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Home Artigos

Retrato do Brasil atual: Uma no cravo, outra na ferradura

Momentum nº 958

Marcos Gouvêa de Souza de Marcos Gouvêa de Souza
28 de março de 2022
no Artigos, Destaque do dia
Tempo de leitura: 3 minutos

A expressão popular é usada em algumas regiões do Brasil e exprime a situação quando o inábil ferreiro – que ferra cavalos – acerta uma vez no cravo para fixar a ferradura no casco, e outra na ferradura, desperdiçando esforço.

E o tema diz respeito a dois movimentos que acontecem neste momento no Brasil, quase concomitantes, um acertando o cravo e o outro a ferradura.

No cravo a nova regulamentação do trabalho híbrido, orquestrada pelo Ministério do Trabalho e Previdência, com a iniciativa de modernizar e atualizar as relações de trabalho com o avanço irreversível das novas modalidades de contratação de serviços profissionais.

Na ferradura a forma desassombrada como mais uma vez se discute inadmissíveis privilégios para algumas categorias de funcionalismo público com a expansão dos quinquênios, sexta-partes e licenças-prêmios, benefícios que privilegiam com adicionais de salários, gratificações e períodos de afastamento remunerado algumas poucas categorias de servidores públicos.

Essas propostas afrontam a realidade vivida por mais de 12 milhões de desempregados e a esmagadora maioria da população que não consegue ter renda corrigida pela crescente inflação e vive um processo de empobrecimento real.

Enquanto parte da casta dos funcionários públicos soma mais e mais benefícios e vantagens.

Assim acontece no Brasil atual, com o acerto na modernização das relações do trabalho e com o enorme equívoco que se desenha, beneficiando ainda mais parte do funcionalismo e dos empregados do setor público.

São diferentes Brasis no mesmo território nos planos econômicos, culturais, sociais, de acesso à informação, no digital, nos usos e costumes regionais, e muitos outros.

Mas existem dois Brasis particularmente quase antagônicos. O Brasil público e o Brasil privado.

No Brasil privado receitas, renda e sustento devem ser buscados pelo esforço empresarial, profissional ou através de micro empreendedorismo individual, sujeito a taxações e impostos que não têm base de cálculo corrigida e permitem crescente aumento da base tributável.

E esse e outros artifícios permitem que cresça a arrecadação tributária, alcançando recordes históricos, mesmo com o país com desempenho medíocre da economia e os mais os milhões de desempregados ou sub-empregados.

O artifício é claro: taxa-se cada vez mais dos que pagam que cada vez são cada vez menos pois muitos não suportam a carga e migram para a informalidade.

Como resultado o país é cada vez menos competitivo globalmente, sua economia cada vez menos favorável à expansão e crescimento e perde posições seguidas nas escalas econômicas e sociais.

E apesar dos muitos recursos e condições para ser mais competitivo, economicamente mais desenvolvido e socialmente mais justo.

Mas existe um outro Brasil apaniguado e beneficiado pelas regras que são propostas e criadas por quem delas se beneficiará: o Brasil do setor público.

Como toda generalização na sua essência é muito perigosa, é preciso segmentar o setor público para não ser injusto com milhões de funcionários públicos que recebem baixos salários e com parcos benefícios em todo o país.

Juntos com esses milhões com baixos salários nas esferas federal, estadual e municipal, e nas instâncias do Executivo, Judiciário e Legislativo, existem as castas mais favorecidas que legislam em seu próprio interesse incorporando benefícios e vantagens que agridem a realidade de um país empobrecido pela sucessão de governos limitados e pobres em sua capacidade de potencializar os recursos disponíveis e criar acesso e bem-estar para todos.

Quando não flagrantemente corruptos como no passado recente e que teima em querer voltar.

O Brasil privado formal precisa se posicionar de forma decisiva e corajosa pois caso contrário continuará a pagar a conta de uma festa para o qual não foi e não será convidado e apenas acessível para poucos que querem cada vez mais.

E o momento é particularmente decisivo sob pena de continuarmos a ter mais do mesmo, já demonstrado ao que nos levou, se considerarmos o pífio desempenho econômico e social dos últimos anos, independente do drama gerado pela pandemia.

Ou o Brasil privado formal se organiza e faz valer sua força política e econômica ou aceita, submisso, o desígnio que está contratado para as próximas eleições.

Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem e publisher da plataforma Mercado&Consumo.
Imagem: Shutterstock

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Marcos Gouvêa de Souza

Marcos Gouvêa de Souza

Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem, o mais relevante ecossistema de consultorias, soluções e serviços que atua em todas as vertentes dos setores de Varejo, Consumo e Serviços. É membro do Conselho do IDV, IFB e Ebeltoft Group, presidente do LIDE Comércio, conselheiro do grupo BFFC/Bob's, publisher da plataforma MERCADO&CONSUMO e autor/coautor de mais de dez livros relacionados aos temas de sua especialidade.

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