A experiência de uso do smartphones no Brasil está diante de um ponto de inflexão. Os principais gargalos continuam os mesmos, de acordo com a pesquisa Tecnologia Chinesa 2025, realizada pela Ipsos: 71% dos brasileiros já ficaram sem bateria em momentos importantes, 52% quebraram a tela ao menos uma vez e apenas 15% recorreram à assistência técnica oficial quando isso ocorreu. Não é apenas uma lista de frustrações, é um diagnóstico claro sobre onde a evolução tecnológica precisa ser mais assertiva.
Os smartphones não são só um dispositivo pessoal, ele é ferramenta de trabalho, meio de estudo, centro de entretenimento e ponte de conexão social. É comum que esse uso combinado se prolongue por muitas horas, longe da tomada e em condições diversas, o que pressiona dois eixos críticos da engenharia: autonomia e resistência. Em outras palavras, aquilo que antes era diferencial, bateria mais robusta e aparelhos mais duráveis, tornou-se requisito básico.
O levantamento da Ipsos ajuda a explicar essa urgência. Entre as principais queixas, 25% dos consumidores apontam a baixa duração da bateria; 23%, a necessidade de recarga mais de uma vez ao dia; e 12%, o superaquecimento. Esses números mostram que o consumidor brasileiro quer soluções consistentes, que combinem eficiência energética, segurança térmica e carregamento rápido, sem abrir mão do design fino que o mercado incorporou como padrão.
E a China ocupa um papel central nessa cadeia global de inovação, já que, segundo 42% dos entrevistados, o país é referência no desenvolvimento das baterias mais potentes do mercado. E os motivos são porque o ecossistema chinês tem avançado em materiais como silício-carbono, que oferecem maior densidade energética; em arquiteturas internas mais compactas, que permitem baterias maiores sem sacrificar o design; e em sistemas de carregamento rápido mais seguros, capazes de otimizar ciclos de vida sem comprometer o desempenho ao longo dos anos.
O avanço não está restrito à energia. A engenharia de resistência também evoluiu de forma acelerada. Estruturas internas reforçadas, bordas com absorção de impacto, certificações como a MIL-STD 810H e proteções contra água e poeira se tornaram mais presentes e fazem diferença em um país onde metade da população já quebrou a tela do smartphone pelo menos uma vez.
O Brasil está no centro dessas transformações, pois a complexidade de uso do consumidor brasileiro tem levado fabricantes a desenvolver soluções projetadas especificamente para esse mercado. É o caso de tecnologias que combinam baterias de alta capacidade com carregamento rápido e designs ultrafinos e de aparelhos com estruturas mais resistentes e pacotes de pós-venda mais completos. A evolução vai além do componente em si, ela parte de um entendimento mais profundo do contexto de uso, e não apenas da adoção de tendências globais.
Essa abordagem de engenharia orientada pela realidade local tende a diferenciar quem realmente entrega valor no País. O Brasil não é apenas um mercado grande; é um ambiente de pressão de uso constante, no qual consumidores avaliam desempenho, durabilidade, suporte e confiabilidade com cada vez mais rigor. As marcas que enxergarem o País como laboratório vivo de inovação, e não apenas como destino de portfólio, terão vantagem competitiva real.
A tecnologia que prospera por aqui é aquela que resolve problemas concretos: baterias que duram mais que um dia, aparelhos capazes de resistir ao cotidiano intenso e serviços de suporte que funcionam quando são necessários. A engenharia, antes vista como um detalhe técnico, passa a ocupar o papel central na próxima fase de evolução do mercado brasileiro de smartphones e, possivelmente, a influenciar padrões globais a partir daqui.
André Varga é diretor de Produto da Jovi.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem: Envato















