A Páscoa sempre foi mais do que uma data religiosa no Brasil: é um verdadeiro fenômeno de consumo, no qual o chocolate se consolida como protagonista absoluto, movimentando bilhões e ditando tendências para todo o setor de foodservice. De gerações passadas, quando os ovos simples de marcas populares enchiam as cestas familiares com sua promessa de doçura acessível e coletiva, chegamos a 2026 com um mercado em plena transformação.
O consumidor brasileiro evoluiu – ou melhor, se sofisticou –, trocando a tradição pela premiumização, em busca de experiências indulgentes que vão além do sabor, alcançando emoção, status e saúde. Vejo, nessa jornada, não só números impressionantes, mas oportunidades estratégicas para redes, distribuidores e operadores que souberem navegar por essa onda de valor agregado.
Lembremos o ponto de partida: nos anos 90 e início dos 2000, a Páscoa era sinônimo de volume. Ovos gigantes, de 500g ou 1 kg, dominavam as gôndolas, com foco em preços baixos e apelo massivo. Dados históricos da Abicab mostram que, naquela épcoa, o consumo de chocolate no período pascal girava em torno de 2 kg por família, impulsionado por promoções em supermercados e padarias. Era o foodservice clássico, baseado na compra por impulso, com pouca inovação e margens pressionadas pela concorrência de preços.
A crise econômica de meados dos anos 2010 mudou o jogo e forçou a indústria a repensar fórmulas. Com a inflação do cacau, que, em 2025 acumulou altas no IPCA, os preços dispararam, mas o volume não caiu tanto quanto se esperava. Pelo contrário, em 2025, a Abicab registrou 1.396 reportagens jornalísticas sobre o tema, destacando uma produção de mais de 45 milhões de ovos, 803 tipos variados e 94 lançamentos, muitos deles premium.
Hoje, em 2026, a narrativa é de crescimento mesmo em tempos desafiadores. Projeções da CNC e da CDL-SP indicam que 106 milhões de brasileiros devem ir às compras, com a expectativa de alta de 12% nas vendas totais, apesar do valor médio dos ovos ter subido 124,7% em alguns segmentos, reflexo da crise global do cacau, que encareceu a matéria-prima em até 24,77% para barras e bombons.
O que explica essa resiliência? A premiumização. O consumidor, mais maduro e conectado, rejeita o commodities: 56% preferem ovos industrializados premium, com recheios exóticos como matcha, pimenta ou frutas amazônicas, enquanto bombons (50%) e barras artesanais (39%) ganham espaço. Marcas como a Cacau Show apostam em linhas do chef, com ingredientes selecionados e embalagens sofisticadas, criando não só um produto, mas uma experiência sensorial. No foodservice, isso se reflete em parcerias com delivery: ovos personalizados via iFood ou Rappi, com opções veganas, low-sugar ou funcionais (probióticos, colágeno), atendendo ao público consciente que representa 40% das compras, segundo pesquisas recentes.
Essa evolução não é aleatória; é impulsionada por mudanças comportamentais profundas. As gerações millennial e Z, que ditam 60% do consumo pascal, buscam afeto e storytelling: ovos que contam histórias de origem ética, com certificações fair trade ou bean-to-bar, embalagens sustentáveis que reduzem o uso de plásticos em 30% e ativações imersivas nas redes sociais.
Veja o case das marcas que antecipam a Páscoa, com campanhas desde fevereiro, e ampliam investimentos em parcerias com influenciadores e experiências pop-up em shoppings. No varejo foodservice, padarias e confeitarias que antes vendiam ovos genéricos passam a lucrar com sobremesas pascais customizadas, como tortas de chocolate com 70% de cacau com infusões locais, elevando o ticket médio em 25%. A indústria, por sua vez, amplia em cerca de 50% a contratação de temporários para atender à demanda, enquanto o comércio diversifica, com ovos acessíveis, a partir de R$ 20, até opções indulgentes acima de R$ 200, equilibrando volume e margem.
Mas a premiumização vai além do preço. Trata-se de posicionamento estratégico. Com a inflação testando o bolso do consumidor e os ovos mais caros, o foodservice inteligente usa o omnichannel para capturar todos os perfis. Redes como a Starbucks e o Bob’s integram chocolates pascais em menus sazonais, enquanto distribuidores B2B oferecem kits premium para operadores, com foco em maior rentabilidade.
Projeções para 2026 apontam crescimento de 15% no segmento artesanal, puxado por e-commerce e delivery, que representam 30% das vendas. A lição? Diversificar receitas, investir em inovação sensorial e em narrativa emocional. Marcas que conseguem equilibrar acessibilidade com luxo, como as que oferecem minis premium a preços populares, saem na frente.
Olhando adiante, a Páscoa de 2027 promete mais: integração com tech, como realidade aumentada para personalização virtual de ovos, e foco em sustentabilidade, com cacau regenerativo para mitigar crises futuras. Para o foodservice, o caminho é claro: transforme a tradição em oportunidade de premiumização, em que cada mordida vende não só chocolate, mas emoção e status.
Como estrategista, afirmo: quem premiumiza vence, ao equilibrar tradição com inovação para fidelizar o consumidor que evoluiu tanto quanto o mercado.
Avante!
Cristina Souza é cofundadora e CEO da Tanjerin.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem: Envato
