O franchising brasileiro tem características, organização, gestão, propostas e inovações próprias e vai além de ser apenas uma variante do que se pratica nos mercados norte-americano, asiático ou europeu.
Na sua essência, é um modelo de negócio para o varejo, o consumo e os serviços que se desenvolveu em uma economia marcada pela volatilidade, em um mercado polarizado entre afluentes e dependentes, num ambiente tributário complexo e sempre sob intensa pressão. E, como consequência, desenvolveu competências que hoje o diferenciam em termos estruturais e globalmente.
A leitura superficial enxerga o Brasil como um mercado menos maduro, mas, na realidade, somos um dos ambientes mais complexos e competitivos para a atuação empresarial.
Conceitos, práticas e negócios que evoluem de forma positiva por aqui têm elevado potencial de exportação.
E pode e deve ser considerado um modelo de exportação, pois esses elementos são parte do cenário do futuro para a maioria das economias do mundo em processo de reconfiguração política, econômica e digital, potencializadas pela Inteligência Artificial (IA).
Quando o mundo se torna mais complexo, práticas nativas de negócios, como o franchising brasileiro, podem se tornar referência global.
Os exemplos de redes como O Boticário, Cacau Show, Chilli Beans, Lavanderia Omo e muitas outras, líderes globais em seus segmentos, assim como a própria representatividade, o crescimento e a maturidade do setor de franquias, confirmam essa visão.
Os números locais e globais
No Brasil, o setor de franquias teve, em 2025, faturamento anual superior a US$ 60 bilhões, com cerca de 3,3 mil franqueadores e mais de 200 mil unidades em operação, e responde por cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB), empregando diretamente aproximadamente de 1,8 milhão de pessoas.
Para efeito de comparação, nos Estados Unidos há mais de 3 mil redes de franquias e perto de 800 mil unidades em operação, com faturamento consolidado de US$ 850 bilhões. No Japão, existem cerca de 700 franqueadores e 260 mil unidades. Na Europa, considerada de forma consolidada, mas com presença muito diversa entre os países, há perto de 200 mil unidades, com receita estimada de US$ 350 bilhões. Já na China, estima-se que haja mais de 6 mil redes, com 880 mil unidades.
O franqueado brasileiro é mais operador do que investidor
Nos Estados Unidos, entre 40% e 50% dos franqueados são operadores de multiunidades e frequentemente estão estruturados como investidores com gestão profissional.
Na realidade brasileira, temos uma fragmentação muito grande, com a maioria dos franqueados operando de uma a três unidades e envolvidos diretamente na gestão do negócio, fazendo dessa alternativa a sua atividade empresarial própria e seu meio de sustento.
Essa situação traz uma visão muito diferente, em especial em relação aos EUA e à Europa.
Nos EUA, o investimento em uma franquia oscila, em média, entre US$ 250 mil e US$ 1 milhão; na Europa, de US$ 170 mil a US$ 600 mil; e no Brasil, de US$ 30 mil a US$ 150 mil, pensando sempre em termos médios de conversão direta para o dólar. E isso explica, de certa forma, o perfil dos franqueadores.
Na realidade norte-americana, a orientação é focada em capital e escala, enquanto, no Brasil, o foco tem mais a ver com operação, emprego e empreendedorismo.
Com isso, formou-se uma base de franqueados com características de adaptação, resiliência e flexibilidade operacional bem diferenciadas.
É preciso também valorizar o universo das microfranquias, com investimento inferior a R$ 130 mil, que já têm expressiva relevância no mercado, com participação estimada em torno de 25% das redes.
Enquanto, nos mercados maduros, as franquias são fortemente baseadas em alimentação e varejo de forma geral, no Brasil temos participação expressiva dos segmentos de serviços, saúde, educação e estética, caracterizando o País como um dos maiores exemplos globais de franchising em beleza e bem-estar.
Custo Brasil promove a expansão
Os aspectos específicos da realidade brasileira, envolvendo inflação elevada, convívio com o imponderável, juros reais entre os maiores do mundo, volatilidade econômica e elevada complexidade tributária, acabaram estimulando a adoção do modelo de franquias como uma alternativa predominante para a expansão de negócios, tanto da indústria de consumo nas mais diversas categorias quanto de empresas de serviços pessoais, financeiros, profissionais ou empresariais.
