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Home Artigos

Como jogar o jogo no metacassino que afeta varejo, consumo e serviços

Momentum nº 1.168

Marcos Gouvêa de Souza de Marcos Gouvêa de Souza
27 de abril de 2026
no Artigos, Destaque do dia
Tempo de leitura: 5 minutos
Como jogar o jogo no metacassino que afeta varejo, consumo e serviços

Os defensores alegam que é parte da economia da experiência potencializada pelo digital e agora também pela Inteligência Artificial.

Os críticos destacam os impactos na economia, na sociedade e até mesmo na saúde mental. E até Lula se manifestou, apontando que problema do endividamento recorde de 82 milhões de brasileiros tem causa nas apostas em bets.

O inegável é que renda e recursos financeiros estão migrando do varejo, do consumo e dos serviços, os maiores geradores privados de emprego no Brasil, para apostas de toda forma.

Não é fenômeno restrito ao Brasil. Ele atinge de forma mais direta a economia ocidental, em especial Europa e Estados Unidos – com o Brasil em destaque.

A tal ponto que, por aqui, o Conselho Monetário Nacional (CMN) acaba de proibir as apostas preditivas para tudo além do que não se restringe ao mercado financeiro, já que esse modelo vinha aproveitando brechas na legislação para atuar de forma ilegal no mercado “protegido” das bets.

O tema envolvendo essas práticas tem criado problemas em vários países. Nos Estados Unidos, já se fala de uma epidemia fora de controle reunindo as bets, as apostas esportivas e as preditivas.

No Brasil, as apostas em bets atingem perto de R$ 300 bilhões por ano considerando as legais e as que não são controladas ou autorizadas – e que já responderiam por perto de 50% do todo.

Para efeito de referência e comparação, esse valor é equivalente ao todo do faturamento do setor de foodservice, que inclui bares, restaurantes, padarias, delivery e fast food do País. Ou perto de todo o faturamento do setor de telecomunicações, envolvendo empresas como Vivo, Claro, Tim e outras. Ou cerca de 50% do setor de supermercados, hipermercados e atacarejo do País.

É muito recurso desviado do consumo de bens e serviços para o mercado do “entretenimento” e que atrai cada vez mais empresas e estímulos promocionais para o metacassino que se criou e que cresce pelo aumento de empresas e negócios envolvidos, incluindo tradicionais veículos de comunicação, atraídos pela explosiva expansão.

Tudo parece conspirar para um processo alienante e viciante de entretenimento digital que tira o foco dos problemas reais cada vez mais complexos nos campos político, econômico e social.

Avanço recente e avassalador

Vale lembrar que esse movimento das bets começou por aqui em 2018 com a legalização das apostas esportivas, explodiu no período de 2019 a 2022 e foi regulamentado de forma definitiva em 2024.

A empresa legalizada e autorizada paga R$ 30 milhões pela outorga da licença e 12% sobre a receita bruta das bets, o que gera um potencial de arrecadação total estimado entre R$ 6 e R$ 12 bilhões por ano. E toda arrecadação é importante para equilibrar o aumento dos gastos públicos exponenciado pelo período eleitoral.

Esses números desconsideram tudo que as empresas informais capturam à margem da legalidade, sobre o que fica difícil gerar estimativas.

Parte relevante desse recurso migra para o mercado externo, para as controladoras ou operadoras das empresas no Brasil.

As apostas preditivas, o mais recente negócio desse ecossistema de atividades, têm a simplicidade e a amplitude de alternativas a seu favor, aumentando o potencial de massificação de acesso, pois os apostadores podem comprar probabilidades de eventos envolvendo eleições, inflação, clima, preços, comportamento de consumo ou lançamento de produtos, numa infinidade de oportunidades.

A razão fundamental da interferência do CMN proibindo as apostas preditivas foi a redução do potencial de arrecadação pela brecha identificada de ser parte do mercado financeiro e, portanto, não precisando pagar pela outorga e os impostos envolvidos.

Uma questão adicional é o uso de IA também como apostadora, jogando um jogo muito mais complexo que ao final tem por objetivo fundamental envolver, entreter, aumentar o volume de apostas e os ganhos das empresas envolvidas no metacassino e do governo com a arrecadação de impostos.

E desviando recursos, renda e emprego do consumo de produtos, serviços e marcas no varejo e no mercado.

Para integrar consumo, varejo e entretenimento

Muitos mecanismos promocionais adotados pelo varejo e marcas de alguma forma representam atuação nesse universo das apostas, ainda de forma tímida.

Sorteios, concursos, ofertas, promoções dinâmicas e outros mecanismos usados pelo varejo representam, de certa forma, uma “gamificação” do consumo, que parece ter apelo crescente na experiência do consumidor.

Existem diferentes modelos e alternativas, envolvendo cashback probabilístico, cupons progressivos, programas de fidelidade gamificados, ofertas limitadas ou mesmo engajamento de consumidores como promotores de vendas, que podem ser consideradas alternativas para maior envolvimento nessa febre, aparentemente não passageira, do entretenimento, apostas e experiência.

Exemplos da China, da Europa e dos Estados Unidos sinalizam oportunidades que, se não se podem eliminar o problema, ao menos indicam formas de aprender a jogar com ele.

Para fechar

A arrecadação de impostos com o varejo e o consumo formais, aliada à geração de emprego e renda, tem impacto social e econômico muito mais relevante e mais importante do que o gerado pelos impostos das bets formais.

Isso sem esquecer a ampliação do risco social e de saúde mental associados ao vício e ao endividamento.

As bets e suas variantes criaram um dos maiores grupos de pressão no Congresso, reunindo e complementando os “4 Bs” que influenciam decisões por lá: as bancadas ligadas à Bíblia, Bala, Boi – e, agora, Bets.

Mas, de outro lado, é importante considerar que existe uma mensagem clara: o apelo do entretenimento está cada vez mais associado aos hábitos dos omniconsumidores, e cabe ao varejo, ao consumo, às marcas e aos serviços buscar alternativas para jogar também esse jogo de forma criativa, inovadora e envolvente para manter ou expandir seus negócios.

É assim que é.

Nota: Nesta segunda-feira, teremos o Inside Fashion Business reunindo líderes do todos os setores ligados à cadeia de valor da moda e discutindo o momento, perspectivas e seus impactos e caminhos estratégicos para seus negócios. O evento será presencial, mas também poderá ser acompanhado virtualmente mediante pré cadastramento. Mais informações podem ser acessadas por meio deste link.

Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem e publisher da plataforma Mercado&Consumo.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem: Envato

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Marcos Gouvêa de Souza

Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem, o mais relevante ecossistema de consultorias, soluções e serviços que atua em todas as vertentes dos setores de Varejo, Consumo e Serviços. É membro do Conselho do IDV, IFB e Ebeltoft Group, presidente do LIDE Comércio, conselheiro do grupo BFFC/Bob's, publisher da plataforma MERCADO&CONSUMO e autor/coautor de mais de dez livros relacionados aos temas de sua especialidade.

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