Pingo Doce é um dos braços do grupo varejista Jerónimo Martins e se tornou uma referência global operando mais de 260 restaurantes em Portugal e sinalizando a transformação dos negócios originários tradicionais de alimentação, como supermercados, que se reconfiguraram para uma plataforma integrando serviços e soluções em alimentação como uma visão em construção do futuro desse setor.
E que deve provocar profundas reflexões estratégicas a todos os operadores nesse segmento, em especial no Brasil.
Os exemplos de Pingo Doce, Mercadona, Whole Foods Market, Wegmans, Tesco e muitos mais têm a resposta objetiva e a dimensão da irreversível transformação estrutural que se vive nesse setor para quem ainda tem dúvidas sobre avançar com o foodservice integrado às lojas.
Sem contar os exemplos que vêm da China, Coreia, Japão e outros países asiáticos que sinalizam há tempos o processo transformacional que agora se espalha pelo Ocidente.
E que está atrasado no Brasil.
Enquanto na Europa a participação do foodservice representa em torno de 7% a 10% das vendas totais dos líderes desse movimento por lá, na Coreia varia de 20% a 30% e no Japão atinge entre 25% e 40%.
Os diferenciais do grupo Jerónimo Martins
O grupo Jerónimo Martins, com faturamento global próximo a US$ 40 bilhões em 2025, opera mais de 6 mil lojas em Portugal, Polônia e na Colômbia, com perto de 150 mil funcionários, e tem 98% de seu negócio ligados a alimentos. As marcas próprias representam 23% das vendas totais do grupo. Como referência, no mercado brasileiro as marcas próprias em supermercados têm participação em torno de 7%.
Em Portugal o grupo opera os supermercados Pingo Doce, o cash & carry Recheio e as cafeterias Jeronymo. No foodservice, opera a rede Comida Fresca com takeaway em 480 lojas e restaurantes em 264 unidades.
Sua mais importante operação na Europa é a rede Biedronka, da Polônia, focada em hard discount, que foi adquirida em 1997 e representa próximo a 70% do faturamento global. Por lá, atua também com a Hebe no segmento de saúde e beleza. No total são 3.800 lojas naquele país.
Na Colômbia, tem a Ara em hard discount e ainda em processo de desenvolvimento.
Em todos os casos, sua competência em desenvolver e operar marcas próprias, como muitos dos principais supermercados europeus, também é um dos diferenciais competitivos e que deve inspirar reflexões dos supermercados no Brasil.
O grupo tem ainda algo ainda limitado em produção agroalimentar em Portugal e Marrocos. E chegou a atuar no Brasil por cinco anos quando adquiriu os Supermercados Sé, em 1997, tendo deixado o País ao vender a operação para o Pão de Açúcar.
Integração e solução em alimentação
O mais importante diferencial do Jerónimo Martins associado à competência desenvolvida em hard discount e marcas próprias é a integração da solução em alimentação, representada pela operação dos restaurantes integrados aos supermercados Pingo Doce em Portugal, que os torna um exemplo no mundo ocidental daquilo que também se observa na Ásia – em particular na China, Japão e Coreia.
Em Portugal, o grupo Sonae também está expandindo suas operações de foodservice e opera restaurantes em 28 lojas e takeaway em 380 lojas.
Na operação dos restaurantes Pingo Doce em Portugal, todo o foodservice é produzido em duas cozinhas centrais com alguma finalização na própria loja. Isso representa uma mudança estrutural profunda, pois migra o negócio de vender alimentos nos supermercados para entregar soluções produzidas em escala industrial.
Em 2025, a operação foodservice teve expansão próxima a 23%, enquanto o Pingo Doce como um todo teve crescimento geral de 5,3% em Portugal e representou em torno de 12% das vendas, porém com contribuição relevante na margem Ebitda de 6% do total do grupo por lá.
Para reflexão
O modelo operado por Pingo Doce como conceito híbrido integrando foodservice e supermercados antecipa a dissolução das fronteiras entre varejo de alimentos, restaurante e conveniência, oferecendo aos consumidores alternativas complementares de comprar produtos e ingredientes, consumir no local e levar tudo pronto para casa. Da mesma forma como temos visto nos Estados Unidos com Whole Foods e Wegmans ou na Europa com Mercadona, Tesco e outros. Ou como é o conceito já dominante na Ásia.
Vale lembrar que nos Estados Unidos 59% de todos os dispêndios com alimentos e bebidas são hoje atendidos pelas diversas alternativas, modelos e formatos de operações de foodservice. Inclusive em supermercados, supercenters, warehouse clubs e lojas de conveniência.
Para os operadores e fornecedores de produtos e serviços a super e hipermercados, assim como atacarejo e conveniência, é fundamental a reflexão sobre a evolução ansiada pelos consumidores cada vez mais em busca de soluções que se integrem e facilitem sua vida.
De forma definitiva temos uma evolução configurada com a compra de alimentos e bebidas migrando para a compra de soluções e quanto mais rapidamente se conscientizarem e desenvolverem suas próprias alternativas e modelos, maior o potencial de crescimento de receitas e resultados.
Vale refletir. E, mais importante, agir.
Nota: No próximo dia 23 de junho, o Connection Foodservice Day, no auditório do iFood, contará com um extrato estratégico do que foi visto e aprendido durante o último NRA Show, em Chicago, analisando seus impactos no mercado brasileiro. O evento é uma realização conjunta da Gouvêa Ecosystem e do Instituto Foodservice Brasil (IFB), e conta com apoio da Abrasel e ANR. Para maiores informações e inscrições, clique aqui.
Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem e publisher da plataforma Mercado&Consumo.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem: Divulgação















