O varejo é apaixonante. Vivemos cada dia com intensidade. Costumo dizer que ser varejista é como pilotar um helicóptero antes da existência dos drones. Do alto, conseguimos enxergar o todo; no minuto seguinte, estamos no chão de loja sentindo o frescor da alface.
Essa metáfora, embora nasça do varejo alimentar, vale para qualquer segmento. Basta trocar a alface pelo produto que cada um vende. O essencial é estar próximo do cliente e sentir o pulso da operação, hoje também ampliado pelo desafio do comércio eletrônico.
Fui “picado” pelo bicho do varejo há mais de 40 anos. Comecei minha carreira na área financeira, sempre como um generalista curioso e apaixonado por inovação. Quando tive a oportunidade de ser eleito o Executivo Financeiro do Ano de 1991, chamado “O Equilibrista”, recebi vários convites para ir para empresas de telecomunicações que estavam sendo privatizadas no Brasil, mas tomei uma decisão definitiva: queria ser varejista.
Essa trajetória me trouxe muitos aprendizados e, sobretudo, uma enorme dose de humildade diante dos inúmeros “nãos” que a vida executiva nos apresenta.
Em 2004, quando assumi como CEO da Sendas, no Rio de Janeiro, escrevi um pensamento que se tornou uma frase importante, pois o do técnico Bernardinho, ao fazer uma palestra para nós e autografar 140 bolas de vôlei com essa frase, perguntou se poderia usá-la? Autorizei, e ele a incluiu no livro Transformando suor em ouro. Assim, acabei indo parar no hall da fama: “Superação é ter a humildade de aprender com o passado, ser inconformado com o presente e desafiar o futuro.”
Hoje, depois de tantas experiências, talvez eu a escrevesse de outra forma, em um tom mais suave: “Superação é aprender com o passado, agradecer e viver o presente e continuar buscando novos desafios no futuro.” Atualmente, dependendo das circunstâncias, recorro a uma ou outra versão.
Olhar para trás gera orgulho da jornada e do legado construído. Mas olhar para frente também nos lembra que o passado, por si só, não garante o futuro. É preciso continuar aprendendo — lifelong learning — e entender que a evolução só acontece com humildade.
Hoje, uma frase que acredito muito, cunhada por Alvin Toffler, resume bem esse pensamento: “Os analfabetos do século 21 não serão aqueles que não sabem ler e escrever, mas sim aqueles que não conseguem aprender, desaprender e reaprender.”
Essa reflexão me levou a uma convicção profunda, de que gerar riqueza e prosperidade verdadeira exige liderança consciente. Uma empresa só evolui quando seus líderes evoluem primeiro.
O varejo brasileiro é formado por milhares de empreendedores que começaram seus negócios praticamente do zero. Muitos abriram suas empresas com o objetivo de gerar renda e sustentar suas famílias — e não há nada de errado nisso. No entanto, as organizações que prosperaram ao longo do tempo encontraram algo além da sobrevivência. Elas descobriram um propósito maior.
Nem sempre esse propósito é facilmente verbalizado. O lado do cérebro que nos impulsiona a acordar todos os dias motivados não é necessariamente o mesmo que organiza ideias de forma clara no papel. Ainda assim, ele está presente.
Por isso, convido os líderes varejistas a fazerem um exercício simples e poderoso: reflitir sobre a origem de suas empresas. Perguntem-se por que elas existem? Qual dor da sociedade ajudam a resolver? Qual visão estratégica guia suas decisões? E, principalmente, se essa jornada está gerando impacto positivo para as pessoas e as comunidades ao redor.
Se a resposta for sim, escreva seu propósito. Compartilhe com seus colaboradores e peça um feedback sincero sobre se ele é, de fato, vivido na prática. Depois, espalhe essa ideia para todos os seus stakeholders — clientes, fornecedores e comunidade. Faça, inclusive, com que seus concorrentes saibam por que você faz o que faz.
Mark Twain escreveu que “os dois dias mais importantes da nossa vida são o que nascemos e o em que descobrimos o porquê”. A primeira parte é simples; a segunda, mais complexa. Na verdade, descobrimos nosso propósito mais de uma vez ao longo da vida.
Podem ser vários “segundos dias”. São esses momentos em que compreendemos o verdadeiro porquê da nossa existência, entramos em sintonia com o que fazemos e nos permitimos entregar mais porque sabemos que há uma razão para existir.
A descoberta do propósito é uma jornada interior, como disse Nietzsche: “Até que você torne o inconsciente consciente, ele direcionará sua vida e você o chamará de destino”.
No mundo dos negócios, Peter Drucker afirmou que “o único propósito válido de uma empresa é entregar valor ao cliente”. Tomo a liberdade de ampliar essa visão: o verdadeiro propósito de um negócio é gerar valor para todos os seus stakeholders. Só assim uma empresa prospera de forma duradoura.
Isso exige um tipo diferente de liderança. O pesquisador Richard Barrett descreve sete níveis de evolução da consciência do líder. Nos três primeiros estágios predominam o ego, o controle e o interesse próprio. No quarto ocorre o despertar: o líder percebe que precisa envolver pessoas para alcançar resultados.

A verdadeira transformação começa a partir do quarto estágio, da “consciência interna”, quando o líder passa a atuar orientado por propósito. Nos níveis seguintes, surgem a colaboração, a cocriatividade e, por fim, a liderança servidora — aquela que entende que o sucesso individual só faz sentido quando gera benefícios para todos.
Somente líderes nesses níveis mais elevados conseguem transformar empresas em organizações mais humanas, éticas e sustentáveis.
O varejo, talvez mais do que qualquer outro setor, convive diariamente com pessoas e vidas reais. Somos reconhecidos não apenas pelo que vendemos, mas pelo que servimos. Temos a responsabilidade de ser exemplo de relações humanas no mundo dos negócios.
Empreender nunca é fácil e, no varejo, essa complexidade se multiplica pela quantidade de detalhes e pela diversidade de pessoas com quem interagimos todos os dias. Ainda assim, quando encontramos nosso propósito, esse caminho se torna profundamente realizador.
Ser um varejista consciente significa cuidar das pessoas que fazem a empresa existir. Cuidar dos colaboradores para que cuidem dos clientes. Cuidar dos fornecedores para ofereçam os melhores produtos. E cuidar da comunidade que acolhe o negócio.
Quando isso acontece, algo poderoso se revela: é possível gerar riqueza, maximizar o lucro e, ao mesmo tempo, criar prosperidade para todos. Esse é, talvez, o verdadeiro legado de um líder varejista.
Hugo Bethlem é presidente do Capitalismo Consciente Brasil.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
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