeições noturnas, que subiram.
O poder do delivery resulta também de investimentos
Em relação aos canais, consumo no local de compra (salão, balcão, praça de alimentação): houve alta no tráfego, e o destaque positivo fica para o Delivery, que tem mostrado performance consistentemente positiva – dadas as transformações no canal, e os investimentos bilionários anunciados pelos principais agregadores do País. Em minha análise, podemos esperar ainda mais força no canal, que volta a ampliar seu peso dentro do mix de ofertas no foodservice.
Em termos sociodemográficos, atenção especial para a queda de consumo das classes B, C, D, e E, que reúnem a maior parte da população brasileira. Considero importante que seja estabelecida uma estratégia de preços diversificada e pautada em promoções que mesclem descontos agressivos, com preços competitivos, de modo a atrair consumidores com diferentes disponibilidades de renda para gastar.
O sinal fraco de melhoria precisa ser destacado
Apesar dos desafios mencionados, há dois sinais fracos que apontam para uma potencial melhoria de cenário no foodservice brasileiro. São eles: a recuperação lenta da penetração e a frequência de consumo, que, ao menos, parou de cair, segundo o Crest. Em termos de penetração (ou seja, consumo real em relação ao consumo potencial), a penetração tem mostrado lenta, mas consistente desde o início de 2025, atingindo seu melhor patamar dos últimos 21 meses.
Esse movimento, no entanto, ainda não é suficiente para determinar, isoladamente, a recuperação do tráfego e a retomada do crescimento do setor. A frequência de consumo mensal também exerce papel fundamental. No Crest, os consumidores são classificados em: consumidores de baixa, média e alta frequência – isto é, aqueles que compram de uma a duas vezes ao mês, de três a quatro, e cinco vezes ou mais, respectivamente.
Nos últimos anos, observamos que a frequência estava reduzindo, com maior peso dos consumidores de baixa frequência, e menor peso das frequências média e alta. Ou seja, havia consumidores consumindo cada vez menos mês a mês – com impactos significativos no tráfego do setor – que depende da quantidade de pessoas (penetração) e da sua frequência de consumo mensal. Isto é, para o tráfego crescer, é necessário que haja mais pessoas consumindo, e que seu consumo individual seja mais frequente mês a mês.
O peso da frequência e os sinais de reação do mercado
No primeiro trimestre de 2026, porém, houve um importante alento: o peso da baixa frequência ficou estável, e consumidores de média frequência ganharam espaço. Consumidores de alta frequência ainda mostraram queda – sinalizando que o aumento do consumo está ocorrendo de forma muito lenta e conservadora. Apesar da queda de tráfego, em termos de frequência, observamos um sinal fraco apontando para potencial melhoria ao longo de 2026 – ainda que possa significar quedas de tráfego menos intensas (que as observadas nos últimos trimestres) antes de significar crescimento efetivo.
Com isso, é possível afirmar que o foodservice ainda vive um contexto complexo de redução de consumo, mas há crescimento (ainda que insuficiente) em alguns canais e ocasiões, e sinais fracos que sinalizam uma potencial recuperação quando analisamos a lenta alta da penetração e da frequência, que parou de cair.
O desafio do setor, mais do que nunca, é manter preços e ofertas competitivos para atrair mais consumidores, e possibilitar que eles aumentem seu consumo diário e mensal – esse é o caminho para uma recuperação efetiva do tráfego.
Nota: Nos próximos dias, estarei em Chicago fazendo visitas técnicas a diferentes operações e participando, mais uma vez, do NRA Show, e escreverei diariamente artigos para a Mercado&Consumo com as principais novidades e aprendizados, e como traduzi-los para a realidade brasileira.
Eduardo Bueno é gerente de Business Development na Gouvêa Inteligência.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
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