Outra característica é o desenvolvimento de modelos mais leves, com estruturas mais enxutas e retorno do investimento mais curto, enquanto nas economias mais desenvolvidas e estáveis, como nos EUA, o retorno é considerado entre 4 e 7 anos, por aqui, para atrair investidores precisa acontecer entre 1,5 e 3 anos.
Igualmente, a relação entre franqueadora e franqueado no Brasil é distinta da observada nas economias mais desenvolvidas, predominando uma maior proximidade, apoio e suporte, além do aspecto fundamental que envolve a formação e o desenvolvimento do franqueado para o sucesso de sua atividade.
Interiorização e capilaridade: o novo vetor de crescimento
Os dados mais recentes e o processo evolutivo do setor mostram uma transformação relevante, com as franquias presentes em cerca de 70% dos municípios brasileiros e com consistente avanço nas cidades médias e até mesmo nas pequenas, pelas microfranquias, que apresentam forte expansão fora das capitais.
Apesar de cerca de 76% do faturamento ainda estar concentrado nas principais cidades, existe um forte movimento de interiorização, impulsionado pelo aumento da demanda em mercados menores, em especial os beneficiados pelo crescimento do agronegócio, mas também pelos menores custos operacionais, pela menor concorrência e pela expansão do consumo do chamado Brasil dependente.
Para reflexão final
O maior diferencial do franchising brasileiro é sua capacidade, competência e resiliência para operar de forma multicanal e crescer rapidamente em ambientes mais complexos e competitivos.
Se forem estruturadas e trabalhadas de forma correta, essas características podem se transformar em vantagem competitiva, em um modelo para mercados emergentes ou até mesmo maduros e, igualmente, em uma referência para países desenvolvidos em cenários de crise.
No mundo, desenvolve-se o franchising orientado para a eficiência e como alternativa de expansão, enquanto no Brasil se desenvolvem modelos multicanal focados no crescimento acelerado de negócios, como alternativa de venda direta ao consumidor pela indústria, redes orientadas para serviços pessoais e profissionais e sempre combinando eficiência com sobrevivência para pequenos, médios e grandes franqueados. Além disso, oferecem retorno mais rápido dos investimentos.
No repensar mais estratégico dos processos em transformação estrutural, em cenários mais instáveis, complexos e imprevisíveis de mercados e do próprio emprego, talvez possamos antecipar que já estamos já desenvolvendo o franchising do futuro.
Vale refletir e apostar.
Nota: A Mercado&Consumo amplia sua cobertura editorial e anuncia o lançamento de uma editoria dedicada exclusivamente ao universo de franquias. A iniciativa nasce em um momento de forte expansão do setor, que se consolidou como um dos principais motores de geração de negócios, emprego e empreendedorismo no País.
O franchising brasileiro atravessa um ciclo de transformação marcado pela profissionalização, pela digitalização e pelo avanço de novos modelos de negócios. Com presença em praticamente todos os segmentos da economia, as franquias têm desempenhado um papel relevante na interiorização do desenvolvimento econômico e na democratização do empreendedorismo.
Mais do que acompanhar números de expansão, a nova editoria tem como missão explorar as tendências que moldam o setor, os movimentos de grandes redes e franqueadores, os desafios da gestão, as mudanças no comportamento do consumidor, as oportunidades que surgem em um mercado cada vez mais competitivo e inovador e contribuir para a exportação de conceitos.
A proposta é oferecer uma cobertura aprofundada, reunindo entrevistas, análises, estudos, cases de sucesso e conteúdos exclusivos que contribuam para a tomada de decisão de empresários, investidores, executivos e empreendedores.
Com a nova frente, a Mercado&Consumo reforça seu compromisso de acompanhar os principais movimentos do varejo e do consumo no Brasil, reconhecendo o franchising como um ecossistema estratégico para o desenvolvimento econômico e para a construção de marcas cada vez mais conectadas às novas demandas da sociedade.
Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem e publisher da plataforma Mercado&Consumo.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
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