Quantas vendas perdemos por não ouvir metade da população?

Participei recentemente de um evento com donas de supermercados. Muitas relataram que, quando há encontros em associações do setor, os convites são endereçados aos maridos. E se perguntavam: por que eles e não elas, se são elas que também estão no comando da operação diariamente? Pasmem: ainda há quem imagine que sejam apenas “donas de casa”, relegando-as ao título de “primeira-dama”, responsáveis por captar verbas para ações sociais. Essa visão míope não apenas desvaloriza o papel feminino, cmoo també, atrapalha a estratégia de toda a empresa.

Os números confirmam o tamanho do descompasso. De acordo com a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm), mulheres respondem por cerca de 60% das compras online no Brasil. No entanto, sua presença nas salas de decisão é mínima: apenas 17,4% das presidências são ocupadas por mulheres, e 17,1% das cadeiras em conselhos são femininas, segundo o estudo Panorama Mulheres 2025, da Insper Talenses Group. Esse desalinhamento entre quem compra e quem decide não é apenas uma falha ética; é uma falha estratégica que custa inovação, relevância e receita. Quando metade da população não está representada nas decisões sobre sortimento, comunicação e experiência de compra, o varejo perde oportunidades concretas de conversão e fidelização.

Há uma explicação comportamental para esse efeito: as pessoas tendem a projetar suas próprias referências e preferências nas decisões que tomam. Times homogêneos, que se parecem entre si e com seus líderes, acabam selecionando produtos, campanhas e experiências que refletem seu próprio mundo. Se a liderança é majoritariamente masculina, as escolhas estratégicas privilegiam percepções e linguagens que não necessariamente ressoam com a consumidora média. Não se trata de má vontade, mas de viés cognitivo; e é um viés que pode ser corrigido com governança, metas e processos.

O impacto financeiro dessa lacuna é mensurável: perda de penetração em categorias sensíveis ao gênero, menor taxa de conversão em campanhas dirigidas a mulheres, queda na retenção de clientes e desperdício em estoques de produtos que não encontram público. Além disso, a falta de diversidade reduz a capacidade de inovação: ideias nascidas em ambientes homogêneos tendem a ser menos disruptivas e menos empáticas com segmentos diversos. Em um mercado cada vez mais competitivo e orientado por dados, a representatividade deixa de ser apenas uma bandeira social para se tornar um diferencial de mercado.

Algumas empresas já mostram que corrigir esse desalinhamento traz resultados. Ao revisar o sortimento com painéis de consumidoras reais, ajustar linguagem e imagens e envolver mulheres nas decisões de produto e UX, o mercado responde rapidamente, com aumento da conversão, melhoria no NPS entre consumidoras e maior eficiência em lançamentos. Essas mudanças não exigem revoluções instantâneas, mas processos consistentes: metas públicas de liderança, auditorias regulares de sortimento e comunicação, programas de desenvolvimento e mentoria que criem um pipeline para áreas que levam à presidência e métricas de desempenho que vinculem diversidade a resultados comerciais.

Corrigir o viés masculino também exige olhar para a interseccionalidade. Mulheres negras, indígenas, periféricas, trans e com deficiência enfrentam barreiras adicionais e, quando não estão representadas, o varejo perde segmentos inteiros de mercado. Políticas superficiais que apenas “cumpram cotas”, sem investimento em desenvolvimento e governança, têm pouco impacto. O caminho eficaz é estrutural: orçamento para programas de desenvolvimento, metas com prazos e transparência, e responsabilização da alta direção por resultados mensuráveis.

No plano tático, pequenas mudanças podem gerar grandes efeitos. Revisar descrições de produto para incluir medidas e usos reais, testar imagens com diferentes perfis de consumidoras, simplificar políticas de troca e devolução e mapear jornadas de compra específicas para mulheres em diferentes fases da vida são ações que aumentam a conversão sem exigir grandes investimentos. No plano estratégico, vincular bônus executivos a metas de diversidade e a indicadores de performance entre consumidoras transforma a diversidade em prioridade de negócio, não em iniciativa de compliance.

O varejo que não corrige seu viés masculino está abrindo mão de clientes, inovação e lucro. Ouvir metade da população não é um gesto de benevolência: é uma estratégia de mercado. A pergunta que fica para executivos e conselhos é direta e urgente: quanto faturamento estamos dispostos a perder por manter estruturas que não refletem quem compra? A resposta exige mais do que boas intenções: exige metas, processos e coragem para redesenhar decisões a partir da diversidade. Quem agir primeiro não só corrige uma injustiça histórica, mas também ganha vantagem competitiva em um mercado que já mudou e que continuará a mudar com a voz das mulheres no centro.

Sandra Takata é presidente do Instituto Mulheres do Varejo.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem: Envato

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