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Home Varejo

O “Mercadão da Shein” não é da Shein: o que descobri no OneLink, em Guangzhou

O que o varejo brasileiro precisa entender sobre o atacado mais visitado da metrópole chinesa

Theo Paul Santana, da China de Theo Paul Santana, da China
26 de maio de 2026
no Destaque do dia, Notícias, Varejo
Tempo de leitura: 4 minutos
O "Mercadão da Shein" não é da Shein: o que descobri no OneLink, em Guangzhou

Acabei de visitar o OneLink, em Guangzhou, pela primeira vez. Para quem trabalha com varejo no Brasil e ainda não o conhece, vale muito a visita – e eu vou explicar o porquê. Mas, antes, é preciso desfazer um mal-entendido.

Entre os brasileiros, o OneLink ficou conhecido como o “Mercadão da Shein”. É um apelido que pegou nas redes sociais e que vende a ideia de que a Shein produz ou compra ali. Não é assim. O OneLink é gigante, impressionante e tem uma variedade absurda, mas não tem nada a ver com a operação da Shein.

O que o OneLink realmente é

O nome oficial é OneLink International Plaza, ou Wanling Plaza, em chinês. Fica no Yuexiu District, no centro de Guangzhou, a cinco minutos a pé do metrô Haizhu Square (linhas 2 e 6). O prédio tem 41 andares e 138 metros de altura, mas o que interessa ao varejista são os dez andares dedicados ao atacado: do subsolo ao nono andar, são mais de 40 mil metros quadrados de área comercial, com cerca de 1,5 mil a 2 mil fornecedores expondo mais de um milhão de SKUs.

Cada andar tem uma especialização. No subsolo e nos primeiros andares, ficam os brinquedos de pelúcia, cubos mágicos, jogos educativos e brinquedos infantis. Subindo, aparecem presentes corporativos, papelaria, organizadores de mesa e artigos festivos. Os andares superiores concentram decoração para o lar, flores artificiais, quadros, espelhos, vasos e enfeites de Natal e Ano Novo Chinês – categoria em que o OneLink é especialmente forte. No topo da operação atacadista, estão bijuterias, acessórios para celular, gadgets eletrônicos e os “novelty items”, aqueles produtos de tendência que duram seis meses na vitrine.

Onde mora o equívoco com a Shein

A Shein não tem um “mercadão”. A operação dela é completamente diferente. A empresa trabalha com cerca de 5,4 mil pequenas fábricas de confecção espalhadas por bairros como Panyu, em Guangzhou, e por cidades vizinhas como Dongguan e Foshan. Esses bairros, apelidados de “Vilas Shein”, produzem em microlotes – 100 a 200 peças por modelo –, respondendo a algoritmos que ajustam o catálogo a cada poucos dias. Não são feiras nem shoppings atacadistas. São galpões e oficinas fechados ao visitante comum.

O OneLink é outro animal. É um shopping vertical de atacado, organizado, climatizado, com vitrines, escadas rolantes e elevadores. Funciona das 9h às 19h, sete dias por semana, e se descreve como uma “feira de 365 dias”. A confusão acontece porque, para o consumidor brasileiro, “produto barato chinês” virou sinônimo de Shein. Só que no OneLink você encontra tudo, menos a moda em microlotes no estilo Shein.

Por que o OneLink importa para o varejo brasileiro

Para quem trabalha com presentes, decoração, papelaria, brindes corporativos, organização do lar, festas, achados de loja de R$ 1,99 e marketplaces de tendência, o OneLink é uma das fontes mais acessíveis da China. E “acessível” aqui é literal: a quantidade mínima de pedido (MOQ) é muito mais baixa que em Yiwu, o famoso polo atacadista do interior. Em vários estandes, dá para fechar pedidos com 10, 20 ou 30 unidades – algo impensável na maioria dos polos chineses, nos quais o piso costuma ser de 100 peças por SKU.

A vantagem é dupla. Primeiro, permite ao pequeno e médio varejista brasileiro testar produtos e variedade sem o risco financeiro de uma encomenda gigante. Segundo, encurta o tempo de catálogo: o OneLink renova as vitrines o ano inteiro, com calendários que acompanham datas comemorativas globais – Halloween, Natal, Dia dos Namorados, festas chinesas e volta às aulas. Quem entende esse ritmo antecipa lançamentos no Brasil em 60 a 90 dias.

O perfil do comprador mudou

Na minha passagem por lá, foi impossível não notar a presença brasileira: compradores entrando em estandes de papelaria, fotografando vitrines de utilidades e negociando o preço de bijuterias por quilo. O movimento veio de mãos dadas com a isenção de visto para brasileiros em viagens de negócios à China – válida até o fim de 2026 – e com o crescimento explosivo do comércio bilateral, que em 2025 alcançou US$ 171 bilhões, um recorde histórico.

Antes, ir ao OneLink era um movimento de importadores grandes. Hoje, é um movimento de lojistas, donos de marketplace, criadores de marcas de presentes, e-commerces de papelaria criativa e redes pequenas de variedades. O perfil ficou mais pulverizado e, ao mesmo tempo, mais profissional.

O que tirar dessa visita

A leitura que fica é simples. Primeiro: parar de acreditar que tudo o que vem da China é “Shein”. A China é uma rede de mercados especializados, e o OneLink é o ponto certo para algumas categorias, e o errado para outras.

Segundo: para o varejo de presentes, decoração e utilidades no Brasil, ir ao OneLink hoje é como ter visitado a 25 de Março trinta anos atrás, antes de o mercado aprender a escolher fornecedores de forma direta. Vale o investimento, mas exige preparo – saber comparar preços entre estandes, ter um agente de compras local, entender o mínimo de pedido e o ciclo de embarque.

E terceiro: o OneLink é um termômetro. O que está na vitrine de lá hoje, com calendário e variação de cores pensados para datas globais, é o que vai chegar à sua loja, ao seu marketplace e ao seu fornecedor brasileiro nos próximos meses. Para o varejista que ainda não foi, vale muito a visita.

Theo Paul Santana é fundador do Destino China.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem: Divulgação WSH

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