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Para valorizar relações humanas no varejo num cenário de crescente desumanização

Momentum 990

Marcos Gouvêa de Souza de Marcos Gouvêa de Souza
14 de novembro de 2022
no Artigos, Destaque do dia
Tempo de leitura: 4 minutos
Para valorizar relações humanas no varejo num cenário de crescente desumanização

O quadro está sendo desenhado, mas já é possível perceber os contornos da nova realidade emergente: o aumento da competição, com o consumidor cada vez mais buscando alternativas de valor que pressupõem menos custos com gente; uma crescente carência de pessoas interessadas nas atividades antes tradicionais no varejo, em especial nas lojas; e um claro movimento de automação, mecanização e digitalização de tudo que for possível. Tudo isso afeta diretamente a estrutura e a lógica do emprego.

Em outra dimensão, o omniconsumidor – cidadão que, cada vez mais, interage por redes sociais e outros instrumentos digitais, gerando menos contatos humanos. Um processo quase irreversível de desumanização das relações pessoais em busca da redução de custos, melhoria de processos e atendimento das demandas por hiperconveniência, com o e-commerce crescendo sua participação entre os canais de venda no varejo.

E o lado mais próximo do humano que cresce são a criação e a ampliação dos ambientes de live marketing, que colocam alguma emoção no processo de escolha e compra de produtos e serviços, bots, chats e influenciadores digitais virtuais, com ativações ou com respostas mecânicas na solução de dúvidas e problemas reais.

E o metaverso, o VR e AR Commerce tendem a acelerar tudo o que já se configura.

Nos hotéis, nos embarques dos aeroportos e nas próprias lojas, quanto menos gente e interação, melhor. Por contingência, em busca da eficiência máxima, reduzindo custos para se manter competitivo.

E o mesmo omniconsumidor-cidadão vai perdendo conexões e relações humanas nas atividades profissionais pelas questões que envolvem o crescimento do irreversível home office, por mais que as organizações prefiram um equilíbrio distinto ao que se está desenhando. E organizações como Twitter tentam à força reverter o cenário do irreversível home office.

As interações humanas, olho no olho, toques e proximidade, ficam cada vez mais para o entretenimento e lazer, em especial para os segmentos mais jovens.

Talvez, o último espaço um pouco mais resguardado para a humanização no varejo seja o dos conceitos ligados ao luxo, em exato contraponto ao setor que mais cresce no varejo do mundo, que é o de valor, onde tudo gravita em torno de eficiência e produtividade ao menor custo para oferecer o menor preço.

No mundo do foodservice, exemplo desse processo, nos formatos mais básicos totens, robots, dispensers e outras alternativas tentam racionalizar e facilitar processos, reduzindo a presença humana. Nos restaurantes mais sofisticados, cresce de forma marcante a gorjeta obrigatória ou as recomendações de “tips”, que chegam a mais de 20% em alguns países, sinalizando o valor do serviço competente prestado.

Mas, de forma mais abrangente, não se pode negar que a palavra de ordem é eficiência máxima ao menor custo para se manter competitivo e, no extremo, sobreviver e crescer.

Se os conceitos acima parecem mais dramáticos do vemos no presente e futuro imediato, talvez seja porque esteja faltando observação e informação.

Mas como tudo que ameaça, também rende oportunidades. Trabalhar e desenvolver o lado humano nas relações profissionais e comerciais pode ser um elemento diferenciador no cenário reconfigurado, mesclando design, tecnologia, digital, arte, criatividade, experiência e gente, para criar o inusitado, diferenciado, único e customizado ou individualizado.

A proposição de novas alternativas para os negócios envolvendo produtos e serviços no varejo está vivendo uma nova e desafiadora perspectiva buscando a combinação ideal de elementos que, ao mesmo tempo que racionalizam e diferenciam, permitam vivenciar o novo, o inusitado, o meu e o único em busca de uma relação mas próxima e marcante. E que, reconhecidamente, despertem o sentimento que possa valer a pena pagar um pouco mais por tudo isso.

Esse conjunto de fatores, talvez, configure o maior desafio no cenário tendente à desumanização em busca da racionalização para esse ominiconsumidor cada vez mais digital e individual.

E estimulam a busca de elementos que façam emergir comportamentos, atitudes e reações que despertem sentimentos, sorrisos e emoções que possam fazer a diferença.

Como trazer o toque de um Cirque du Soleil para o ambiente de negócios para que emocionem e se diferenciem as relações?

Para além da necessária e fundamental busca da otimização operacional para viabilizar a continuidade de negócios, torna-se mais relevante buscar caminhos para voltar a encantar consumidores num ambiente de desencantamento, com as relações humanas que envolve muitos outros aspectos precipitados pelos cenários mais competitivos e desafiadores e que se agravam com questões envolvendo energia, combustíveis, inflação e restrições diversas de um mundo com muitos conflitos sociais e políticos.

As organizações que pesquisam, desenvolvem, testam e aplicam inovações em seus diversos canais, formatos, lojas, negócios e marcas, sem abrir mão da eficiência e produtividade, serão aquelas que poderão encontrar caminhos próprios e potencializadores de valorização e trazer respostas únicas para essa quase irreversível desumanização que envolve a sociedade e o varejo.

Vale a pena refletir. E agir.

Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem e publisher da plataforma Mercado&Consumo.
Imagem: Shutterstock

 

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Marcos Gouvêa de Souza

Marcos Gouvêa de Souza

Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem, o mais relevante ecossistema de consultorias, soluções e serviços que atua em todas as vertentes dos setores de Varejo, Consumo e Serviços. É membro do Conselho do IDV, IFB e Ebeltoft Group, presidente do LIDE Comércio, conselheiro do grupo BFFC/Bob's, publisher da plataforma MERCADO&CONSUMO e autor/coautor de mais de dez livros relacionados aos temas de sua especialidade.

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