“Precisamos ter a coragem de admitir que nosso legado nos temas que envolvem desigualdade social, segurança e corrupção é triste. Para dizer o mínimo.
Se as estatísticas oficiais mostram alguma evolução ao longo dos últimos 50 anos, o comparativo com os parâmetros internacionais, em especial das economias mais desenvolvidas, mostra o quão pouco evoluímos. Isso quando não regredimos – em especial no tema da corrupção.
O aprofundamento da desigualdade social faz subdividir o Brasil em dois países antagonicamente diferentes: o afluente, reunindo a parcela da sociedade que vive as delícias do acesso a tudo que de melhor pode ser obtido, e o dependente, que vive do que consegue obter em termos de auxílios.
Neste segundo grupo, estão 92 milhões de brasileiros que têm acesso a algum tipo de programa social, liderado pelo Bolsa Família, que beneficia perto de 20 milhões de famílias. E que é muito importante e fundamental, mas que precisa evoluir de imediato para permitir seu uso por quem está empregado formalmente.
Sem essa evolução, ampliamos o drama da previdência, estimula-se a informalidade e potencializa-se o problema da dependência dos programas de auxílio.”
Insegurança tem raízes na impunidade e no Judiciário
Enquanto se espalha o sentimento de insegurança e preocupação com o avanço das facções na economia real, cresce a percepção de que a impunidade e a lentidão do Judiciário são o motor principal de expansão desse quadro. Registrando que o Brasil tem o segundo maior índice global de custo do Judiciário em relação ao PIB, ficando só atrás de El Salvador.
A participação das despesas do Judiciário do Brasil em relação ao PIB, dependendo das fontes e metodologia, oscila entre 1,2% e 1,6%, incluindo gastos com tribunais, magistrados, servidores, instalações e o custeio geral do sistema judiciário. Isso representa aproximadamente R$ 160 bilhões por ano e é quase quatro vezes a média internacional, que está em 0,3% do PIB.
O quadro que envolve o sentimento de crescente insegurança se reflete no comportamento cada vez mais cauteloso da população, mais arredia e assustada com os fatos que se sucedem e numa escalada que não se consegue visualizar sua reversão. O que desafia a capacidade dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário de enfrentarem e solucionarem a situação.
Na corrupção, estamos em nosso pior momento
Pelo Corruption Perceptions Index (CPI) de 2024, desenvolvido pela Transparência Internacional com sede em Berlim, o Brasil pontua 34 numa escala de até 100, sendo que o índice 0 é do mais corrupto e o 100, o mais íntegro. Nossa posição é 107º entre 180 países.
A atual posição mostra que, no período de 2019 a 2024, tivemos nossa pior fase na série histórica. O dado mais atual é nossa pior colocação já registrada na série, iniciada em 1995.
O sentimento expresso pelo índice é baseado em percepções a partir de dados de múltiplas fontes independentes, como Banco Mundial, World Economic Forum, Bertelsmann Foundation e outras.
Na desigualdade, melhora no plano interno e queda na comparação global
O elemento que mede o quadro de desigualdade é Coeficiente de Gini. Ele mostra queda da desigualdade, chegando a aproximadamente 0,50 em 2024. De fato, o menor nível histórico da série para o País. Esse comportamento é reflexo de ganhos de renda e resultado da ampliação dos programas sociais.
Mas o Brasil está no topo da desigualdade entre os países do G20, grupo que reúne as maiores economias do mundo. Em comparação direta com esses países, o nosso patamar atual de 51,6 de desigualdade pelo Índice de Gini é quase que 50% maior do que o dos demais países.
Na prática estamos melhorando nos últimos anos, porém estamos ainda muito distantes dos países que deveriam ser referência nesse tema.
Muito por fazer e por mobilizar
É matemático que estamos nos distanciando de um quadro de positiva e significativa evolução quando nos comparamos com o cenário global. E a questão não é levantar o problema, mas sim fazer parte da solução.
Pelas mais diversas razões, incluindo o temor da exposição pública de opiniões e alertas, líderes empresariais têm se resguardado, preferindo as manifestações por meio de suas entidades. O que é um caminho.
Também importante reconhecer que as verbas públicas para os partidos políticos reduziram a disposição e atenção para ouvir e defender causas empresariais e do setor privado de forma geral.
Mas é inegável considerar que todo o sistema de benefícios, concessões, estímulos e apoios, em especial na área tributária, torna complexa a convergência de pensamentos e propostas integrando o setor empresarial.
O custo da contemporização está expresso e comprovado nesse triste legado.
A perspectiva comprovada na prática de que os setores públicos – Executivo, Judiciário e Legislativo – por si só ou pela mão de um líder messiânico poderão reverter esse quadro é pueril.
Esse legado envergonhado só se reverterá se a sociedade, em especial o setor empresarial de forma ampla, se convencer e se mobilizar para mudar.
Caso contrário, é só constatar e se envergonhar.
Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem e publisher da plataforma Mercado&Consumo.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem: Envato














