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Varejo do Brasil é destaque global em serviços financeiros

Momentum nº 1.137

Marcos Gouvêa de Souza de Marcos Gouvêa de Souza
22 de setembro de 2025
no Artigos, Destaque do dia
Tempo de leitura: 6 minutos
Vendas no varejo fecham 2025 com alta de 1,6%

Um alinhamento temporal reforça que varejo no Brasil é benchmark global em serviços financeiros. A maturidade do uso do Pix por aqui como meio de pagamento é aval dessa evolução.

No 10º Latam Retail Show, na semana passada, discutimos a evolução dos serviços no varejo e o caráter relevante que eles têm para os resultados do ecossistema Magalu pelo testemunhal de seu CEO, Frederico Trajano. Quase que concomitantemente, em painel global São Paulo – Paris, integrando o Latam Retail Show à NRF Europa, Fabio Faccio, CEO do ecossistema Renner, também mencionou a importância estratégica da operação Realize, de serviços financeiros, no conjunto dos negócios do grupo.

Em outra discussão, Carrefour e Riachuelo igualmente valorizaram o desempenho dos serviços financeiros nos resultados dessas organizações e, em seguida, Assaí mencionou a perspectiva de também atuar proximamente nessa frente.

De forma geral, nessas organizações que já operam de maneira estruturada em serviços financeiros, a representatividade dos mesmos oscila entre 32% e 55% do total, e com perspectiva real de aumento diante da diversificação e da ampliação dos mesmos. E também beneficiada por novas perspectivas envolvendo os pagamentos e operações digitais.

Ao mesmo tempo, na NRF Europa em Paris, na França, era mencionada a recente evolução e adoção por alguns varejistas europeus de novas modalidades de pagamentos, na linha do “compre agora e pague depois”, na tentativa de alguns de diferenciar a atuação e melhorar vendas por lá.

Nos Estados Unidos, a startup One, controlada pelo Walmart, passou a oferecer a modalidade que genericamente foi batizada de BNPL (buy now, pay later) para produtos de alto valor unitário. Ao mesmo tempo em que Alibaba se aliou à Slope para oferecer soluções nessa modalidade usando Inteligência Artificial (IA).

Poucas semanas atrás, a The Economist fez uma provocação sobre a perspectiva de lanches no McDonald’s serem comprados usando a mesma modalidade. Varejistas como Ulta Beauty, Urban Outfitters, Sephora, Macy’s e Lululemon passaram também a oferecer essa alternativa para aumentar as vendas.

Na prática, esses varejistas globais “descobriram” o que se praticava há muito tempo no Brasil: o parcelamento em “x” vezes sem acréscimo como indutor de vendas. Mas ainda vão ter que evoluir para aprender como fazer isso reduzindo de forma legal os impostos sobre o todo da venda e fazendo incidir apenas sobre o “principal” e separando a operação financeira.

Por contingência, varejo foi precursor no Brasil

A distribuição e a desigualdade da renda no Brasil obrigaram o varejo a encontrar alternativas para poder vender mais ao longo do tempo. Nos bens duráveis, perto de 80% das vendas eram pelo crédito – que, por muito tempo, foi oferecido como extensão da operação comercial dos principais varejistas. E que, em muitos casos, faziam mais resultado com o carnê e a operação financeira e de crédito do que com o negócio comercial puro.

Isso trouxe uma competência na análise, gestão, concessão de crédito e cobrança que fez com que muitas empresas criassem suas próprias financeiras, distribuidoras de títulos e valores e até mesmo bancos, como foi o caso do Banco Fenícia, Carrefour, Ibi, Midway e outros mais. Em outros casos, criaram operações integrando varejistas com bancos, como Pão de Açúcar, Magalu e Pernambucanas.

Nesse período, o crédito estava a serviço da atividade comercial do varejo, todo o conhecimento adquirido ajudava a alavancar os negócios e avançava-se um pouco mais para outros produtos financeiros, como seguro e extensão de garantia. Em seguida, surgiram cartões de crédito próprios, associados ou não a programas de fidelidade.

Foi só a partir da crise global de 2008 que os bancos no Brasil passaram a dedicar mais atenção para os serviços financeiros no varejo e ampliaram sua atuação direta junto aos consumidores com suas lojas dedicadas ou atuando de forma integrada com o varejo.

