Será um equívoco pensar cultura, gestão, estrutura e governança nas organizações pós-IA como uma evolução dos modelos atuais. É necessário repensar todos esses aspectos numa perspectiva radicalmente distinta.
Assim como é outro equívoco imaginar que possamos adiantar uma sociedade e mercado pós IA, pois vivemos ainda o ciclo inicial desse processo em dinâmica, abrangente e profunda transformação.
É possível provocar reflexões que ajudem a repensar modelos, atitudes, perfis, motivações e estímulos para o cenário em que viveremos e sobre o qual temos hoje apenas uma pálida visão.
A organização pós-IA será de outra natureza, pois nela o trabalhar, decidir, organizar, governar, liderar e alcançar resultados estarão marcados pela comoditização da inteligência redesenhando objetivos, fluxos, processos, competências e principalmente cultura. É muito diferente de uma organização digital com a qual já criamos certa intimidade, pois nesse novo cenário inteligência se torna parte da infraestrutura.
Do organograma para o algaritmograma
Do modelo tradicional de organização das pessoas e funções nos organogramas, estamos evoluindo para uma combinação envolvendo humanos, modelos de IA, agentes autônomos e outros elementos em desenvolvimento que vão gerar o algoritmograma.
Nessa lógica, as funções deixam de ser áreas fixas e times devem se organizar por frentes, não por áreas, além do que a escala de tudo passa a ser digital. E o que envolve backoffice ou infraestrutura evolui para ter autonomia operacional com a organização necessariamente migrando de estruturas rígidas, reativas e com alguma capacidade de adaptação para um sistema flexível, dinâmico e proativo.
Em princípio, modelos que incorporem a organização por Ecossistemas de Negócios tendem a evoluir mais rapidamente na absorção e integração da IA e na necessária transformação das estruturas pelos princípios inerentes a esse modelo de organização em termos de flexibilidade, adaptabilidade, estruturas de decisão e interação com o ambiente externo.
O equívoco em considerar IA apenas como ferramenta
A absoluta maioria das empresas ainda está nas fases iniciais do seu processo evolutivo, testando ou incorporando copilotos, estimulando adesão pelas equipes, automatizando tarefas e desenvolvendo labs para acelerar inovação.
E existe natural diferença entre empresas nativas digitais e seus modelos de organização e atuação em relação a todas as demais em processo de reposicionamento gradual integrando IA e com maior foco dedicado aos processos, sistemas e modelos de atuação.
Mas em todos os casos não discutindo e repensando temas envolvendo aspectos mais abrangentes como cultura, estrutura, gestão, governança e outros e mais.
De alguma forma é como mecanizar integralmente uma fazenda e continuar operando como se fosse dependente ainda de mão de obra de funcionários braçais.
A evolução da cultura do saber para o pensar e provocar
Vale reforçar o que se consagrou que o antigo valor de ter respostas que foi marcante por muito tempo se transformou em saber formular as perguntas que a IA ajude a responder.
E ajudar não quer dizer aceitar o que vier, mas manter a atitude de validar, confrontar antes de adotar.
Nessa perspectiva, a informação e o conhecimento do passado deixam de ser limitantes e, mais importante, curiosidade, criatividade e principalmente iniciativa se tornam ainda mais importantes na cultura das organizações estimulando experimentação, inquietude e inovação.
Para além da intuição isolada
Os modelos de gestão atuais sempre buscaram a melhor combinação de alternativas envolvendo dados limitados, experiência acumulada e intuição executiva.
No cenário emergente, a IA produz uma nova realidade em que simulações quase que instantâneas podem substituir discussões, visões e opiniões que podem e devem ser direcionadas para avaliar o produto dessas simulações.
A liderança evolui em seu papel fundamental de decidir para ser quem contextualiza, orquestra e valida.
E produtividade se transforma da mensuração por pessoa para avançar para medir a combinação de humanos, agentes e pela IA de forma mais ampla.
O risco dos modelos de governança do passado
A crescente incorporação de IA sem uma profunda revisão da governança potencializa riscos pelas questões que envolve a gestão de dados em termos de qualidade, acesso e propriedade.
E implica numa nova governança algorítmica envolvendo definições de modelos a serem usados, seu treinamento, monitoramento, validação e auditoria.
Além de redefinições envolvendo responsabilidade pelas decisões assistidas por IA, mitigação de riscos e garantia de alinhamento com valores éticos e morais da organização.
Sem essas cautelas, as consequências reputacionais, jurídicas e estratégicas podem ser magnificadas.
Pensar de forma integrada para acelerar a transformação
Pressionadas pela pressão da irreversível transformação, organizações tendem a partir para incorporar IA aos processos atuais como forma de busca de eficiência e produtividade. Faz sentido. Mas apenas parcial.
Os benefícios desse movimento podem ser positivos, mas podem ser também ilusórios, inibindo a pesquisa, a ousadia e a ação mais abrangente e ambiciosa do repensar o todo para reconfigurar o negócio para os novos tempos, desafios e oportunidades.
Nesse processo as organizações devem considerar que precisam ser pensadas para operar com inteligência distribuída, baseadas em alternativas que integram modelos e humanos por meio de plataformas adaptativas e se reconfigurem para atuar com novos requisitos de liderança.
É preciso reconhecer que somos todos aprendizes nessa nova jornada, mas será um equívoco subestimar o impacto que esta emergente realidade trará nos planos das estruturas, gestão, organização e governança das organizações.
Dada a dimensão, a extensão e a profundidade das mudanças, torna-se importante pensar e agir de forma integrada, tentando ampliar e compartilhar aprendizados derivados das implantações.
Os tempos em que o segredo era a alma do negócio ficaram para trás.
Nos momentos atuais e futuros, a busca da integração no aprendizado pode ser um diferencial relevante, em especial para as empresas não digitais, no processo de reaprender tudo que envolve suas atividades sob a transformação regida pela IA.
Tanto quanto é importante acelerar, de forma radical, todo o processo, pois o mercado não trará tempo ao tempo.
Vale refletir. E agir.
Nota: No Digitail 2026, que aconteceu na semana passada, foram apresentados 33 cases dentro da temática de tecnologia e aplicação de IA nos negócios. Promovido pela Gouvêa Experience na ESPM, em São Paulo, o evento chegou à sua quarta edição reunindo executivos do varejo, da indústria e do setor de tecnologia. iFood, Panvel, Magalu, Renner, Natura, Keeta, Chilli Beans, Leory Merlin, Unilever, Boticário, Netshoes, Oracle, Awin e outros grandes players levaram suas contribuições. Acompanhe a cobertura de Digitail em Mercado&Consumo.
Nesta 3ª feira (23), haverá a 5ª edição do Connection Foodservice Day, evento que traz para o mercado brasileiro os principais insights da NRA Show, um dos principais eventos de foodservice no mundo, que é realizado em Chicago. O evento é da Gouvêa Ecosystem, assinado pela vertical Gouvêa Experience e também pela Mercado&Consumo. O Connection 2026 será no auditório do iFood com participação de líderes dos setores de alimentação, varejo, consumo e serviços. E tem apoio direto do Instituto Foodservice Brasil (IFB). Para mais informações sobre o programa, acesse: https://mkt.mercadoeconsumo.com.br/connection-foodservice-day/.
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