Acabei de visitar o OneLink, em Guangzhou, pela primeira vez. Para quem trabalha com varejo no Brasil e ainda não o conhece, vale muito a visita – e eu vou explicar o porquê. Mas, antes, é preciso desfazer um mal-entendido.
Entre os brasileiros, o OneLink ficou conhecido como o “Mercadão da Shein”. É um apelido que pegou nas redes sociais e que vende a ideia de que a Shein produz ou compra ali. Não é assim. O OneLink é gigante, impressionante e tem uma variedade absurda, mas não tem nada a ver com a operação da Shein.
O que o OneLink realmente é
O nome oficial é OneLink International Plaza, ou Wanling Plaza, em chinês. Fica no Yuexiu District, no centro de Guangzhou, a cinco minutos a pé do metrô Haizhu Square (linhas 2 e 6). O prédio tem 41 andares e 138 metros de altura, mas o que interessa ao varejista são os dez andares dedicados ao atacado: do subsolo ao nono andar, são mais de 40 mil metros quadrados de área comercial, com cerca de 1,5 mil a 2 mil fornecedores expondo mais de um milhão de SKUs.
Cada andar tem uma especialização. No subsolo e nos primeiros andares, ficam os brinquedos de pelúcia, cubos mágicos, jogos educativos e brinquedos infantis. Subindo, aparecem presentes corporativos, papelaria, organizadores de mesa e artigos festivos. Os andares superiores concentram decoração para o lar, flores artificiais, quadros, espelhos, vasos e enfeites de Natal e Ano Novo Chinês – categoria em que o OneLink é especialmente forte. No topo da operação atacadista, estão bijuterias, acessórios para celular, gadgets eletrônicos e os “novelty items”, aqueles produtos de tendência que duram seis meses na vitrine.
Onde mora o equívoco com a Shein
A Shein não tem um “mercadão”. A operação dela é completamente diferente. A empresa trabalha com cerca de 5,4 mil pequenas fábricas de confecção espalhadas por bairros como Panyu, em Guangzhou, e por cidades vizinhas como Dongguan e Foshan. Esses bairros, apelidados de “Vilas Shein”, produzem em microlotes – 100 a 200 peças por modelo –, respondendo a algoritmos que ajustam o catálogo a cada poucos dias. Não são feiras nem shoppings atacadistas. São galpões e oficinas fechados ao visitante comum.
O OneLink é outro animal. É um shopping vertical de atacado, organizado, climatizado, com vitrines, escadas rolantes e elevadores. Funciona das 9h às 19h, sete dias por semana, e se descreve como uma “feira de 365 dias”. A confusão acontece porque, para o consumidor brasileiro, “produto barato chinês” virou sinônimo de Shein. Só que no OneLink você encontra tudo, menos a moda em microlotes no estilo Shein.
Por que o OneLink importa para o varejo brasileiro
Para quem trabalha com presentes, decoração, papelaria, brindes corporativos, organização do lar, festas, achados de loja de R$ 1,99 e marketplaces de tendência, o OneLink é uma das fontes mais acessíveis da China. E “acessível” aqui é literal: a quantidade mínima de pedido (MOQ) é muito mais baixa que em Yiwu, o famoso polo atacadista do interior. Em vários estandes, dá para fechar pedidos com 10, 20 ou 30 unidades – algo impensável na maioria dos polos chineses, nos quais o piso costuma ser de 100 peças por SKU.
A vantagem é dupla. Primeiro, permite ao pequeno e médio varejista brasileiro testar produtos e variedade sem o risco financeiro de uma encomenda gigante. Segundo, encurta o tempo de catálogo: o OneLink renova as vitrines o ano inteiro, com calendários que acompanham datas comemorativas globais – Halloween, Natal, Dia dos Namorados, festas chinesas e volta às aulas. Quem entende esse ritmo antecipa lançamentos no Brasil em 60 a 90 dias.
O perfil do comprador mudou
Na minha passagem por lá, foi impossível não notar a presença brasileira: compradores entrando em estandes de papelaria, fotografando vitrines de utilidades e negociando o preço de bijuterias por quilo. O movimento veio de mãos dadas com a isenção de visto para brasileiros em viagens de negócios à China – válida até o fim de 2026 – e com o crescimento explosivo do comércio bilateral, que em 2025 alcançou US$ 171 bilhões, um recorde histórico.
Antes, ir ao OneLink era um movimento de importadores grandes. Hoje, é um movimento de lojistas, donos de marketplace, criadores de marcas de presentes, e-commerces de papelaria criativa e redes pequenas de variedades. O perfil ficou mais pulverizado e, ao mesmo tempo, mais profissional.
O que tirar dessa visita
A leitura que fica é simples. Primeiro: parar de acreditar que tudo o que vem da China é “Shein”. A China é uma rede de mercados especializados, e o OneLink é o ponto certo para algumas categorias, e o errado para outras.
Segundo: para o varejo de presentes, decoração e utilidades no Brasil, ir ao OneLink hoje é como ter visitado a 25 de Março trinta anos atrás, antes de o mercado aprender a escolher fornecedores de forma direta. Vale o investimento, mas exige preparo – saber comparar preços entre estandes, ter um agente de compras local, entender o mínimo de pedido e o ciclo de embarque.
E terceiro: o OneLink é um termômetro. O que está na vitrine de lá hoje, com calendário e variação de cores pensados para datas globais, é o que vai chegar à sua loja, ao seu marketplace e ao seu fornecedor brasileiro nos próximos meses. Para o varejista que ainda não foi, vale muito a visita.
Theo Paul Santana é fundador do Destino China.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem: Divulgação WSH















