Nos últimos anos, o setor de foodservice passou por um dos períodos mais dinâmicos de sua história, desafiando operadores a repensar sua maneira de operar, inovar e criar valor para os consumidores. Eventos globais ligados ao varejo, ao consumo e à tecnologia, como a NRF Retail’s Big Show, em Nova York; o Web Summit, em Lisboa; além da National Restaurant Show, em Chicago, entre outros eventos globais que acompanho, apresentam lançamentos e reforçam soluções que ultrapassam a barreira do óbvio.
Essas inovações apontam para um futuro mais sofisticado e estratégico, no qual tecnologia, comportamento do consumidor e sustentabilidade se encontram para ressignificar o mercado de foodservice global.
Um dos pontos centrais em que devemos nos concentrar é a conexão profunda entre a experiência digital e física. No foodservice, isso se traduz na ascensão de soluções que não apenas otimizam processos, mas redefinem a forma como os consumidores vivenciam refeições e serviços.
Um case que, embora não seja novo, chama a atenção é a aplicação de tecnologias de Inteligência Artificial generativa no design de menus e experiências. Foodtechs utilizam algoritmos para personalizar ofertas em tempo real, com base em padrões de consumo, dados nutricionais, clima e até no estado emocional dos clientes. Esse conceito, apresentado ao mercado pela startup Savory AI, coleta dados comportamentais e cria cardápios sob medida com foco em saudabilidade ou indulgência, dependendo do perfil do usuário.
Outra discussão relacionada à continuidade da evolução do delivery é o avanço potencial das dark kitchens, que podem ser requalificadas como smart kitchens. A grande diferença? São operações que vão além de oferecer um delivery eficiente; elas usam soluções totalmente integradas, com IoT (internet das coisas), monitoramento automatizado e análises preditivas, para reduzir desperdícios a níveis quase inexistentes.
Um exemplo fascinante é a Karakuri, uma empresa britânica que desenvolveu uma linha de robôs capazes de preparar refeições personalizadas, caloricamente balanceadas e prontas para entrega em minutos, tudo isso sem intervenção humana. A cada refeição, dados são gerados para prever tendências futuras e ajustar estoques automaticamente, alinhando a operação a modelos centrados em ESG. A tecnologia original tem sido pivotada para aplicações em processos repetitivos, como fritar e grelhar hambúrgueres.
Temas debatidos no Web Summit 2025 reforçaram um aspecto mais emocional do consumo de foodservice, reintroduzindo narrativas sobre a experiência gastronômica imersiva. Laboratórios de inovação na Europa exploram o poder da realidade aumentada (AR) e da realidade virtual (VR) para transformar uma refeição simples em um evento sensorial. Imagine jantar em um espaço onde a mesa, via VR, se transforma em um vinhedo italiano ou, quem sabe, em um ambiente futurista simulado por hologramas. Experiências como essas estão se popularizando como soluções premium, redesenhando o “luxo” sob demanda.
Outro ponto alto a ser destacado, em termos de tecnologia aplicada ao foodservice, é o impacto crescente da sustentabilidade e o uso de ingredientes alternativos nas operações. Muito além dos alimentos à base de plantas, que já conquistaram um lugar de destaque, devemos considerar o uso de proteínas regenerativas, como a carne cultivada em laboratório e os frutos do mar reproduzidos via engenharia molecular. A Wildtype, uma startup de São Francisco focada em sushi de salmão cultivado, ganhou os holofotes ao apresentar, durante o evento, parcerias com grandes redes como a SushiDaily, que aposta em agilidade operacional e em menor impacto ambiental.
No Brasil, podemos destacar a Cellva, que criou chocolate a partir de uma alternativa natural ao cacau, feita com café arábica selecionado, com rastreabilidade e certificação Fairtrade. Impagável.
Vale destacar também a discussão sobre automação sensível e ética, conceito que aparece com força na NRF. Operadores de foodservice enfrentam o desafio de integrar a tecnologia de maneira estratégica, sem desumanizar a experiência. A Makeline Robotics, empresa de tecnologia com base na Ásia, apresentou, em 2024, uma solução que equilibra automação com o toque humano.
Entre suas inovações, uma linha híbrida de finalização de saladas e, mais recentemente, de pizzas, na qual 80% do trabalho é feito por robôs enquanto os detalhes finais, como personalizações estéticas ou interações diretas com o cliente, são entregues por colaboradores. Essa abordagem reconhece que no foodservice, muitas vezes, a “arte” é tão importante quanto a eficiência, com o humano adquirindo um papel de curador.
Por fim, um grande insight que merece destaque é a importância da economia de dados no foodservice. A aplicação de ferramentas analíticas que capturam dados em tempo real sobre preferências e sazonalidade permite que redes operem com cardápios rotativos e dinâmicos, otimizados tanto para o cliente quanto para o operador. Cases apresentados por grandes players, como McDonald’s e Starbucks, em iniciativas conectadas a modelos de machine learning, mostram como insights detalhados podem fortalecer a experiência do cliente e impulsionar resultados financeiros.
Olhando para frente, a principal mensagem é clara: o foodservice tornou-se um setor regido por múltiplas camadas de inovação. Para prosperar, será necessário ser mais do que apenas eficiente ou criativo; será imprescindível arquitetar um ecossistema que combine tecnologia sofisticada, experiência humana e responsabilidade socioambiental. Mais do que uma evolução, estamos vivendo uma verdadeira revolução – e apenas aqueles que estiverem dispostos a participar dessa transformação estarão prontos para o futuro.
Avante!
Cristina Souza é cofundadora e CEO da Tanjerin.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem: Envato