Criatividade sempre foi marca da evolução

Importante destacar que, como a necessidade é a mãe de quase todas as virtudes, a hiperinflação antecedente a esse período havia feito crescer de forma marcante a criatividade e a engenhosidade dos operadores varejistas para conseguirem sobreviver em cenários em que, por momentos, eram obrigados a conviver com números de inflação sem paralelo no mundo.

Com isso, o próprio varejo evoluiu com o lançamento de alternativas que permitiam aumentar a venda num ambiente cada vez mais competitivo e criou-se o parcelamento “sem acréscimo”. Era difícil  explicar para os operadores globais que vinham para o Brasil, acostumados com a modalidade básica do uso dos cartões de crédito das bandeiras globais nas vendas das lojas.

Nesse período também se ampliou a importância das operações financeiras do varejo de forma geral e gradativamente elas se expandiram para todas as categorias de produtos, canais de vendas e modelos de negócio. Bancos de varejo, como Carrefour e Midway, da Riachuelo, tornaram-se estrategicamente ainda mais importantes. E esse know-how foi exportado para outros mercados, normalmente em desenvolvimento, em operações globais de grupos como C&A, Walmart e Carrefour.

Todo esse processo vem sofrendo crescimento exponencial por causa do surgimento de inúmeras startups e fintechs, que trazem alternativas e soluções que melhoram desempenho e resultados dessas frentes de negócios.

Importante destacar que essas alternativas foram e são quase que marca registrada também no varejo latino-americano, com forte presença no Chile, Colômbia, Peru e México, entre outros.

Foco na razão impõe a condição

O período dos últimos 20 anos fez crescer o comportamento mais racional e pragmático do consumidor global e no Brasil. De um lado, isso fez aumentar a participação do varejo de valor e a importância fundamental dos serviços financeiros para os grupos varejistas nacionais e o que se propuseram a operar por aqui.

O cenário atual na Europa, Ásia e América do Norte, com o varejo tornando-se mais próximo de alternativas próprias ou consorciadas com serviços financeiros, é um ambiente conhecido e já trilhado pelo varejo brasileiro.

As empresas que mais têm se destacado no setor são aquelas que desenvolveram essa competência e ampliaram as alternativas de serviços financeiros, como Carrefour, Riachuelo, Renner, Magalu, Casas Bahia, Pernambucanas, Pão de Açúcar e outras mais, como Mercado Livre na frente digital.

Importância de serviços financeiros potencializa expansão

O cenário atual e futuro mostra uma migração para uma condição de crescente incorporação de serviços e soluções às operações tradicionais do varejo. Isso vem ocorrendo em todo o mundo.
Essa perspectiva pressupõe outra cultura, modelos de negócios, organização, gestão, tecnologia e digital – inclusive, e cada vez mais, com uso de Inteligência Artificial.

E que será mais fluída e diferencial na realidade brasileira, pois o que já se faz no Brasil com os serviços financeiros no varejo criou, em bases históricas, os elementos para que esse processo evolua de forma muito mais rápida, natural e consistente.

Vale refletir. E agir.

Nota: Durante a 10ª edição do Latam Retail Show, de 16 a 18 de setembro em São Paulo, houve especial ênfase em todas as transformações na economia, no mercado e no ambiente de negócios no Brasil e no mundo, analisando e mensurando seu impacto no varejo e no consumo, tendo se destacado o tema que envolve serviços financeiros no varejo.

O conteúdo gerado em mais de 100 horas e nos debates com mais de 260 palestrantes, moderadores e curadores estará em breve à disposição para os interessados. Se tem interesse, entre em contato com [email protected].

Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem e publisher da plataforma Mercado&Consumo.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.

Imagem: Envato

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Marcos Gouvêa de Souza

Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem, o mais relevante ecossistema de consultorias, soluções e serviços que atua em todas as vertentes dos setores de Varejo, Consumo e Serviços. É membro do Conselho do IDV, IFB e Ebeltoft Group, presidente do LIDE Comércio, conselheiro do grupo BFFC/Bob's, publisher da plataforma MERCADO&CONSUMO e autor/coautor de mais de dez livros relacionados aos temas de sua especialidade.

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